“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
(Riobaldo, em “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa)
Há algumas semanas, eu conversava com Rafael Ribeiro, aluno do Gran, e foi dele que ouvi essa passagem. Não com o tom professoral de quem usa a citação como floreio, mas com a voz de quem sabe do que está falando. Rafael foi alfabetizado aos 10 anos, sempre conviveu com visão limitada e sofreu preconceito de quem deveria protegê-lo, chegando a ouvir do próprio pai que não deveria ter nascido. Quando, no encerramento de uma entrevista emocionante, ele proferiu aquelas palavras, extraídas de um dos maiores clássicos da literatura universal, elas imediatamente ganharam outro significado para mim. Percebi que resumiam perfeitamente o que todo concurseiro vive, mesmo sem nunca ter ouvido falar de Riobaldo.
Pense comigo… “Esquenta e esfria.” É a oscilação de intensidade. A fase em que tudo arde, seguida da fase em que tudo parece morno; o ano da decisão tomada com sangue nos olhos se alternando com o ano em que essa mesma decisão parece ter perdido o sentido. “Aperta e daí afrouxa.” É o ciclo da pressão, da data da prova se aproximando no calendário seguida do alívio temporário de ter vencido mais uma etapa… até a seguinte. “Sossega e depois desinquieta.” Talvez essa seja a pior das três oposições, porque remete à falsa estabilidade que acomete qualquer um de nós depois de uma meta batida. Você acredita que finalmente encontrou paz, e a vida, como se se ofendesse por essa acomodação, faz novas provocações. Afinal, é da natureza humana perseguir novos desafios, não é?
Note este outro traço da genialidade de Rosa: nos três pares, quem age é a vida. A gramática é proposital – a vida é o sujeito da oração; nós somos mero objeto. Riobaldo, narrador do romance, não promete em nenhum momento que o esforço será recompensado, não promete justiça, não promete sequer que algo fará sentido no final. Admite apenas, com a dureza do sertanejo que conhece o tempo da seca e o tempo da cheia, que a única coisa nossa nesse arranjo é a resposta. E a resposta cabe em uma palavra: coragem.
Mas o que é coragem, afinal? Já refleti sobre isso aqui no blog em outras ocasiões, e volto ao tema porque ele jamais se esgota. Coragem não é a ausência de medo, e quem promete o contrário está vendendo ilusão. Tampouco é audácia, que não passa de ego mal calibrado, ou mesmo otimismo, no fundo a recusa de ver o terreno como ele é. Aristóteles, há mais de dois milênios, definiu coragem como o meio-termo entre covardia e temeridade. Isto é, a virtude de quem sente medo no tamanho exato e age mesmo assim. E Churchill, em pleno bombardeio nazista, a definiu como a primeira virtude do ser humano, “porque é a qualidade que garante todas as outras”. Sem coragem, a fé não sai da teoria, a esperança vira clichê, a disciplina não atravessa a primeira semana ruim.
Há um detalhe sobre Grande Sertão: Veredas que me parece especialmente bonito. O livro inteiro, com seus jagunços, suas dúvidas teológicas e seu amor proibido, fecha com Riobaldo dizendo apenas isto: “travessia.” A tese inteira do romance condensada em uma palavra. É exatamente isso que a vida exige: que se atravesse. E quem atravessa precisa de coragem, porque o terreno é instável, o vento muda, o medo sussurra, e ninguém promete que a outra margem está mesmo do outro lado.
Por isso, amigo concurseiro, quando as coisas apertarem, aguente firme, pois logo elas afrouxarão um pouco. A fase é de sossego? Nada de baixar a guarda, porque a inquietação está à espreita. Agora, se tudo parecer um tanto morno, lembre-se: é só a uma fase, em que o corpo descansa antes de tudo esquentar de novo.
Não tenha dúvida de que a vida em breve exigirá de você o que exige de toda gente: coragem. Não a coragem grandiosa dos discursos prontos, mas a coragem pequena e cotidiana de levantar da cama apesar de o corpo pedir mais cinco minutinhos, de abrir o PDF a despeito do Instagram seduzindo no celular ao lado, de continuar acreditando no sonho mesmo quando o concurso adia, a oportunidade escapa, a saúde falha e os supostos amigos sentenciam que você está perdendo tempo. É essa coragem miúda, cumulativa e discreta que constrói uma vida e, no caminho, uma aprovação.
Riobaldo termina seu relato cansado, porém inteiro. Ele não venceu o sertão, que é maior que qualquer um de nós. Ainda assim, foi corajoso o bastante para atravessá-lo, e é isso que importa em sua jornada.
Quanto a Rafael, esse continua firme nos estudos, com a visão que tem e a coragem que conquistou. Quer saber mais? Veja a entrevista dele AQUI.
Dito isso, que sua semana, amiga e amigo leitor, seja menos sobre tentar entender o que a vida está fazendo com você e mais sobre oferecer a ela aquilo que ela, desde o começo dos tempos, jamais escondeu exigir. Coragem, todos os dias.
Vamos juntos, cada qual em sua própria TRAVESSIA.
“A coragem é corretamente considerada a primeira qualidade humana, porque é a qualidade que garante todas as outras.”
Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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