A tirania do “talvez”

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“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca.”
Apocalipse 3:15-16

De todas as palavras que circulam entre adultos, a mais perigosa (e aqui peço licença para contrariar o senso comum) não é o “não”. O “não” liberta. Por mais áspero que soe no ouvido de quem o recebe, ele entrega o que há de mais raro num dia cheio: a clareza do limite e a liberdade de usar o tempo que sobrou. A palavra perigosa é outra, e tem o dom de não parecer o que é. Ela se traveste de gentileza, soa como bom senso, mas não tem nada de inofensivo, pois furta algo que nos é muito, muito caro: energia. 

É o “talvez”. Repare no que se esconde por trás de um “talvez”, e duvido que você volte a ouvi-lo com a mesma inocência. Enquanto um “não” é honesto em fechar uma porta – e liberar para ir em busca de outra –, um “talvez” é sorrateiro, pois apenas acena com abertura e, na verdade, prende indefinidamente. Quem oferece um “talvez” e quem o recebe ficam, sem combinar nada, sócios de uma mesma dívida – um assunto que não se encerra, instalado na memória, que pisca de quando em quando a pedir uma atenção que ninguém tem para dar.

Bluma Zeigarnik estava em um café de Berlim, nos anos 1920, observando o ir e vir dos garçons, quando teve o seu insight mais famoso, ao perceber que eles se lembravam com perfeita precisão de cada detalhe dos pedidos ainda em aberto, mas esqueciam, quase instantaneamente, os pedidos já pagos e encerrados. Ela levou essa observação para o laboratório e demonstrou o que hoje chamamos de efeito Zeigarnik: a mente humana retém com força significativamente maior as tarefas interrompidas. O que está em aberto ocupa mais espaço, cobra mais atenção. Some-se o peso de dez ou vinte “talvez” pendentes, e está aí a explicação para a exaustão crônica que tanta gente carrega sem entender de onde vem.

Sheena Iyengar, pesquisadora americana, chegou a conclusão semelhante após um experimento simples que montou num supermercado. Sobre uma mesa, dispôs seis sabores de geleia para degustação; em outra, vinte e quatro. A mesa maior atraiu mais visitantes, mas a menor vendeu, proporcionalmente, dez vezes mais. Ficou claro que multiplicar caminhos é, no fim, menos produtivo. No plano da decisão pessoal, o “talvez” reproduz esse efeito ao manter aberta uma porta que jamais será atravessada e que ocupa na mente um espaço precioso. Quem vive no “talvez” age como o visitante indeciso diante das vinte e quatro opções de geleia: sai sem levar nenhuma.

A Bíblia já havia abordado o tema, e de um jeito particularmente desconfortável. No livro do Apocalipse, há um conjunto de cartas dirigidas pelo Cristo glorificado às igrejas da Ásia Menor. Em uma delas, endereçada à de Laodicéia, próspera cidade de comerciantes, a repreensão é direta. Cristo declara preferir aquela comunidade fria ou quente, ameaçando vomitar o que é morno. Deus, na economia do texto, está dizendo preferir o ateu sincero ao tépido; o adversário declarado ao colaborador inconstante; o “não” ao “talvez”.

A maioria das pessoas evita dizer “não” achando que está sendo gentil quando, na verdade, está sendo apenas covarde. Essa pessoa cobra do outro o custo da decisão que ela própria deveria ter tomado. Quem responde a um convite com “talvez” custa mais ao anfitrião do que quem diz um simples “não”. Quem responde “talvez mais tarde” a um projeto e nunca o retoma custa mais ao parceiro do que quem afirma, sem meias-palavras, que “não vai dar”. O custo é invisível, porém cumulativo.

Existe um “talvez” que você, concurseiro, conhece bem. É o emprego ruim do qual você está querendo sair, mas fica adiando essa decisão. São os PDFs que você mantém nas pastas do computador e que deveria abrir ou apagar de vez. É o relacionamento morno que deveria ser logo encerrado. Cada um desses “talvez” ocupa um pedaço da sua atenção. E sabe o pior? O candidato com dez ou vinte desses circuitos mentais abertos não consegue se sentar à mesa de estudos totalmente presente. Parte dele estará sempre em outro lugar, resolvendo o que ficou em aberto.

Descobri isso da maneira mais concreta possível. Quando Rodrigo e eu estávamos começando a construir o Gran, os convites chegavam com frequência. Surgiam ofertas de parcerias que pareciam razoáveis, oportunidades que não eram ruins. Àquela altura, o “talvez” seria a resposta educada, aquela que não fecharia nenhuma porta nem comprometeria relações. Mas eu aprendi, por necessidade, a dizer “não” com assertividade e sem culpa. Era “não agora”, “não hoje”, “não enquanto o Gran não estiver de pé”. Aquele “não” repetido centenas de vezes foi o que abriu espaço para o único “sim” que realmente importava. O “talvez” nos teria consumido antes de chegarmos lá.

Por isso, amigo leitor, encerro com uma pergunta que vale ser feita num fim de semana, em silêncio, quando você estiver com um papel à mão para anotar a resposta: quais são, hoje, os seus “talvez”? Faça a lista. Apenas escreva, sem se preocupar em lidar com eles por ora. Você vai se surpreender com o tamanho do espaço que pode e deve ser liberado. E o mais importante: findo o exercício, terá concluído que metade do cansaço que você vem suportando há meses não vinha do que estava fazendo, mas do que estava deixando em aberto. 

Não tenha medo do “não”, pois ele funciona como remédio. Já o “talvez”, esse é um veneno que mata devagar. Seu projeto de estudo precisa dessa clareza. Você precisa dizer “sim” para o que importa e “não” para o que é inviável agora. Pare de dizer “talvez”. 

“Enquanto adiamos, a vida escapa.”
Lúcio Aneu Sêneca

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

IYENGAR, Sheena S.; LEPPER, Mark R. When choice is demotivating: can one desire too much of a good thing? Journal of Personality and Social Psychology, Washington, D.C., v. 79, n. 6, p. 995-1006, dez. 2000.

SÊNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Tradução de J. A. Segurado e Campos. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009.

ZEIGARNIK, Bluma. Das Behalten erledigter und unerledigter Handlungen. Psychologische Forschung, Berlim, v. 9, n. 1, p. 1-85, 1927.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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