“O justo cai sete vezes, e torna a levantar-se.”
Provérbios 24:16
Estamos em Planaltina, região administrativa de Brasília. Ali vemos Joana D’arc, diarista, trabalhando de domingo a domingo para, com o marido, Eduardo, cobrador de ônibus que depois virou taxista, criar os filhos. Eram dois meninos: Raphael, nosso personagem principal, e Dudu, diagnosticado aos 3 anos de idade com autismo e comprometimento cognitivo, a quem o irmão chamava de “anjo”, justamente por ser uma alma pura, que não conhece pecado. As condições da família, como se pode imaginar, não eram nada fáceis, e foi nesse cenário, sem a possibilidade de ver a mãe dizer não a uma diária, que Raphael Medeiros aprendeu cedo o custo de ter as contas em dia.
O destino o conduziu a um estágio no Ministério Público, que pagava bolsa de 600 reais, dos quais 150 eram entregues à mãe para ajudar no mercado. Mais do que a ajuda em casa, foi essa experiência no MP que lhe abriu os olhos para um caminho até então inimaginável: o caminho dos concursos públicos. Por volta de 2014, 2015, Raphael começou a estudar e, em 2017, foi aprovado no IBGE, como agente de pesquisas e mapeamento, para um contrato temporário de três anos. A renda era insuficiente para as despesas, então ele começou a rodar como motorista de aplicativo. Foram mais de três mil corridas, de manhã, de tarde, de noite, de madrugada… Em paralelo, a mãe tentava sustentar as prestações de um apartamento financiado a juros abusivos.
Em agosto de 2019, Raphael fez a conta que ninguém em casa queria fazer: o contrato do IBGE terminaria em 2020, e ele precisava estar preparado. Inscreveu-se para o concurso da Polícia Penal de Goiás, com prova marcada para 24 de novembro daquele ano. Estava estudando havia cerca de um mês quando, de repente, uma febre de 42 graus, dores nos ossos, sudorese e uma estranha falta de ar o acometeram. Os médicos falavam em “doença muito rara, sem identificação, com suspeita de doença de Still”. Foi preciso que a mãe batesse o pé na recepção do hospital público HRAN, depois de oito horas sem atendimento na emergência, para conseguir internação na ala de infectologia.
Ali ele ficou por mais de quinze dias. Fez um monte de exames, mas nada de diagnóstico, até que uma médica propôs um exame caro, fora do SUS, no intuito de descartar algo grave. Raphael disse à mãe que não tinha dinheiro, mas Joana D’arc conseguiu em algum lugar e o exame foi feito. Deu negativo.

Registro de internação hospitalar, em 13 de novembro de 2019, apenas onze dias antes da prova da Polícia Penal.
Chegou a semana da prova. Era sexta-feira — a prova seria no domingo — quando o pneumologista-cirurgião apertou o pescoço de Raphael e percebeu o gânglio alterado. Uma cirurgia foi marcada para terça-feira; porém, na manhã de sábado, a médica residente foi clara: “Você não pode sair daqui, pode contaminar gente lá fora.” Raphael tentou negociar, insistiu… À tarde, a médica voltou com duas condições: máscara N95 no rosto e pulseira do hospital o tempo todo, além de retorno imediato depois da prova.
Acordo fechado, no domingo, com o braço direito ainda dormente por causa do acesso intravenoso recém-retirado, Raphael fez a prova, letra tremida na redação. Retornou ao hospital, fez a biópsia na terça-feira e teve alta na sexta. Na semana seguinte, chegou o diagnóstico: tuberculose ganglionar. É condição rara e curável — e não contamina ninguém ao redor. “Deus é tão bom que até nisso Ele trabalhou”, diz Raphael hoje em dia. “Me deu uma doença que me incapacitou, mas que não passou para ninguém que foi me visitar.” E a prova? Ah, essa deu bom. ☺

Biópsia feita logo depois da prova da Polícia Penal, em novembro de 2019.
A aprovação fez girar a chave. “Era como se Deus tivesse me dito: agora você consegue o que você quiser.” Em 2020, com o IBGE encerrado, a pandemia em curso e a notificação de despejo já entregue no apartamento que a família terminaria por deixar no ano seguinte, Raphael fez a assinatura social do Gran com os colegas e mergulhou de cabeça nas aulas. Àquela altura, a mãe não podia sair para trabalhar. O medo do vírus e, principalmente, de levar a doença para dentro de casa não deixava.
Começaram os atrasos nas contas e as cobranças dos credores. Mal havia o que comer dentro de casa. Passados alguns meses, Raphael contou à mãe que estava enviando currículos, inclusive para o Gran, em busca de emprego. A resposta dela foi cirúrgica: “Melhor você ficar em casa, estudando e cuidando do Dudu. Eu trabalho onde me aceitarem.” E assim foi.

Raphael em 2020: “Eu estava muito mal esse dia, plena pandemia 2020, desempregado, minha mãe com início de depressão, irmão especial em casa, sem dinheiro… totalmente desanimado. Mal emocionalmente demais, sem noção, sabe… Decidi tirar essa foto pra me lembrar de que tudo é possível de se superar.”
Ele atendeu e seguiu estudando de manhã, de tarde e de noite. Quando saiu o edital da PRF, em janeiro de 2021, tomou a decisão que, em condições normais, seria insanidade: acumular PRF, Polícia Federal e PCDF (Agente e Escrivão). Nada menos que 23 matérias simultâneas. Isso para um menino que tinha saído do ensino médio sem saber o que era oração subordinada substantiva objetiva direta ou mesmo o que era Constituição Federal! A conta só fechava porque, em algum lugar dentro dele, o “agora você consegue” já vinha funcionando — discretamente, mas com constância, como um motor ligado em segundo plano.

Raphael estudando em 2020, na plataforma do Gran.
A prova da PRF caiu no Dia das Mães. Foram 303 mil pessoas inscritas para 1.500 vagas. Raphael fez a prova, saiu certo de ter reprovado, não disse nada à mãe sobre o resultado e foi dormir, porque dali a duas semanas tinha a Polícia Federal. No dia 18, foi olhar o resultado oficial. Desceu o mouse devagar, sem procurar pelo próprio nome, mas em meras três rolagens viu o “Raphael Medeiros”, ali, no topo. Foi até a cozinha, já sentindo o nó na garganta se formando, e chamou a mãe, que preparava o almoço. “Mãe, vem ver. A gente conseguiu. Não fui eu, foi a gente.” Naquele mesmo ciclo, passou também na Polícia Federal e na PCDF, em ambos os cargos. Realizou, em um único ano, três sonhos.
A escolha foi pela PRF, e ele explica: “É uma instituição horizontal. Todo mundo é Policial Rodoviário Federal. Quem chega é acolhido como irmão. É uma instituição ímpar, focada nas pessoas.” Hoje, quatro anos depois de ter tomado posse, continua morando com a família, sem luxo, mas com reserva financeira que jamais teve. O analfabeto funcional que saiu do ensino médio sem saber o que era a Constituição da República agora a aplica todo dia, em cada abordagem nas rodovias federais, em cada decisão que envolve a vida de quem ele encontra na estrada.
As três mil corridas de Uber, os quinze dias de hospital, a pulseira no domingo de prova, a redação com caligrafia tremida, o joelho travado pelos cristais do remédio que impediam um TAF adequado, a notificação de despejo, a manteiga ou margarina no mercado, tudo isso ficou no passado, mas é parte substancial da sua história. Raphael chegou aonde chegou não apesar do que viveu, mas com o que viveu.
E é aqui, caro leitor, amiga leitora, que eu pauso o relato de Raphael para me dirigir a você. Conte comigo quantos motivos ele teve para desistir. Foram ao menos sete: a renda apertada, o IBGE acabando, a doença sem nome, a internação, a cirurgia, o despejo e a pandemia. Sete, o mesmo número a que alude o provérbio que abre este artigo. É possível que você esteja aí, agora, com um ou dois dos seus. Pior: talvez esteja se perguntando se vale a pena continuar.
Então eu lhe digo que, sim, vale. Vale porque concurso público não é vencido por quem tem tudo mais fácil; é vencido por quem decide que vai seguir com o que tem mesmo. Vale porque a sua história, daqui a quatro anos, poderá ser contada com a mesma serenidade com que Raphael conta a dele agora. Vale porque o justo cai sete vezes e torna a se levantar.
Termino com as palavras do próprio Raphael, mais valiosas que qualquer encerramento que eu arrisque dar a este texto: “Eu vim de escola pública, do Jardim Roriz. A gente teve o básico, e o básico bastou. Se eu consegui, qualquer um consegue também.”

Raphael no dia da posse como Policial Rodoviário Federal.
A música “Temporal”, de Hungria, foi escolhida por Raphael para compor esta crônica. Eis um trecho:
Maior que o temporal é a fé que habita em mim
Um vendaval de sonho e realização
Maior que o temporal é a fé que habita em mim
Só vai sentar na mesa quem rachou o pão.
Eu acho que a dificuldade ninguém escolhe passar, entendeu?
A tempestade que vai passar, ninguém sabe
E aqui foi tanta tempestade
Que a gente aprendeu a dançar na chuva, meu irmão
Água de mar só me lembra gosto de choro
É salgada, mas ensina mais que professor
E dinheiro nenhum no mundo paga
Água derramada pelos olhos onde só a alma já nadou
Eu naveguei na tempestade, nóis é lenha de verdade
O fogo que Deus acendeu, a chuva não apagou
Num comecei a sonhar brincando
Eu comecei a sonhar chorando
Com a comida quase pronta e o gás acabou
Pensei se a fé for do tamanho de um grão de mostarda
Troco montanhas de lugares na ponta do dedo
E quando eu descobrir a força de cada detalhe
Seria covardia minha não ensinar o segredo
(…)
E quem me guardou na memória, comemora, que eu sinto que é nossa hora
Em qualquer noite aleatória, onde a Saveiro fez história
Só contando as precatória’, mandando as dedicatória’
E o frasco do perfume com o cheiro da vitória
A divisão vai ser igual, não posso fazer feio
Se eu tenho um, acredita, então nóis dois tem meio
Qual é a graça do sorriso egoísta que não deu casa pra mãe
Mas só desce champanhe na pista ai-ai.
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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