Imagine a cena. Uma jovem mulher sentada no meio-fio de uma rua que mal conhece, em uma cidade que não é a sua, com tudo que ainda lhe restava enfiado em uma mala. Acabara de ser colocada para fora de casa pelo próprio marido, o mesmo a quem havia sustentado e incentivado. Ela não tem para onde ir, não tem dinheiro, não tem um plano. Tem apenas a calçada sob os pés e um silêncio pesado por dentro. Foi nesse meio-fio que a vida de Isadora Alves da Silva pareceu, por alguns minutos, ter chegado ao fim.
Mas ela estava só começando.
Voltemos um pouco no tempo. Antes do meio-fio, antes do casamento, antes mesmo de Isadora vir ao mundo, alguém já tentava interromper a história dela. No outro extremo dessa mesma equação, porém, uma mulher decidiu o oposto: “se nascer, eu cuido”. Foi assim que Doralice entrou na vida da menina. Isadora não foi apenas criada; foi escolhida. Talvez por isso ela tenha aprendido cedo a fazer suas próprias escolhas quando o mundo parecia querer escolher por ela.
Cresceu na periferia do Distrito Federal, frequentando escolas públicas sob a disciplina de uma mãe adotiva que não admitia desculpa para a filha não estudar. Era inteligente, sempre foi, mas carregava aquele traço comum de quem tem facilidade: deixava tudo para depois. Tinha muitos sonhos – jornalismo, direito, uma carreira na tevê –, porém não dava um único passo concreto em direção a qualquer um deles.
Então, em 2010, a mãe morreu. E o chão sumiu.
Isadora foi morar com uma tia no Nordeste. Mudou de cidade, de rotina e, principalmente, de perspectiva, que passou a ser moldada pela urgência. Tocou duas graduações ao mesmo tempo, com dias que começavam bem cedinho e terminavam tarde da noite. Ela não era mais a menina que adiava; era a mulher que precisava se construir antes que o tempo passasse de vez. Começou a pensar em concurso público.
Nesse meio tempo, casou-se, e o que deveria ter sido fonte de apoio se revelou o oposto disso. Aos poucos, foi sendo diminuída, desacreditada, desestimulada pelo “parceiro”. “Você não vai passar. Não tem perfil pra polícia. Nunca vai aguentar o TAF.” Esse tipo de frase tem uma característica cruel: não dói só na hora em que é proferida; volta na cabeça da gente em loop por meses, anos, décadas, se a pessoa permitir.
A mulher ainda tentou segurar a barra. Pagou faculdade para o marido, sustentou o que dava para sustentar. Até que ele tomou a decisão pelos dois, e, pronto, voltamos à imagem do meio-fio, da mala e do silêncio do início do texto.
Isadora se viu completamente perdida. Felizmente, um tio que ela mal conhecia a acolheu. Ela tentou trabalho, não conseguiu. Retornou a Brasília e passou a dormir na sala da casa de uma amiga, com a mala fazendo as vezes de armário. Houve dias em que faltou comida. Três dias seguidos apenas com água e choro…

Até se encontrar na carreira policial, Isadora fez vários bicos, trabalhando como chapeira e como animadora em eventos. Em um deles, coincidentemente encontrou o professor Aragonê e não perdeu a oportunidade para tirar uma foto.
Foi exatamente nesse fundo de poço que algo se consolidou dentro dela. Isadora compreendeu que não havia mais espaço para tentativas. Ela precisava de um pouco de estabilidade e lutaria por isso.
O caminho que encontrou foi o dos editais. Em plena pandemia, não havia nenhum aberto, mas ela sabia que precisava usar o seu tempo com inteligência assim mesmo. Tornou-se aluna assídua da plataforma do Gran, começando pelo arroz com feijão da preparação: português e matemática. Depois foi expandindo. Enquanto muita gente esperava o momento ideal, ela usou o momento possível, que é, no fim das contas, o único que existe de fato. A vantagem disso foi que, quando os concursos ressurgiram na praça, ela já não era mais iniciante. Ponto para ela.
Mas, como bem diz a sabedoria popular, nem tudo são flores. Há um fator que costuma cobrar o preço de qualquer concurseiro, não importa o quão bem-preparado ele esteja: o fator emocional. No dia da prova da PMDF, tudo desabou para Isadora. O local da aplicação ficava perto de onde a mãe dela vivera. Só isso bastou para reabrir feridas antigas. Isadora já entrou na sala chorando. Até tentou se recompor e resolver o que sabia, deixando as questões difíceis para depois. Quando se deu conta, porém, o tempo tinha acabado. Ficaram questões em branco e, junto, aquela sensação amarga de desperdício, de meses inteiros de preparação perdidos para o descontrole.
Saiu da prova, sentou-se na grama e chorou. Achou que era o fim.
Mas não era.
Nunca é.
Concurseiro, escute algo que aprendi conversando com centenas de aprovados ao longo dos anos: a história quase nunca termina onde parece que terminaria. Para Isadora não terminou mesmo. Quando saiu o resultado daquela prova, ela nem teve coragem de olhar. Foi acordada com uma ligação, ouviu um “você passou” e precisou pedir que repetissem. “Como assim passei?!”, pensou. “Mesmo sem terminar a prova? Mesmo chorando o tempo todo? Mesmo estando certa de que falhei?”
Sim, mesmo sem ter terminado a prova, mesmo chorando a maior parte dela e mesmo tendo certeza de que havia falhado. Sabe por quê? Porque concurso não se ganha em um dia. Ganha-se no acúmulo deles. A boa preparação é exatamente isto: a soma silenciosa de manhãs, tardes e madrugadas em que você fez o que tinha de ser feito. Quando a prova chega, a mão escreve sozinha.
Dois anos se passaram desde a minha primeira conversa com Isadora. Ela já veste a farda da Polícia Militar do Distrito Federal. A menina que foi escolhida antes de nascer escolheu, ela própria, não desistir. A filha que perdeu a mãe cedo carregou adiante a direção que recebeu dela. A mulher que um dia foi diminuída transformou o estudo em instrumento para o recomeço. Ela conhece os extremos. Já viveu com pouco e já viveu com nada. Hoje, porém, tem a confiança que lhe faltou boa parte da vida, a certeza, materializada no distintivo que carrega no peito, de que é capaz.

Já vestindo a farda de policial. É felicidade que chama?
Você que lê estas linhas talvez esteja agora largado num meio-fio qualquer. Talvez esteja se sentindo completamente perdido, seja por conta de uma reprovação que doeu, seja pelo cansaço que parece não passar, seja pela dúvida incômoda: “será que isso é pra mim?”. Se for esse o caso, sente-se nesse meio-fio pelo tempo que precisar, mas, quando se levantar, levante-se decidido. Não é preciso ter o caminho inteiro mapeado; basta enxergar o suficiente para dar o próximo passo, abrir o próximo PDF, resolver a próxima questão. O resto a constância fará por você.
Isadora não parou até chegar. Você também não vai parar. Porque ninguém nem nada impede um Imparável.
Sempre em frente!
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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