522 segundas-feiras

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Em um mundo que venera o imediato, pensar em dez anos soa quase como um ato de rebeldia. Nossos tempos são de pressa, de grandes expectativas em ciclos curtos. São de recompensa rápida. Por isso, uma verdade singela incomoda tanto: muita gente superestima o que pode fazer em um ano e subestima o que pode construir em dez. Uma década não muda apenas resultados. Muda a escala da vida. Muda a espessura da alma. Muda até a memória que temos de quem éramos. Mas quase tudo o que dura começa pequeno. E começa agora.

No dia 21 de março de 2016, aos 23 anos, publiquei meu primeiro artigo neste blog. Não havia um plano grandioso por trás daquilo. Havia só vontade. Eu queria produzir conteúdo para motivar concurseiros em um período difícil para o país e especialmente duro para quem estudava. O Gran era pequeno, o meu alcance era limitado e o futuro, uma incógnita. Mas eu tinha uma convicção: eu continuaria.

E continuei.

Desde aquela segunda-feira, não falhei uma única vez. Natal, Ano-Novo, feriado, semana leve, semana pesada… No começo, poucos liam. Quase ninguém estava olhando. Mas o longo prazo trabalha em silêncio, erguendo por dentro antes de aparecer por fora.

Hoje, olhando para trás, vejo que esta coluna não atravessou só o tempo. Ela atravessou o Brasil real. O Brasil dos sonhos escritos à mão e colados na parede. O Brasil da janela acesa a noite inteira porque uma mãe e duas filhas precisavam estar prontas para fugir. O Brasil dos cadernos reaproveitados, do celular apoiado na televisão, da 43ª tentativa que enfim vira toga, do primeiro da família a se tornar servidor público. Durante dez anos, escrevi para esse país. E foi esse país, em grande parte, que me escreveu de volta.

Há exatas 522 semanas, sem faltar uma única vez, publico meus textos neste espaço. O que no início era apenas insistência e teimosia foi se incorporando à minha rotina e ganhando método. E eis que o que era esforço individual acabou se tornando um acervo de encontros, confissões, dores, recomeços, fé e (a)provações. Não houve um dia mágico capaz de explicar essa transformação. Houve, sim, centenas de segundas-feiras que, somadas, fizeram o que a pressa jamais faz: construíram lastro.

Meus artigos já foram lidos milhões de vezes, algo que eu jamais poderia imaginar naquele início. Eu e meus leitores conversamos em tempos ásperos, marcados por crises econômicas e políticas, pandemia, guerras, incertezas de toda ordem. Falamos de medo, disciplina, foco, vocação, silêncio, crítica, coragem, fé. Falamos daquilo que faz uma pessoa continuar em pé quando a vida parece decidida a dobrá-la.

Ao longo dessa mesma década, o Gran saiu de 50 colaboradores para mais de 1.200. De 15 mil alunos para mais de 800 mil. São números expressivos, sem dúvida. Mas números, sozinhos, não comovem ninguém. O que realmente importa ficou fora das planilhas: as decisões difíceis, as noites mal dormidas enquanto a mente trabalha em soluções urgentes, as correções de rota, a responsabilidade crescente, a consciência de que, do outro lado da tela, havia gente depositando no nosso trabalho pedaços muito sérios do próprio destino.

Dois homens ajoelhados na frente do palco acenando, com uma grande multidão com as mãos para o alto ao fundo

Confraternização de dez anos do Gran com mais de mil colaboradores.

Depois de mais de 250 entrevistas no canal Imparável e de centenas de textos publicados aqui, uma certeza só aumentou dentro de mim: o longo prazo recompensa quem insiste. Não recompensa, necessariamente, quem parte de uma base melhor, nem quem parece mais talentoso, mas, sim, quem continua mesmo quando o encanto acaba, quando o aplauso some, quando a dúvida cresce, quando o cansaço chega. Permanecer é mais raro que começar. E, por isso mesmo, vale tanto.

Muita gente desiste cedo não por falta de potencial, mas por falta de horizonte. Quer medir uma travessia de dez anos com a régua nervosa de doze meses. Quer resultados imediatos de um processo que amadurece devagar. Quer a colheita antes de aceitar o plantio. Só que a vida não costuma revelar suas escadas de uma vez. Em geral, ela mostra apenas o próximo degrau, e bem aos poucos, primeiro um traço discreto, depois outro…

Homem sorridente segurando um diploma emoldurado com a inscrição 'Gran Centro Universitário'

O longo prazo entrega: além de CEO, tornei-me Reitor da Gran Faculdade. Nunca imaginei que isso aconteceria.

A última década não transformou apenas a empresa e a minha trajetória profissional. A vida também aconteceu. Conheci a Vivi, me casei com ela e tivemos três filhos lindos. Ora, sair da condição de solteiro e filho para a de marido e pai reorganiza tudo. Reorganiza a ambição. Reorganiza as prioridades. Reorganiza a maneira como entendemos sucesso. Alguns reconhecimentos me honraram ao longo do caminho, é verdade, mas pouca coisa se compara ao privilégio de construir uma família e de seguir, apesar de tudo o que mudou, com o mesmo espírito de quando publiquei aquele primeiro artigo.

Casal de noivos se abraçando e sorrindo, com as testas encostadas. A noiva segura um buquê de flores

27 de junho de 2020, o dia mais importante da minha vida.

Tenho para mim que o longo prazo não transforma apenas projetos. Ele transforma pessoas. Molda o caráter. Alonga a visão. Coloca o ego no lugar. Ensina paciência a quem queria velocidade e profundidade a quem se contentava com o raso. O erro é imaginar que as maiores conquistas nascem de ações grandiosas. Quase nunca nascem. Elas costumam vir de pequenas manifestações de fidelidade. Escrever um artigo por semana. Cumprir uma meta diária. Ajustar planos. Recomeçar sem alarde. Insistir mais um pouco quando seria mais confortável parar.

Captura de tela de um vídeo no YouTube mostrando um homem e uma mulher sentados no sofá, conversando em um cenário de entrevista

A coluna também virou um canal no YouTube, onde tive o prazer de entrevistar a minha própria mãe, nomeada consultora legislativa do DF aos 60 anos e ex-aluna do Gran, é claro. Casa de ferreiro, espeto de ferro!

Em dez anos, tudo pode mudar. Na verdade, muda, mas só para quem aceita a pedagogia dos dias comuns. O longo prazo não significa projetar para um futuro distante. Significa reafirmar uma decisão diariamente. Significa escolher continuar quando o resultado ainda não apareceu, quando tudo que se tem são “nãos”, quando o processo parece insustentável. É nessa hora que quase todos param, e é exatamente nessa hora que quase tudo começa.

Sendo bem sincero, o longo prazo vai acontecer de qualquer forma, com o seu esforço consciente ou não. O tempo passará, certo? Então, a questão é outra: quando ele tiver passado, o que encontrará em você? Tudo indica que nossa expectativa de vida está na casa dos cem anos. Nesse contexto, plantar sementes hoje, adquirir conhecimento e construir consistência para colher lá na frente talvez seja o investimento mais inteligente – e mais humano – que há.

Homem sorridente segurando exemplares abertos da revista Forbes Under 30

Tive o privilégio de viver reconhecimentos que jamais imaginei, como figurar na Forbes e na MIT Tech Review, ser eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young e conceder entrevistas aos principais veículos do país.

Dez anos depois de uma segunda-feira qualquer de março, sigo aqui. Não porque tenha dominado a vida – ou mesmo a técnica –, mas porque aprendi a respeitar o tempo. Aprendi que a transformação raramente chega de forma espetacular como nos filmes. Quase sempre ela vem disfarçada de rotina. De repetição. De segunda-feira.

Muito obrigado pelos últimos dez anos me acompanhando neste espaço. Que venham os próximos. E que, ao cabo deles, você possa olhar para trás e perceber que a sua vida também foi transformada.

Afinal, foi isto que 522 segundas-feiras fizeram comigo: deram-me mais que apenas uma coluna semanal. Deram-me um testemunho do que o tempo é capaz de fazer com quem insiste.

Homem sorridente segurando diversos livros nas mãos

Os textos desta coluna já viraram cinco livros. Você já leu algum?


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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  1. O primeiro servidor da família
  2. Da bicicleta ao distintivo
  3. Forjado no ferro
  4. A juíza que estudou no silêncio da UTI
  5. Aos 57, ele terminou o que começou aos oito
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  7. Sem computador, sem atalhos, sem plano B
  8. Novo país, novo idioma, novo começo — e um 1º lugar aos 58 anos
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  10. Quando sobreviver já não basta
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  16. Sem plano B
  17. Entre ônibus, câncer, provas, desemprego e vitória
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  20. Do “Caldeirão do Diabo” a juiz, professor e filantropo

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