Forjado no ferro

Por
Publicado em
4 min. de leitura

Hoje vou contar a história de alguém que teve de dar muitas voltas antes de retornar ao ponto de partida e reencontrar sua verdadeira vocação. Gustavo Dortas cresceu na periferia de Salvador, em um lar onde podia até faltar dinheiro de vez em quando, mas a educação formal era algo inegociável. A mãe, pedagoga e dona de uma pequena escola de bairro, repetia que o conhecimento era o único patrimônio que ninguém toma. Se houve algo que ele entendeu quando a acompanhava nas aulas da faculdade, foi que o estudo é uma forma de resistência.

Mais tarde, porém, a realidade pôs à prova essa certeza. Quando a mãe se separou e precisou vender a escolinha, a situação financeira da família apertou de vez. Gustavo teve de ajudar em casa e enxergou no concurso da Polícia Militar da Bahia sua grande oportunidade. Foi aprovado, trancou a faculdade de Direito e mergulhou numa rotina dura, permeada de noites maldormidas e longos dias nas ruas. Descobriu que gostava do serviço, do contato direto com as pessoas, da sensação de estar resolvendo problemas concretos, ali, na hora. Os cinco anos na PM lhe ensinaram muito sobre disciplina, autocontrole e resiliência, e ele estava satisfeito com a profissão. 

Mas havia um sonho antigo que incomodava em segundo plano: a graduação em Direito. Gustavo pediu exoneração, voltou à faculdade e terminou o curso. Começou a advogar, aprendeu o ofício, ganhou experiência. Depois, enveredou pelo empreendedorismo. Abriu academias, lojas de suplementos alimentares, de cosméticos, gerenciando tudo com a intensidade de sempre. Tornou-se fisiculturista e chegou a ser campeão baiano e vice-campeão norte-nordeste em sua categoria. Construiu projetos, abriu caminhos, e por muitos anos, a vida parecia estável.

Fisiculturista sorridente posa em um palco segurando um troféu.

Gustavo foi fisiculturista profissional.

Até que veio a pandemia.

Os negócios começaram a vacilar, primeiro discretamente, depois de forma verdadeiramente ameaçadora. Os clientes minguaram, ao contrário das contas, que só se acumulavam. O medo passou a fazer parte da rotina. Gustavo se viu na iminência de perder tudo que havia construído. Foi no silêncio pesado daqueles meses que ele voltou a pensar na estabilidade que abandonara anos antes. Aos 42, resolveu recomeçar. Decidiu-se pela carreira de delegado de polícia e não contou a quase ninguém; apenas a esposa e a filha sabiam do plano. Para os outros, dizia apenas que tinha voltado a estudar, nada mais. Não queria olhos ansiosos sobre si.

Foi nesse período que ele tomou outra decisão importante. Fumante havia mais de vinte anos, já tinha tentado parar inúmeras vezes e sempre falhava. Usou adesivos, tomou remédios, fez promessas… Nada adiantou. Certo dia, constatou o óbvio: se quisesse mesmo ser aprovado no concurso, teria de estar pronto para o teste físico o quanto antes, e o vício era incompatível com esse projeto. Parou com os cigarros e, dessa vez, foi definitivo.

Esse não foi o único desafio a ser superado, é claro. Depois de quase uma década longe dos livros, Gustavo precisava retomar o ritmo, e numa fase da vida em que isso não é nada fácil. Recomeçar significava aceitar a humilhação, por exemplo, de não se lembrar de conteúdos que um dia havia dominado. No início, tentou estudar oito horas por dia, mas logo descobriu que entusiasmo não substitui método. Reduziu pela metade, e as quatro horas de preparação diária passaram a ocupar um espaço inegociável na agenda. Acordava cedo e já acessava a plataforma do Gran. Ali, assistia às videoaulas incansavelmente e repetia os exercícios até que os assuntos deixassem de lhe parecer estranhos. E – o que considera um grande diferencial – resolvia sequências de questões no Gran Questões. Foram mais de 15 mil nesse processo!

Homem dormindo sobre um livro aberto em frente ao computador, que exibe uma videoaula

Gustavo perdeu as contas de quantas vezes precisou ir até o limite. Nem sempre dava para aguentar…

Os editais começaram a surgir e, com eles, as quase-vitórias. Primeiro, ficou a dois pontos de uma aprovação. Depois, a quatro. Em outra prova, um único ponto, resultado de duas marcações erradas no gabarito, foi o que o deixou fora da lista de aprovados. Cada resultado parecia confirmar que ele estava perto demais para desistir e longe demais para descansar. Continuou estudando, sem saber ao certo o que lhe esperava, sustentado apenas pela certeza de que o tempo passaria de qualquer forma.

Então, aos 45 anos, foi aprovado na fase objetiva para a Polícia Civil da Bahia. As demais fases foram vencidas uma a uma, até que, em 2025, veio a tão sonhada posse. 

Homem em treinamento policial, usando equipamentos de proteção, posicionado em frente a um batalhão com viaturas.

No curso de formação de Delegado da PC-BA.

Para quem olha de fora, a história dele parece só mais uma, de um bacharel em Direito que se torna delegado de polícia. Parece até que foi fácil… Nada mais distante da realidade. Nessa trajetória, houve medo real de colapso financeiro, decisões solitárias, madrugadas insones e anos inteiros em que ninguém sabia exatamente o que ele estava tentando construir.

Gustavo costuma dizer que o tempo passa para todos. Dois ou três anos passam quer se esteja lutando por algo importante, quer não se esteja fazendo nada de útil. Alguns escolhem atravessar esse período do jeito que dá; outros decidem usá-lo para se aproximar de um objetivo específico. Ele optou pela segunda via. 

Que tal fazer o mesmo?

Delegado da Polícia Civil da Bahia sorri ao lado do brasão oficial da instituição.

Enfim, delegado de polícia, profissional comprometido com a segurança pública do seu estado.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

Participe do meu Canal no Whatsapp e do Canal do Imparável no Telegram e tenha acesso em primeira mão ao artigo da semana e ao áudio do artigo com a voz do autor, além de muitos outros conteúdos para inspirar você, mesmo em dias difíceis!

P.S.: Siga-me (moderadamente, é claro) em meu perfil no Instagram . Lá, postarei pequenos textos de conteúdo motivacional. Serão dicas bem objetivas, mas, ainda assim, capazes de ajudá-lo em sua jornada rumo ao serviço público.

Mais artigos para ajudar em sua preparação:

  1. A juíza que estudou no silêncio da UTI
  2. Aos 57, ele terminou o que começou aos oito
  3. Quando estudar é sinônimo de liberdade
  4. Sem computador, sem atalhos, sem plano B
  5. Novo país, novo idioma, novo começo — e um 1º lugar aos 58 anos
  6. O gosto amargo do açúcar queimado
  7. Quando sobreviver já não basta
  8. Costurando passado, presente e futuro
  9. Filha do Juruá: da luz de lamparina ao TJ-AM
  10. Luz acesa
  11. Restituição
  12. O mapa na parede
  13. Sem plano B
  14. Entre ônibus, câncer, provas, desemprego e vitória
  15. A volta por cima: do corredor de hospital à caneta de Consultor
  16. A Barbie das Profissões que virou Policial
  17. Do “Caldeirão do Diabo” a juiz, professor e filantropo
  18. Entre passagens e parágrafos
  19. Chave Philips, Fé e Código: a Obra de Rodrigo
  20. Berço, boleto e edital: os nove meses de Flávio

Por
Publicado em
4 min. de leitura