Os juros compostos da fidelidade

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“Quem é fiel no pouco é fiel também no muito.”
Lucas 16:10

Numa segunda-feira de 2016, sentei-me e escrevi o primeiro artigo semanal para o blog do Gran. Era um texto curto, que veio a ser lido por poucas centenas de pessoas, a maioria delas alunos que já conheciam o site. Não havia nada de especial naquele texto em particular. Nenhuma frase histórica. Nenhum lampejo de genialidade. Era simplesmente o artigo daquela semana, e eu tinha um compromisso com a próxima. Passadas mais de 520 segundas-feiras, esses artigos viraram livros, viraram canal, viraram comunidade, viraram a base de uma conversa que ainda cresce. 

O que vem acontecendo desde então não é resultado de inspiração meramente acumulada, mas do que chamo de ”fidelidade composta”.

Há uma diferença brutal entre o que cresce somando e o que cresce multiplicando. Pense numa conta bancária: quem deposita R$ 100 por mês durante dez anos consegue guardar R$ 12 mil em valores absolutos. Já quem deposita a mesma quantia numa aplicação com juros compostos chega a um valor de outra ordem, porque cada centavo depositado passa a render sobre si mesmo e sobre os juros. Enfim, sobre a soma de tudo. 

É exatamente assim que funciona com a fidelidade composta. No meu caso, os artigos semanais não apenas somaram; multiplicaram. No caso do concurseiro, a lógica é semelhante: cada videoaula assistida do começo ao fim (e não abandonada no meio), cada questão respondida em um dia e cada simulado feito num domingo em que o sofá está ali, ao lado, chamando, são como um bom investimento. Isso significa que, mesmo quando ninguém está olhando, essas pequenas ações estão rendendo.

O pesquisador K. Anders Ericsson, da Universidade Estadual da Flórida, passou décadas investigando o que separa os grandes experts dos amadores em qualquer domínio, da música à neurocirurgia, passando pelo xadrez. A conclusão é desconfortável para quem acredita em talento inato: o que diferencia os homens e mulheres mais geniais em sua área não é o dom, e sim a dedicação, a prática focada e reiterada. Quem repete com atenção e interesse evolui; quem repete apenas por repetir só perde tempo. A diferença entre os dois grupos, num primeiro momento, parece mínima. Depois de dez anos, ela se torna um abismo.

O profeta Zacarias, numa passagem da Bíblia, faz uma pergunta simples: “Quem despreza o dia das pequenas coisas?” (Zacarias 4:10). A lição, ali, é que quem acha que só o grande momento importa — a prova, a nomeação, a posse, no caso dos concurseiros — está, na prática, recusando os únicos tijolos com que qualquer vitória é construída. Jesus, na Parábola dos Talentos, em Mateus 25, é mais direto: ao servo fiel no pouco, o Senhor entrega muito; ao que escondeu o que tinha por medo de errar, a punição é perder até esse pouco. A lógica do reino é a lógica dos juros. Ninguém recebe muito sem antes ter sido aprovado no pouco.

Portanto, é preciso ter paciência. Quem avança consistentemente 1% por dia, em um ano fica 37 vezes melhor. Trinta e sete vezes! É 1,01 elevado a 365. Pelo mesmo raciocínio, quem decresce 1% por dia, ao cabo de 365 dias fica reduzido a menos de 3% do que era quando começou. É cruel, mas a virada exponencial só se torna visível depois de seis, oito, dez meses, quando o expoente começa a fazer de verdade o seu trabalho. Entende por que a resiliência, aqui, é tão inestimável? 

Agora veja: cada questão que o concurseiro pula por ser difícil equivale a uma subtração nesse expoente; cada material que ele abandona pela metade porque outro parecia mais interessante é uma oportunidade de composição perdida. Da mesma forma, cada revisão feita no fim de semana é um juro creditado. E o melhor: o banco jamais fecha.

Por isso, amigo leitor, antes de procurar uma técnica nova, pergunte a si mesmo se foi fiel à anterior. Antes de reclamar que o método não está funcionando, confirme se deu tempo para o que vinha sendo aplicado começar a render. 

Fiel no pouco é fiel no muito. O resto é detalhe.

“A gota fura a pedra não pela força, mas por cair muitas vezes.”
Ovídio (43 a.C.-17 d.C.), poeta romano, em “Cartas do Ponto”


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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