Cointeligência nos concursos: como estudar com o apoio da IA

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Estudar para concurso costuma ser uma jornada exigente, feita de disciplina, repetição e escolhas difíceis sobre como usar melhor o tempo. Nesse caminho, a inteligência artificial aparece como uma presença nova e poderosa. Ethan Mollick, no livro “Cointeligência – A vida e o trabalho com a IA”, observa que hoje “temos uma IA que age de forma muito parecida com um ser humano, mas de maneiras que não são exatamente humanas”. Essa frase ajuda a entender o ponto central: a IA pode conversar, explicar, sugerir, revisar e organizar ideias, mas ela não pensa como uma pessoa, não tem responsabilidade pelo que diz e não substitui o esforço intelectual de quem estuda.

Por isso, a IA deve ser vista com entusiasmo, mas também com cuidado. Seus recursos nem sempre são evidentes à primeira vista: muitas vezes, o estudante só descobre seu potencial quando aprende a fazer boas perguntas, pedir explicações em níveis diferentes, solicitar exemplos ou simular questões. Em alguns momentos, ela supera nossas expectativas e torna temas difíceis mais claros e acessíveis. Em outros, porém, pode decepcionar, especialmente quando apresenta informações falsas com aparência de segurança. Para quem estuda para concurso, isso é particularmente temerário, pois uma jurisprudência inventada ou um artigo incorreto pode comprometer o aprendizado e levar a erros na prova.

A ideia de cointeligência ajuda justamente a lidar com esse cenário. Ela parte de um princípio simples: a IA não deve ser usada de forma automática, como se fosse um atalho para estudar menos, mas como uma parceira de trabalho. No estudo para concurso, isso significa que você continua sendo o responsável pelo aprendizado, enquanto a IA funciona como apoio para ampliar suas capacidades.

Pense na IA como um colega de estudos que está sempre disponível e que aceita explicar um tema difícil, revisar um resumo mal estruturado ou ajudar a organizar uma matéria extensa. A diferença é que esse colega não se cansa, não impõe limites de tempo e está sempre disposto a recomeçar a explicação quantas vezes for necessário.

Mas, qual o risco? Se o estudante apenas copia o que a IA oferece, sem refletir, sem conferir e sem reconstruir o conteúdo com suas próprias palavras, o aprendizado se torna superficial. A sensação de produtividade aumenta, mas o conhecimento real não se consolida.

A cointeligência, portanto, envolve dialogar, perguntar, testar, discordar, solicitar reformulações e aprofundar respostas a partir das questões das bancas de concurso. A FGV possui um estilo próprio, enquanto o Cebraspe (CESPE) adota outro formato de questionamento; por isso, é fundamental transformar cada interação com a IA em um exercício ativo de pensamento, e não em um consumo passivo de informação.

Imagine agora um treinador esportivo. Ele não corre a prova por você, nem levanta o peso no seu lugar. O que ele faz é orientar, corrigir, ajustar e incentivar. A IA pode cumprir esse papel no estudo: ajudar você a treinar melhor, mas sem nunca substituir o esforço que é exclusivamente seu.

Na prática, isso significa usar a IA para potencializar o estudo. Ela pode criar questões inéditas, simular provas, revisar redações, organizar cronogramas, resumir conteúdos complexos e sugerir diferentes formas de compreender um mesmo tema. Tudo isso economiza tempo e melhora a qualidade do estudo, desde que o estudante continue crítico e ativo.

As notas de transparência presentes nas principais plataformas de IA (como Copilot, ChatGPT, Claude ou NotebookLM) já alertam: as respostas podem conter erros e precisam ser verificadas. Isso, por si só, reforça a importância de uma postura vigilante. Você já percebeu como a IA pode errar com bastante convicção? Por isso, não dá para aceitar tudo sem conferir. Sempre vale a pena checar em fontes confiáveis e se perguntar: isso faz sentido? Está correto? Quem estuda com apoio da IA precisa desenvolver não só o conhecimento da matéria, mas também o hábito de verificar informações e reconhecer possíveis inconsistências.

No fim das contas, a cointeligência convida o concurseiro a uma mudança de mentalidade. Não se trata de estudar menos, mas de estudar melhor. A IA não substitui a leitura, a memorização, a revisão e o esforço diário. Ela apenas potencializa esse processo. 

No fim das contas, o protagonismo permanece humano e é isso que faz a diferença no dia da prova. Se você compreender que a centralidade do aprendizado está em você e que a IA pode atuar como uma aliada qualificada ao longo da sua jornada, suas chances aumentam. Ao usar essa parceria de forma consciente, crítica e estratégica, você amplia seu potencial de aprovação e se aproxima da sua nomeação, posse e exercício no serviço público.

Tiago Rabelo

Especialista em Direito Digital e Inovação.

Rede social: @prof.tiagorabelo

Referência

MOLLICK, Ethan. Cointeligência: a vida e o trabalho com IA. Tradução de Roberta Clapp. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2025. 224 p. Título original: Co-Intelligence: living and working with AI.

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