Cheiro de madeira

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A infância, para Adrielly Borges, tem cheiro de madeira recém-cortada. O cheiro real da marcenaria do pai, o lugar onde ela brincou, correu, pulou e cresceu entre montes de serragem. Outras crianças talvez guardem o perfume das árvores do quintal, o aroma de um bolo no forno, a mistura de suor e concreto do pátio da escola. Adrielly guarda o cheiro da madeira. Para ela, esse cheiro é sinônimo de casa, de pai, da primeira lição que a vida lhe ensinou antes mesmo de ela saber que estava aprendendo: quase tudo que vale a pena nasce do trabalho paciente de quem constrói com as próprias mãos.

A pequena Adrielly na marcenaria do pai.

O pai sustentou a família por quase toda a vida com o esforço do seu trabalho quase artesanal. A mãe cuidava dos filhos, estudava e aceitava um trabalho ou outro no meio tempo para aumentar a renda familiar. Não era fácil, mas havia naquela casa uma virtude discreta: ninguém prometia o que não podia cumprir, e ninguém reclamava do que não dava para mudar. 

O ponto de partida de Adrielly não foi, portanto, o privilégio, e sim o esforço. Ela fez todo o ensino básico na escola pública, e foi a rede pública que também lhe abriu as portas da graduação e, na sequência, do mestrado. Curiosamente, a essa altura, o concurso público ainda não estava no horizonte. Essa possibilidade entrou em cena mais tarde, quando a mãe, recém-separada, precisou reconstruir a vida, começou a estudar para concursos municipais e passou. Adrielly viu de camarote o que acontece quando uma mulher conquista autonomia depois de anos de instabilidade. Assistiu à mãe ganhar independência e dignidade, e foi isso que a marcou, embora por algum tempo ela ainda fosse apostar em outro caminho. 

Formou-se em Arquitetura e começou a trabalhar em loja de decoração, em loja de armários, no escritório dos outros… Mudou de cidade, deu aula e seguiu tentando montar uma carreira, como muitos jovens à procura de um lugar no mundo fazem: mais na coragem que na certeza. Só que, com o tempo, a conta não fechava. O cansaço aumentava, e o retorno, não.

Os concursos começaram a se insinuar quando Adrielly foi dar aula no Instituto Federal como professora temporária e não tardou a notar a vantagem mais evidente dos colegas concursados: previsibilidade. Aquilo a instigou, de modo que, quando saiu o edital de assistente administrativo no próprio IFG, ela resolveu tentar. Passou. Na época, pareceu uma vitória enorme, e era mesmo! O mundo dos concursos tinha deixado de ser algo apenas para os outros. Ele agora a incluía. 

O passo seguinte era óbvio: tentar um concurso na sua área. Aí veio a pandemia e, com ela, aquele compasso de espera que atingiu tanta gente. Editais foram adiados, o tempo pausou, e Adrielly fez o que muitos precisam fazer quando a realidade interrompe um plano: inventou outro. Abriu um estúdio de ioga.

E gostou. Gostou de verdade. Era um projeto com alma, fonte de renda e de sentido ao mesmo tempo. O estúdio virou ponto de encontro, de presença, de transformação. As alunas iam em busca de uma aula e saíam descobrindo outra forma de habitar o próprio corpo. Havia propósito ali. 

Mas havia também a matemática dura da vida adulta.

A lucidez veio de repente. Uma amiga próxima passou para auditora da CGU, e, quando Adrielly ouviu quanto ela ganhava, teve um estalo, desses que mudam o rumo de uma história inteira. Adrielly trabalhava demais – tinha o cargo público de nível médio e o estúdio –, corria o dia inteiro, e, somando tudo, não chegava nem a um terço da remuneração da amiga. Foi assim que ela compreendeu algo importante: gostar de um caminho nem sempre basta para sustentá-lo no longo prazo.

Fechar o estúdio foi uma dor que não ficou apenas nela. Doeu nas alunas também. Muito. Adrielly fez questão de conversar pessoalmente com todas elas. Reviveu o luto várias vezes, a cada uma dessas conversas. Afinal, ela estava se despedindo de uma parte importante da própria identidade, uma versão de si mesma que tinha sido construída com afeto e coragem.

Esse era o estúdio de ioga de Adrielly. Ela precisou fechá-lo, com muita dor no coração, para se dedicar aos estudos.

Muitos dos relatos contados neste espaço são prova de que, quando a vida fecha uma porta, costuma abrir ao menos uma janela. No caso de Adrielly, foi o cargo de assistente administrativo, que garantia a segurança mínima para continuar, ainda que o salário fosse bem modesto para alguém acostumado com a renda que o estúdio proporcionava. Foi inevitável apertar o cinto e fazer algumas renúncias em troca de três anos de dedicação aos estudos. Viagens e festas ficaram na memória, redes sociais viraram distração proibida, e férias passaram a ser dentro de casa, na companhia exclusiva de videoaulas, PDFs e questões. Adrielly se tornou usuária assídua da plataforma do Gran, e temos orgulho disso.

No começo – ela própria reconhece –, errou muito. Estudava sem estrutura e sem método. Não sabia nem o que era uma “revisão ativa”. Ainda não entendia que concurso, a partir de certo ponto, exige muito mais que dedicação; exige sagacidade. O que a salvou foi ter insistido até compreender isso. Esperta, mapeou os erros, refinou a técnica, ajustou o foco.

O preço de mais essa reinvenção, contudo, foi alto.

Adrielly, que vinha do ioga, da meditação, do equilíbrio, descobriu em si uma estranha ansiedade. A cobrança, as provas, as comparações, os insucessos, tudo começou a corroer sua tranquilidade sem que ela se desse conta. A revelação ocorreu no concurso para Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Distrito Federal. Adrielly sabia a matéria, fez a prova rápido e escreveu uma boa redação. Relaxou tanto que cometeu seu maior erro: deixou para marcar as respostas no cartão definitivo só nos últimos minutos da prova. O resultado? Teve de preencher as bolinhas com as mãos tremendo. 

A tensão a fez entrar numa espiral de angústia. Pesquisou casos como o seu na internet e começou a duvidar até de ter assinado o nome na prova, como era exigido. Foi ali que a ansiedade deixou de ser uma simples palavra no vocabulário e se tornou algo experimentado, vivenciado, sofrido.

E foi ali, também, que ela aprendeu outra lição valiosa: passar em concurso exige mais que domínio de conteúdo. Exige sobreviver a si mesmo durante o processo.

A terapia entrou como ferramenta, assim como a espiritualidade, e com um detalhe bonito: foi justamente o ioga, com suas técnicas de respiração e de manejo da ansiedade, que lhe permitiu continuar as provas mesmo com o coração acelerado. Esta, aliás, é uma das duras verdades do universo dos concursos públicos: muita gente faz prova num estado de extremo nervosismo e só passa porque aprendeu a funcionar apesar do medo.

Quando veio o CNU, Adrielly era outro tipo de concorrente. Agora ela tinha método e técnica de prova. Nem por isso foi fácil. O formato da prova era novo, os fiscais estavam despreparados, a insegurança pairava no ar. Foi um dia inteiro de tensão, almoço sem vontade alguma de comer, respiração administrada no limite. Adrielly não era do time dos plenos e calmos. Ao contrário, era do time dos que tremiam por dentro, mas fariam a prova assim mesmo.

Quando saiu o resultado, ela mal acreditou. Sozinha e longe da família, leu e releu seu nome no edital, chorou e agradeceu. Saiu de casa e se deitou no chão do jardim, como se o corpo precisasse tocar a terra para confirmar que aquilo era real.

Assinando o termo de posse digital.

Adrielly hoje é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, um cargo de elite, dos mais cobiçados pelos concurseiros. No entanto, o que mais me impressiona nessa história é a trajetória, em si, da menina criada entre toras de madeira e montanhas de serragem à servidora respeitada que elabora soluções, articula cooperação institucional e trabalha para reduzir desigualdades num país marcado por abismos sociais.

Há uma bela simetria unindo essas duas pontas. O trabalho continua sendo de construção. Só mudou a matéria-prima: antes, o pai moldava a madeira; hoje, a filha ajuda a moldar políticas públicas. No fundo, Adrielly não traiu suas origens; apenas as ampliou. Continua filha da marcenaria, no melhor sentido da expressão; continua acreditando em trabalho paciente, em estrutura, em fundamento, em construção cuidadosa. Só que agora constrói em outra escala. 

Marco Aurélio, em suas Meditações, escreveu uma frase que poderia ter sido inspirada em histórias como a de Adrielly: “O impedimento para a ação promove as ações. O que está em seu caminho torna-se o caminho.” O plano de passar na sua área de formação foi interrompido pela pandemia? Virou estúdio de ioga. O estúdio não se sustentou? Virou concurso de novo. A ansiedade quase a derrubou? Virou treino. 

Talvez por isso a história dela toque tanto. Porque Adrielly foi se fazendo, aos trancos, nas transições, nos recomeços. Saiu da escola pública, atravessou a faculdade, fechou um negócio que amava, aceitou viver pior durante um tempo para viver melhor depois, aprendeu com os próprios erros, lidou com a ansiedade… Teve a coragem de sentar-se todos os dias diante da dificuldade e, sem garantia nenhuma, seguir em frente.

Até chegar aonde queria.

O cheiro de madeira que lhe marcou a infância continua ali. Só que agora, em vez de exalar do pó de serra, exala de uma vida nova sendo construída. Construída com as próprias mãos, no ritmo de quem aprendeu, desde menina, que obra boa se faz com paciência.

Adrielly nos EUA. Estude que até as viagens mudam!


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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