O custo silencioso do barulho

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“Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se.”
Tiago 1:19

Você conhece a pessoa que vou descrever a seguir. Em toda reunião, em todo grupo de estudo, em toda roda de conversa, é ela que ocupa setenta por cento do tempo de fala. Tem opinião sobre tudo, comentário pronto para todo assunto, resposta imediata para toda observação alheia. Aos olhos dos outros, parece confiante, parece engajada, parece, muitas vezes, um líder natural. Mas o curioso é que quase ninguém repara no que essa pessoa deixou de fazer enquanto falava: escutar. E escutar, em qualquer empreitada que envolva inteligência, é a única atividade que produz informação nova. Quem fala já sabe o que vai dizer; quem escuta talvez aprenda algo. Essa diferença, acumulada ano após ano, separa quem cresce de quem apenas envelhece; separa o concurseiro que passa do que só assiste aos outros passar.

Encontramos explicação para o fenômeno na neurociência. Sophie Scott, professora do University College London e uma das maiores especialistas do mundo em percepção da fala, documenta há décadas o quanto as áreas do cérebro responsáveis pela fala e pela escuta disputam os mesmos recursos. Na prática, quando a mente está ocupada em formular palavras, fica muito menos capaz de processar as que vêm de fora. É simples assim: por imposição neurológica, quem está falando não está ouvindo. O maior problema, porém, é que quem ouve pior também decide pior, porque a qualidade de uma decisão é efeito direto da qualidade do que lhe foi dado como insumo.

Pesquisas sobre o meio corporativo chegaram à mesma conclusão, ainda que por outro caminho. Karl Weick, professor da Universidade de Michigan e um dos maiores estudiosos de comportamento organizacional, cunhou o termo sensemaking, que pode ser traduzido como “construção de sentido”, para explicar por que algumas equipes acertam e outras erram diante do mesmo cenário. Sua conclusão incomoda o gestor médio porque preceitua que equipes que se precipitam e verbalizam a primeira interpretação disponível erram mais que aquelas que ficam mais tempo analisando, quietas, o contexto. A pressa de falar fecha cedo demais o espaço no qual a leitura correta dos fatos ainda estava se formando. O paralelo com prova de concurso é evidente. O candidato que crava a alternativa nos dois primeiros segundos de leitura do enunciado, antes mesmo de chegar ao ponto final, não está “ouvindo” para decidir; está, simplesmente, adivinhando. O concurseiro que lê e interpreta só um pouco mais costuma ir bem melhor.

Repare que a Bíblia, no livro de Tiago, condensou numa única frase, aquela que abre este texto, o que as linhas de pesquisa que acabo de mencionar levaram dois mil anos para articular. E note bem a ordem dos verbos usados: primeiro escutar e depois falar, para, só então, conectar tudo com a emoção. O custo de mais falar que ouvir é alto e, em geral, está envolto em paixões e impulsos. Quem responde rápido demais em uma discussão corre o risco de só falar bobagem, porque não tem tempo de sequer compreender os argumentos do outro. Quem posta nas redes sociais de forma impulsiva acaba se expondo desnecessariamente ao não escutar nem aos próprios instintos antes de dar enter. Em última análise, quem fala demais, escuta de menos e parte para a decisão de forma apaixonada acaba decidindo mal, porque deixa de captar os dados que estão ali, bem na sua frente, e poderiam garantir melhores resultados.

Se já é ruim na vida em geral, no contexto específico de quem estuda para concurso é ainda pior. Quem assiste às aulas com o teclado na mão, despejando comentários no chat, aprende menos do que quem assiste calado, anotando. O simulado feito em silêncio absoluto rende incomparavelmente mais que o feito com comentários ao lado, e é indiscutível que a revisão numa sala silenciosa é mais produtiva que num ambiente compartilhado, ainda que o conteúdo seja idêntico. A mente em processo de formulação de respostas gasta exatamente o mesmo recurso que usaria para entender o erro. Por isso os melhores alunos, em qualquer área, costumam ser os mais quietos. A razão é simples: eles não desperdiçam energia com opiniões sobre o conteúdo; apenas permitem que este entre e seja internalizado. É assim que chegam à prova com uma vantagem que nenhum simulado de véspera consegue medir.

Quem me conhece sabe que já fui muito tímido. Felizmente, superei isso com anos de fonoaudiologia e de aulas de teatro, além de participação em centenas de eventos em que me obrigava a falar para públicos de 150 mil pessoas. Não foi fácil lidar com minha timidez na condição de profissional e, sobretudo, de representante do Gran Brasil afora. Contudo, fico satisfeito em poder dizer que ela me legou uma habilidade que muita gente extrovertida jamais chega a desenvolver, a da escutatória, palavra que tomo emprestada de Rubem Alves. Segundo ele, o mundo tem muitas escolas de oratória e nenhuma de escutatória, o que já explicaria boa parte das nossas confusões. 

Veja que curioso. Se durante muito tempo a dificuldade de falar em público foi, para mim, um problema, em algum momento ela se revelou uma vantagem. É que aprendi cedo, por exemplo, que permanecer calado numa reunião pode ser mais relevante que falar o tempo todo, pois quem está quieto está captando o que os outros dizem para, só então, compor, em silêncio, a resposta que vai realmente importar quando for a sua vez de falar. No fim, as ponderações dessa pessoa podem ser mais relevantes que as de todos os demais participantes da conversa.

Por isso, amigo leitor, encerro sugerindo dois experimentos para sua semana. O primeiro vale para qualquer um: numa conversa qualquer, proponha-se a, deliberadamente, escutar mais do que falar. O segundo é para quem está na batalha dos concursos: faça um bloco inteiro de estudo com o celular em outro cômodo, a portas fechadas, sem comentar nada com ninguém, sem espiar rede social, sem mexer no WhatsApp. Um bloco só, do começo ao fim. Quando terminar, repare como sua produtividade foi maior. 

Depois desse exercício, boa parte dos nossos alunos descobre que seu problema quase nunca era o conteúdo. Era ruído. E ruído, diferentemente de tantas coisas na sua preparação, é uma variável que está inteiramente sob o seu controle.

“Aquele que sabe não fala. Aquele que fala não sabe.”
Lao-Tsé (séc. VI a.C.), em “Tao Te Ching”, capítulo 56

Referências

SCOTT, Sophie K. From speech and talkers to the social world: the neural processing of human spoken language. Science, Washington, D.C., v. 366, n. 6461, p. 58-62, out. 2019.

WEICK, Karl E. The collapse of sensemaking in organizations: the Mann Gulch disaster. Administrative Science Quarterly, Ithaca, v. 38, n. 4, p. 628-652, dez. 1993.

WEICK, Karl E. Sensemaking in Organizations. Thousand Oaks: Sage Publications, 1995.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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