Imagine dez anos de oficina de costura dentro da própria casa. No início, eram cinco máquinas e duas amigas ao lado de Elisiane. Pouco depois, ficaram apenas três máquinas, a dona da casa e uma única amiga. Por fim, após a maternidade, Elisiane se viu sozinha, com a sala funcionando como chão de fábrica até a noite. A poeira do tecido pousava nos móveis, entrava pelo nariz e ia se alojando nos pulmões.
Elisiane costurava para uma empresa de confecção sem ter um cliente sequer que fosse seu. Quando o último serviço do dia terminava, ainda não era hora de descansar. Ela varria a sala, dobrava os tecidos, recolhia os materiais e começava a segunda jornada, a de dona de casa e mãe. Tinha aprendido cedo o costume de continuar…
E é exatamente sobre esse costume que eu quero conversar com você hoje.

Nos tempos de costureira.
Na verdade, a história de Elisiane começa na contramão disso. Aos 17 anos, quando cursava o último ano do ensino fundamental, ela engravidou e decidiu parar com os estudos. Os professores ainda insistiram. Foram até a porta de sua casa, dizendo que as notas bastavam, que era só fazer a última prova… Mas ela não foi. A filha nasceu em dezembro, e com ela veio uma depressão que duraria dois anos, sem nome e sem remédio, porque naquele tempo ninguém sabia explicar o que era pânico, o que era ansiedade, o que era ter 18 anos, uma criança no colo e medo até de atravessar a sala.
Foi a pediatra da bebê quem lhe deu o conselho que mudaria tudo: “Procure alguma coisa que te dê prazer.” Elisiane voltou para a escola e para a igreja, reabrindo duas portas importantes. No segundo ano do ensino médio, grávida novamente, decidiu que dessa vez não pararia, e foi firme na decisão: todo fim de tarde, saía da aula, atravessava a rua, buscava a filha mais velha na escola vizinha e retornava com ela no colo para terminar o que havia começado. Fez isso até concluir o ensino médio. Aos 24 anos.
Quem de nós nunca conheceu essa sensação de chegar tarde a uma estação onde os outros embarcaram cedo? Elisiane só tinha uma certeza: antes embarcar tarde do que simplesmente deixar o trem passar. Então vieram o trabalho em fábrica, a experiência como vendedora e, por fim, a costura, carreira que proporcionou casa, escola particular para as filhas… e dignidade.
As coisas ainda estavam difíceis, mas, se havia algo em que Elisiane se permitia gastar, era com a educação das filhas. Pagava escola particular e abria mão de tudo que pudesse para investir o pouco que sobrava em cadernos e material escolar de qualidade, tudo o que ela própria não pôde ter. A primeira vez que entrou numa loja para fazer crediário foi para comprar a mochila da mais velha. Não qualquer mochila; a melhor.

Com o esposo e as filhas, na formatura da mais velha.
Diariamente, Elisiane comprava algo para ler na banca de jornal ao lado da parada de ônibus. Numa dessas vezes, viu um jornal que falava sobre um tal de “concurso público”. Foi assim que ela soube da existência disso. Estudou um pouco, fez a prova da Caixa, foi aprovada por volta da 200ª colocação e nem soube como acompanhar a convocação. Não tinha ninguém que lhe explicasse…
Os anos passaram. A poeira dos tecidos começou a fazer mal à filha mais nova e a ela também, o que a convenceu a fechar a oficina. Aos 40, ficou com o nome sujo e sem renda, com uma faculdade de ciências contábeis recém-concluída, três filhas, um marido que acreditava mais nela do que ela própria e a sensação de que a vida ainda lhe devia alguma coisa.
Foi quando pagou a primeira assinatura do Gran, com os últimos reais que tinha na conta. Não era uma aposta, assim, do nada. Era um investimento consciente, de quem sabia exatamente como chegar aonde queria. O estudo passou a ser o seu trabalho. Acordava cedo, organizava a casa e já ligava o computador. Seguia o cronograma do curso com disciplina, sempre tentando bater a meta do dia e responder o máximo de questões possível.
Naquela época, Elisiane morava de favor na casa da sogra. Com tanta gente ali, a sala era barulhenta demais para estudar. Só sobrou o quarto da filha, único cantinho que comportava o computador e lhe garantia algum silêncio para se dedicar às aulas. Com fones de ouvido, ouvia as explicações enquanto varria o chão, passava pano e arrumava as coisas. Num único dia, respondeu 450 questões, como se o futuro dependesse só daquilo. E talvez dependesse mesmo.
Não foi nada fácil. Elisiane teve anemia, carência de vitaminas e um cansaço extremo, que a obrigava a parar um pouco de hora em hora. Houve dias em que a dor de cabeça tornava impossível o uso de tela. Sem desistir, Elisiane se deitava, fechava os olhos e deixava as aulas tocando nos fones. Seu mantra era: orar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se tudo dependesse de si mesma. Com isso em mente, todos os dias fazia uma oração antes de abrir o caderno e, na sequência, estudava, estudava e estudava.
Cinco meses. Foi esse o tempo que se passou entre aquela primeira assinatura e a primeira aprovação. Depois veio a segunda, a terceira, a quarta. Inclusive para a Conab, prova que ela quase não foi fazer porque achava que ainda não estava pronta, que havia estudado rápido demais, que era melhor deixar para depois. Nunca tinha visto uma prova discursiva técnica na vida. Tirou 59 de 60, o que lhe garantiu o primeiro lugar.

Assinando o termo de posse na Conab.
Quando viu o resultado, chorou. Não pela colocação, em si, mas pela lembrança da depressão sem nome aos 18 e dos professores que tentaram em vão incentivar a jovem grávida a, ao menos, concluir os estudos. Chorou pelas 450 questões respondidas em um único dia durante as intermináveis tarefas domésticas. Chorou pela visão do marido pagando as inscrições com sacrifício e esperando a esposa do lado de fora da prova. Chorou pela perspectiva de agora as contas do mês fecharem e de ter se livrado de vez da poeira dos tecidos na oficina. E chorou pela mulher que ela ainda não tinha conseguido ser.
A primeira atitude que tomou assim que recebeu o salário foi pagar as dívidas e limpar o nome. Queria ter crédito de novo – mais tarde, ela diria que foi como voltar a ser gente. A segunda foi convidar as filhas para almoçar e pagar tudo, comprar o ingresso do show que a mais nova tanto queria e dar um tablet ao esposo, para que ele também estudasse para concursos, em gratidão por todo o apoio.
Pois é… Desde então, a vida vem se reorganizando em torno de Elisiane. O marido terminou a faculdade e agora é mais um concurseiro na família, assim como a filha do meio, estudante de ciências contábeis. Sem perceber, nossa protagonista, lançada a outro patamar, levou a família inteira junto. Se por anos a fio ela costurou roupas para sustentar a casa, agora começou a costurar outra coisa: um futuro.
Tudo isso aconteceu porque uma única linha não se rompeu em sua vida. Outras tantas deram nó, se desgastaram, quase arrebentaram no curso dos anos. A falta de dinheiro, de energia e de perspectiva foi constante, e a ela se somaram o medo, a depressão, o cansaço extremo e a poeira dos tecidos tentando ocupar até o lugar do ar. Ainda assim, Elisiane seguiu. Ponto a ponto. Um dia depois do outro, aula após aula, uma questão de cada vez.
Talvez exista uma linha assim em você também, amiga leitora, amigo leitor. Ela nem sempre está visível. Às vezes, aparece justamente quando a cabeça dói, quando a tela incomoda, quando a casa chama, quando a vida parece exigir de você mais do que seria justo. Nesses dias, lembre-se de Elisiane. Ela não venceu porque tudo ficou leve. Venceu porque continuou mesmo quando quase nada ajudava.
A linha que não se rompeu nela pode ser a mesma que ainda sustenta você. Segure-a. Costure o próximo ponto. Abra a próxima aula. Resolva a próxima questão. Um dia, quando olhar para trás, talvez descubra que aquilo que parecia apenas uma forma de sobreviver era, na verdade, o começo de uma vida nova.
Crônica escrita em colaboração com a protagonista, Elisiane Souza.
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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