Nosso personagem de hoje é de Brasília, mas não daquela Brasília dos cartões-postais, da arquitetura moderna e das cúpulas brancas que ilustram os livros de história. A Brasília de onde ele vem é outra. É a das cidades-satélites, das casas simples, erguidas no improviso. Filhos de um motorista e de uma dona de casa, Jessé e os seis irmãos cresceram em meio à falta de estabilidade. Nem mesmo uma casa fixa eles tinham. Ao contrário, a família mudava de endereço com frequência, quase sempre pela dificuldade de pagar o aluguel.
Cada um desses recomeços era especialmente complicado para as crianças, que, nem bem haviam se estabelecido em uma escola, eram transferidas para outra. Às vezes, a mudança acontecia no fim do segundo semestre, de modo que elas simplesmente perdiam o ano. Jessé perdeu nada menos que três anos de escola em razão dessa dinâmica.
Ora, como se sabe, a vida tem pressa e, cedo ou tarde, cobra todo e qualquer tempo perdido. A pessoa que lute para recuperá-lo. Nosso protagonista lutou – até porque em casa, apesar de o desapego ser regra, o estudo era tratado como a única coisa que não podia ser abandonada.
Pois bem. No fim da década de 1990, ele terminou o ensino médio. Com atraso, mas terminou. O passo seguinte seria encarar a graduação, certo? Não para ele, que nem sequer cogitava essa possibilidade. Fazer faculdade era caro demais, distante demais, improvável demais. Pragmático, escolheu o caminho que parecia o mais curto para poder ajudar a família logo: o serviço público.
Mas aqueles eram outros tempos… Estudar para concurso, ali, no início dos anos 2000, não era, nem de longe, tão acessível quanto hoje. Para começar, não havia internet direito, muito menos plataformas digitais, cursos online ou aulas gravadas e disponíveis para download. Só havia bancas de jornal, onde Jessé descobria os concursos em andamento folheando jornais especializados. Um dos cadernos desses periódicos terminava com uma pequena seção de questões comentadas por professores de Brasília – inclusive o meu pai, que ele menciona expressamente. Jessé recortava aquelas páginas para montar uma pasta de estudos em casa. Era tudo que ele tinha.
A primeira aprovação foi no concurso dos Correios, para o cargo de carteiro mesmo. Por dois anos, ele percorreu ruas inteiras, debaixo de sol e chuva, entregando cartas e encomendas. O salário líquido era de apenas R$ 462,02. Era um trabalho honesto, mas Jessé sabia que não podia parar ali.

Primeiro contracheque como carteiro. Note que a remuneração era de menos de R$ 500,00 por mês.
E não parou. Ao contrário, começou a varar as madrugadas estudando. O horário das quatro da manhã era perfeito, pois o mundo ainda estava silencioso o suficiente para que alguém com pouco tempo pudesse tentar mudar de vida. Jessé conseguiu subir mais um degrau na carreira dentro dos Correios. Aprovado técnico administrativo, a rotina e a remuneração melhoraram, mas o plano continuava o mesmo: seguir estudando.
Aqui vale fazer uma pausa para uma breve reflexão. Na história de qualquer concurseiro, ninguém leva muito em conta a questão do tempo. Não me refiro ao tempo linear, contado do início da preparação até a aprovação. Refiro-me ao tempo decorrido entre uma tentativa e outra; aos anos em que nada acontece; ao longo período em que as notas ficam perto, mas não o bastante para render uma classificação dentro das vagas, e o nome teima em não aparecer nas nomeações… Jessé atravessou muitos períodos desse tipo, reprovando em tantos concursos que já nem consegue contar.
O bom desse processo todo é que o acúmulo de conteúdo é inevitável. São tantas aulas e leituras que é praticamente impossível não aprender. Jessé já havia percebido isso. Então… Onde é que ele estava errando?
A resposta estava em algo simples: estudo de mais e prática de menos.
Sempre pragmático, ele tratou de mudar o método. Passou a estudar com o Gran e a aproveitar tudo que a plataforma oferecia. Tudo mesmo, inclusive – e sobretudo – resolução de questões, participação em simulados e revisões intensivas. Tornou-se menos do tipo que acumula informação e mais do tipo que se prepara para enfrentar uma prova de verdade. O conhecimento começou a se organizar.
Na sequência, ele se deu conta de outro fator importante de perda de tempo em sua rotina. Diariamente, eram duas horas para chegar ao trabalho e mais duas para voltar, o equivalente a um turno inteiro consumido dentro de ônibus e metrôs lotados, espremido entre desconhecidos, ao ruído reiterado de portas se abrindo e fechando.
A lucidez o fez reagir de pronto. Imprimiu os PDFs do Gran para ler no caminho, junto de mapas mentais e resumos salvos no celular. No meio do empurra-empurra do transporte público, lá ia ele, segurando uma barra de metal com uma mão e o material com a outra, lendo sem parar. Percorria um parágrafo, voltava a um conceito visto pouco antes e já engatava em uma questão na pequena tela do telefone. Tudo para não desperdiçar aquelas horas preciosas.
Quatro horas por dia que a cidade tentava tomar dele. Quatro horas por dia que ele decidiu tomar de volta. E então, quase sem aviso, o resultado apareceu.
Primeiro foi no concurso do Detran do Distrito Federal. Jessé viu seu nome no Diário Oficial e demorou alguns minutos para acreditar. Depois, vieram outras duas aprovações quase em sequência: analista de políticas públicas e analista da Secretaria de Agricultura. Três excelentes resultados em concursos difíceis, e em pouco tempo.
Mais recentemente, foi aprovado no TSE Unificado, outro grande salto. Enquanto aguarda a nomeação, não, ele não para. Segue estudando, fazendo provas, capacitando-se. Tenho convicção de que, em breve, um, digamos, “problema” que muitos alunos Gran precisam resolver fará de Jessé sua nova “vítima”: ele terá de escolher onde trabalhar.
Para quem olha de fora, parece até que foi rápido – de novo, aquele pouco caso que as pessoas em geral fazem do tempo do concurseiro… Jessé, porém, sabe como poucos que, na verdade, foram décadas para tudo acontecer.
Ele foi o primeiro servidor público da família. O primeiro a romper um ciclo silencioso de limitações que havia acompanhado gerações inteiras. No meio da jornada, ainda conseguiu outro feito que parecia impossível anos antes: fazer faculdade, seguida de uma pós-graduação no Gran que melhorou ainda mais sua remuneração, um incremento de 25%! Vale muito a pena ter a Gran Pós, não é mesmo? Inclusive, lançamos o nosso Combo Carreira com oportunidade incrível hoje.

O primeiro servidor da família. Foi tudo por eles.
O sucesso pessoal e profissional de Jessé foi construído no ritmo lento que a vida impõe aos de origem humilde. A verdade é que algumas vitórias demoram tanto que, quando finalmente chegam, perdem o status de conquista e são reduzidas a mero fechamento de ciclo. Não deveria ser assim.
Jessé merece comemorar, mas, como sempre, é pragmático, e seu pragmatismo o faz resumir todo o seu crédito em três letras: TRM. De tempo, rotina e material.
De minha parte, penso que há algo mais profundo em sua biografia que ele deixou de explicitar em sua conversa comigo. Nas entrelinhas do seu relato, nota-se a incrível disposição de continuar firme mesmo quando sua história ainda estava lá no começo, sem dar nenhum sinal de que teria um final feliz.
Talvez seja esse o seu caso também… Talvez você esteja percorrendo um caminho parecido com o de Jessé, um caminho em que a base foi ruim e houve muita perda de tempo. Se for isso, siga acreditando, como Jessé acreditou. Da mesma forma que ele, um dia você também poderá dizer que foi o primeiro servidor público concursado da família, e, com isso, abrir portas para todas as gerações que sucederem a sua. Que tal?

Jessé foi convidado a conhecer os estúdios do Gran e tive o prazer de entrevistá-lo para o Imparável. Quem sabe o próximo convidado possa ser você!
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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