Alfabetizado aos 14. Imparável para sempre.

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A história que vou contar hoje é de alguém que não conheceu a infância. Quando Paulo Ferreira Lopes pensa no tempo de menino, não lhe vêm à mente imagens do corre-corre matinal para chegar à escola no horário, das horas a fio brincando na rua ou mesmo de um lar no qual se sentisse acolhido. Na verdade, para ele, recordar a infância é também recordar um trauma que quase condenou seu futuro. 

Aos 4 anos, Paulo viu os pais se separarem. Pior: a mãe simplesmente foi embora e o deixou para trás com um pai alcoolista e violento. O garoto, então, foi morar na casa de uma tia na zona rural, onde o estudo era uma ideia que pertencia a outro mundo, um mundo que, ao que tudo indicava, não era o dele. De fato, enquanto outras crianças da sua idade aprendiam a ler, ele aprendia apenas a obedecer, a suportar, a produzir. O seu lema, na época, era trabalhar.

Passou anos entre a casa dessa tia e a do pai, que continuava com os velhos problemas de sempre. Nada mudava, até que um dia Paulo se viu sem ter para onde ir e foi parar na rua, chegando a dormir na rodoviária da cidade. O acolhimento veio de uma família que o abrigou em troca de ajuda nas tarefas da casa e na venda de pães e geladinhos… e de boas notas na escola. 

O problema era que, com 14 anos, ele não sabia nem ler. Não escrevia nem mesmo o próprio nome. Ele mesmo conta, sem dramatizar, que olhava para as letras como se elas fossem um código de acesso que nunca lhe haviam mostrado – como se a porta da leitura tivesse sido construída para todo mundo entrar, menos ele. 

Sem desistir, foi aprendendo aos poucos, com a paciência de quem sabe que está chegando tarde ao que deveria ter vindo primeiro, mas que não vai reclamar do atraso, só caminhar mais rápido. Terminou o ensino médio aos 28 anos, idade em que a maioria das pessoas espera já estar formada. Àquela altura, uma certeza nova pulsava no peito: tudo poderia ser diferente.

Antes, porém, viria mais trabalho duro. Casado, Paulo foi de tudo um pouco. Trabalhou como vaqueiro, vigilante e ajudante de pedreiro. Encarava serviço pesado, instável e mal pago. Nada que indicasse um horizonte melhor, apenas uma renda que resolvia o imediato. 

Então veio um dos momentos mais críticos. Sem emprego fixo e nenhuma comida em casa, Paulo e a esposa grávida se mantinham de pé à custa da mangueira do quintal. Almoço e janta eram manga verde com sal – isso quando havia sal. Certa tarde, enquanto ele tentava resolver como pagaria as contas do dia seguinte, a mulher desmaiou de fome.

Provavelmente foi esse evento que impulsionou Paulo a tomar a decisão da sua vida. Concursos públicos surgiram como única saída da situação em que ele e a família se encontravam. 

Contudo, na cidade pequena onde viviam, não existia cultura de concurso. Preparatório, orientação, simulados? Que nada! Tudo que Paulo tinha era uma percepção simples e brutal: ou isso muda, ou nada muda. 

Então, ele começou como podia, com apostila comprada de vendedor de rua, material trazido por colegas de outras cidades, estudo em biblioteca, ajuda de um diretor de escola nas horas vagas. Paulo estudava com fome, com sede e exausto do trabalho. Nada de bonito nisso; apenas a realidade nua e crua dele e de tantos em condições semelhantes…

Eis que, em 2011, veio a primeira aprovação, para a Guarda Municipal da Bahia. O nome no Diário Oficial não era apenas um resultado. Era uma ruptura, a prova concreta de que nada era impossível. Paulo se emocionou. Não acreditava completamente, mas, sim, seu nome estava lá! A vida começava mesmo a mudar.

Grupo de homens em formação militar, vestindo camisetas brancas e calças jeans, parados em posição de descanso em um pátio

A posse como guarda municipal tirou Paulo e a família da miséria. Foi o início de uma profícua jornada de aprovações.

Foi, para dizer o mínimo, um respiro. Deixou de faltar comida na mesa, e Paulo compreendeu que aquele era apenas o primeiro degrau de uma escada que ele podia, sim, subir.

Continuou estudando como dava. Entre as jornadas de trabalho e as responsabilidades de pai de família; no intervalo do almoço e nas folgas. Com a plataforma do Gran estruturou melhor a preparação, o que lhe garantiu a aprovação para a Polícia Penal de Minas Gerais. Ficou mais de uma década no cargo, mas, de novo, não parou.

Homem com fones de ouvido posicionado ao lado de um computador, onde o monitor exibe uma videoaula

Estudando com a querida professora Geilza.

Vieram outras provas bem-sucedidas, nos concursos das polícias penais do Espírito Santo e de Goiás. Junto, veio algo ainda mais importante: o exemplo para os filhos, que começaram a repetir o padrão do pai concursado. Um deles, com 17 anos, já está prestando concursos. 

Homem de regata ajoelhado no chão com os braços abertos e um homem de camisa azul em pé ao seu lado, em frente à fachada de um laboratório de capacitação.

Após ser aprovado no TAF, Paulo se ajoelhou e agradeceu a Deus. Mais uma vitória!

Hoje, o Paulo adulto é capaz de olhar para o Paulo criança sem tristeza. Ele não apaga a dor nem suaviza o passado, mas também não se define por ele. Tem casa. Tem carro. Tem segurança. Tem algo que, para muita gente, parece básico, mas para ele foi fruto de muito empenho: estabilidade, e a consciência de que foi capaz de construí-la do zero, com as próprias mãos. Alfabetizado aos 14 anos. Aprovado em 7 concursos policiais. Pai de um filho de 17 que já estuda para seguir seus passos.

Não faz muito tempo, escrevi que às vezes a distância entre uma criança que trabalha para sobreviver e um servidor público de farda cabe em uma única decisão reafirmada todos os dias (leia AQUI). Paulo é outra prova concreta dessa verdade. Ele não teve infância. Não teve base. Não teve caminho pavimentado. Teve ausência, violência, fome e um atraso que seria desculpa suficiente para qualquer um se conformar com a própria sorte. Mas teve também algo que, no fim, pesou mais que tudo: resiliência.

Nem quando parecia tarde demais, ele desistiu. Ao contrário, seguiu firme, seguiu constante, seguiu determinado. Às vezes, é só isso que importa.

Policial fardado e armado posicionado à frente de um painel de "Operações Especiais"

Estuda que até a roupa – no caso, a farda – muda.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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