Simone não estudou em mesa organizada, com computador novo e silêncio em volta. Estudou como deu. Com o celular apoiado na televisão da sala e a mão seguindo o ritmo da aula, anotando tudo em cadernos reaproveitados da filha. Alinhavando tudo, disposição para não desperdiçar um minuto sequer do pouco tempo disponível.
Depois de um dia inteiro de trabalho, a vista logo cansava, as letras embaçavam e o corpo pedia pausa. Ainda assim, ela continuava. Escrevia à mão páginas e mais páginas. A ideia era fixar, não perder nada e seguir avançando sempre. Não se tratava, exatamente, de método, mas de obstinação.
Analisando em retrospecto, a relação de Simone com a escola nunca foi simples. A infância foi atravessada por uma pobreza concreta, dessas que não admitem abstração. Faltava roupa, faltava comida, faltava estabilidade dentro de casa. Sobravam brigas, agressões, medo. Nesse contexto, a escola se mostrava como mais um espaço difícil de frequentar, considerando que a prioridade era sobreviver. Simone faltava, repetia de ano, até que decidiu abandonar os estudos. O problema não era incapacidade intelectual, era a impossibilidade de planejar além do dia seguinte.
Como resultado, o trabalho se impôs antes da hora. Aos catorze anos, ela começou a cuidar de crianças para garantir alguma renda. Aos quinze, já tinha emprego fixo. Em resumo, amadureceu rápido demais, resolvendo urgências, pulando etapas e aprendendo cedo a se virar, sem nunca lhe ser permitido sonhar. Foram décadas assim, saltando de um trabalho para outro. Foi vendedora, garçonete e motorista de aplicativo antes de sequer poder pensar em qualquer coisa melhor. O que importava era pagar as contas e sustentar os filhos. A vida se organizava em função da necessidade imediata.
Nessa época, ela até prestou alguns concursos, mas sem método, estrutura ou mesmo preparação. Apenas se inscrevia e ia lá fazer a prova, na esperança de algum milagre.
Que nunca veio.
Perto dos quarenta, Simone voltou à escola. Grávida, cansada, atravessava São Paulo todos os dias, saindo de Embu das Artes, para eliminar matérias do ensino médio. Passava horas em transporte público, fazia provas, estudava quando dava. Comia na escola porque a fome chegava antes do fim da aula. Foi nesse período que sua percepção de mundo mudou. Pela primeira vez, o estudo não lhe parecia fonte de humilhação, muito menos perda de tempo. Era possibilidade concreta. A escola, afinal, nunca foi o problema, que, verdade seja dita, sempre esteve ao redor.
Concluiu o ensino médio, prestou o ProUni e conseguiu bolsa integral para a faculdade. A escolha do curso foi movida não por idealismo, e sim por cálculo. Educação Física era o caminho viável para alcançar seu maior objetivo: disputar, desta vez em condições de vencer, uma vaga no concurso da Polícia Civil de São Paulo. Quando o edital foi publicado, Simone tomou a decisão que separa mero desejo de compromisso real. Decidiu que daria o melhor de si e que seguiria até o fim. Ou seja, não haveria plano B.
Mas a realidade tornou a impor limites. O computador recém-adquirido jamais funcionou. Enviado à assistência, foi e voltou; foi de novo e acabou se perdendo no processo. Seguiram-se dez meses pagando por um equipamento que ela não tinha de fato. Sem dinheiro para comprar outro e sem tempo para esperar, Simone improvisou. Estudou pela plataforma do Gran no celular mesmo, acompanhando as aulas pela televisão da sala e anotando tudo, como já mencionei, à mão. Encheu nada menos que quatro cadernos. Quando a vista falhou, comprou óculos no camelô. Não eram bons, mas serviam.
Os resultados começaram a aparecer. Simone foi aprovada nas provas objetiva e dissertativa, e agora era a fase oral, a mais temida. Só então ela conseguiu um novo computador, que lhe permitiu intensificar os estudos. Montou fichas, recortou papéis, treinou sozinha as respostas, que pronunciava em voz alta. Quando errava, ajustava, repetia. Não havia encenação; o que a movia era a urgência.
Quando viu seu nome no Diário Oficial ficou alegre, é óbvio. Mas o sentimento maior era de alívio. Sabe aquela sensação que nos inunda quando nos damos conta de que todo o esforço, toda a entrega, todas as renúncias finalmente renderam frutos, alterando de verdade o rumo das coisas? Pois então, a conquista de Simone era muito mais que financeira; significava a retomada do controle sobre a própria história. Ela sabia que havia subido um degrau na vida e que, agora, era dali para cima.
Simone tomou posse como escrivã da Polícia Civil de São Paulo aos cinquenta. Chegou até ali sem atalhos e – o principal – sem plano B, impulsionada apenas por aquela decisão tomada lá atrás…

Enfim, policial civil. Que orgulho!
Ainda bem que foi assim. Não fosse a estabilidade profissional e financeira conquistada a duras penas, talvez Simone tivesse sucumbido a outra provação que surgiu em seu caminho recentemente. O terreno onde sua casa ficava cedeu após fortes chuvas, e o imóvel terminou interditado pela Defesa Civil, como ela mesma me relatou via WhatsApp. Foi uma situação complicada, mas que revelou algo essencial: sem o cargo público, ela dificilmente poderia recomeçar com relativa tranquilidade como agora. O concurso não havia sido apenas uma mudança profissional. Tornara-se uma estrutura de proteção em todos os sentidos.
A trajetória de Simone ilustra como algumas histórias de sucesso não se constroem com gestos espetaculares. Para alguns de nós, resiliência e capacidade de adaptação são o que basta.
De fato, Simone não chegou aonde chegou por milagre. Chegou porque, quando as dificuldades se impuseram, ela escolheu não ceder. E seguiu escrevendo. Página a página de cadernos que até já haviam cumprido sua função, mas, agora, ganhavam outro sentido. Assim como sua vida.


Veja como ficou o lote de Simone depois das fortes chuvas que interditaram a casa e a obrigaram a se mudar.
Gabriel Granjeiro – CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de quatro livros best-seller na Amazon Kindle.
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