“O ouro é provado pelo fogo, os homens fortes pelas adversidades.” (Sêneca, 4 a.C.-65 d.C., filósofo estoico romano)
Em Umarizal, comunidade quilombola encravada num pedaço do Pará onde rio e mata se encontram, a família de José Maria da Silva Ribeiro Júnior cuidava da pequena lavoura, da pesca e dos seis filhos. Primogênito da casa, José Maria foi sendo apresentado à vida pelos bichos, pelas tempestades, pelas brincadeiras na terra batida. A escolarização lá ia só até a antiga oitava série, e os tios, fitando aquele menino baixo de olhos atentos, repetiam para quem quisesse ouvir: “Esse vai ser o primeiro doutor da família.”

Vista aérea da vila de Umarizal.
Quando o menino fechou o ensino fundamental, o pai fez o que definiria o resto desta história: pegou a família e se mudou para Breu Branco, município vizinho, por uma única razão: permitir que os filhos avançassem nos estudos. José Maria e seu sotaque carregado atravessaram da mata para o asfalto e o que encontraram nas primeiras escolas na cidade, além das letras e dos números, foram grandes doses de bullying. Ele aguentou firme até concluir o ensino médio. Tentou vestibular para a UFPA em Tucuruí, mas parou na segunda fase. A universidade pública não se concretizou, tampouco a particular, que no início dos anos 2000 era luxo que o orçamento da casa não comportava.
Então a roda viva começou a girar rápido para ele, que se casou, teve a primeira filha, Emily, e se viu lançado ao mercado de trabalho, primeiro em uma serraria e logo depois em uma fábrica de silício. Ali naquela esquina banal, o operador de carregamento de forno de redução acostumou-se à poeira de sílica, à fumaça e aos gases que lhe invadiam os pulmões, bem como ao calor que lhe queimava o rosto. Daquele ambiente tóxico tirava o sustento da família, e os sonhos foram sendo adiados. Afinal, quem é que tem tempo de sonhar com um futuro distante quando tudo que importa é sobreviver ao próximo turno de trabalho?
Em 2008, a crise mundial bateu à porta da fábrica. A direção primeiro tentou um programa de demissão voluntária, mas não houve muita adesão. O supervisor, pressionado, viu-se obrigado a apontar nomes, e “Zezinho”, como todos no trabalho chamavam José Maria, foi um deles. A justificativa, porém, surpreendeu. Olhando bem nos olhos do funcionário, o supervisor, diante de todos, disse mais ou menos isto: “Vou escolher o Zezinho porque ele é muito inteligente. Os outros, se forem demitidos, os filhos passam fome. O Zezinho não. Ele tem capacidade. Lá fora, ele consegue.”
Foi um dos elogios mais cruéis e ao mesmo tempo mais salvadores que um homem já recebeu. Cruel, porque significava o desemprego. Salvador, porque pela primeira vez em muitos anos alguém lembrou a José Maria quem ele era antes de ser engolido pela lida diária. Zezinho guardou aquela frase como uma espécie de amuleto. “Foi o divisor de águas”, reconhece. O ex-chefe despertara nele algo há muito adormecido.
A virada, contudo, demorou. José Maria ficou cinco meses em casa, voltou para a mesma fábrica quando a crise cedeu e ali ainda cumpriu outros quatro anos de serviço. Foi precisamente em 28 de dezembro de 2013 que ele finalmente sentou-se para estudar. Ele lembra bem a data porque foi seu aniversário de 35 anos.
Faltavam apenas 52 dias para a prova do Banco do Brasil, mas ele tentou como pôde, sem computador mesmo, um luxo para alguém como ele. Foi reprovado nessa primeira tentativa e também na segunda, o concurso da Caixa, em março. No do Banpará, em maio, ficou em quinto lugar, dentro do cadastro de reserva. Dois anos mais tarde, veio a convocação para Vitória do Xingu, cidade a 430 quilômetros de Tucuruí. A única coisa que ele sabia sobre a cidade era que ela ficava próximo da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Foi sozinho, trocando, feliz, o forno pelo caixa do banco. Pouco depois, abriu a segunda frente, ao passar em primeiro lugar para pedagogo do município.

Com os alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos)
Bancário de dia e professor de noite, foi assim que ele levou a vida por sete anos. Contudo, seus sonhos eram maiores: Zezinho queria ser auditor fiscal da SEFA-PA, sua casa, seu estado. Mas, com o banco tomando as manhãs, a sala de aula ocupando as noites e um filho pequeno (Emanuel tinha se juntado à família) para criar nas horas vagas, sobrava só a madrugada. Zezinho acordava às quatro, sentava-se diante da plataforma do Gran, que assinava desde 2018, e estudava até o último segundo antes de seguir para a agência, que felizmente ficava a apenas três minutos de casa.
Na reta final, pediu licença-prêmio, mais férias acumuladas, e estudou em período integral por dois meses seguidos. O gerente do banco o liberou com uma frase que lembrava a do antigo supervisor da fábrica de silício: “Só vou liberar porque você tem chance.”
Tudo parecia conspirar a favor, mas o destino, talvez ofendido pela audácia daquele homem, resolveu atrapalhar. Emanuel adoeceu e ficou dias sem comer direito. O pai, então, trocou o material de estudo por madrugadas insones ao lado do caçula no hospital. O próprio José Maria foi parar no pronto-socorro após um pico de pressão arterial, resultado de toda a tensão daqueles meses.
Faltando vinte dias, ele refez a tática toda. Voltou ao conteúdo e intercalou simulados do Gran. Na véspera da primeira prova, dormiu particularmente mal, porque o filho, naquela fase em que a criança parece ter comido luz, de tanta energia que tem, não conseguiu pegar no sono antes da uma da manhã. Ainda assim, Zezinho acordou às cinco e meia e atravessou os 45 quilômetros entre Vitória do Xingu e Altamira para encarar a primeira de duas provas que decidiriam como seriam os seus próximos quinze anos.
Passou na primeira e passou na segunda. Sofreu a angústia de esperar o resultado dos recursos e de assistir à prova de Economia Regional reprovar metade dos candidatos numa primeira leitura. Aguardou o resultado final. No dia 24, antes mesmo de amanhecer, foi procurar o Diário Oficial, mas nada ainda. Dirigiu-se para o banco e começou a trabalhar. No meio do expediente, alguém postou no grupo de candidatos o PDF da lista preliminar. Ele entrou no site da banca, foi descendo a lista pelos cotistas quilombolas, um a um, todos eliminados, todos reprovados, até chegar em “José Maria da Silva Ribeiro Júnior, Auditor Fiscal da SEFA-PA, APROVADO”.
Aos 47 anos, sozinho na sala da agência, ele chorou. Àquelas lágrimas misturavam-se quinze anos de metalurgia, nove de bancário, sete de professor, meses com o filho doente, uma vida inteira de quilombola. Tirou foto da tela e mandou para a mulher, Sueli; para a filha, Emily; para a mãe, a quem havia prometido aposentar com dignidade; e para a irmã, Elaine, que vivia anunciando que um dia veria o irmão no canal Imparável. Ela tinha razão.
Neste espaço costumo publicar histórias como a de Zezinho, de pessoas que chegaram ao concurso público como última saída. José Maria diz que acredita “muito, muito” no poder transformador da educação e na força silenciosa das cotas, que abrem porta para os que historicamente foram impedidos de entrar. Diz também que, quando estava na boca dos fornos, prometeu a si mesmo que não morreria ali. E não morreu.

Comemorando o aniversário em dupla com o filho Emanuel, na companhia de sua linda família
O Zezinho da fábrica de silício, o operador do forno de redução, o quilombola filho de pescador e agricultor que nunca tinha visto um computador antes dos 35 em breve tomará posse como Auditor Fiscal do estado em que nasceu. As marcas do calor ainda estão no rosto, mas elas, agora, ficam bem. São cicatrizes de quem atravessou o fogo sem virar cinza.
É o que sempre digo: todo mundo pode.
“Não importa de onde você vem, o que você faz, a religião, o credo. O que importa é a sua vontade de vencer.” (José Maria da Silva Ribeiro Júnior, ex-aluno Gran e futuro Auditor Fiscal da SEFA-PA)
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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