A Contabilidade transcende a mera escrituração de livros; ela se estabelece como o sistema de informação fundamental que mensura, registra e comunica os eventos econômicos das entidades. Essa função é crucial não apenas para a tomada de decisões gerenciais internas, mas também para o atendimento às exigências legais e fiscais externas.
No cenário dos concursos públicos, o domínio da Contabilidade Geral é um diferencial competitivo, exigindo do candidato uma compreensão aprofundada dos princípios, normas e procedimentos que governam a escrituração contábil e a elaboração das demonstrações financeiras.
Para construir essa base de conhecimento sólida, é imperativo iniciar pelos seus pilares conceituais.
I. Fundamentos Conceituais da Contabilidade
O Objeto de Estudo: O Patrimônio
O ponto de partida da ciência contábil é o Patrimônio, que constitui seu objeto de estudo. Ele é definido como o conjunto de bens, direitos e obrigações de uma entidade.
• Ativo Patrimonial: É formado pelos bens e direitos, representando os recursos controlados pela entidade dos quais se esperam benefícios econômicos futuros.
• Passivo Exigível: Compreende as obrigações, evidenciando as dívidas e compromissos assumidos perante terceiros.
• Patrimônio Líquido (PL): Representa a riqueza própria da entidade, sendo a diferença residual entre o Ativo e o Passivo. O PL reflete os direitos residuais dos proprietários sobre os ativos após a dedução de todas as obrigações.
Princípios e Normas: As Diretrizes da Prática Contábil
A prática contábil é balizada por um conjunto de diretrizes que garantem a fidedignidade e a comparabilidade das informações. Os Princípios Contábeis estabelecem as bases conceituais para a aplicação das normas.
Embora a Resolução CFC 1.282/2010 tenha formalmente revogado os Princípios Fundamentais de Contabilidade, eles permanecem como fundamentos doutrinários essenciais para a ciência contábil:
• Princípio da Entidade: Reconhece o patrimônio como objeto da contabilidade, distinguindo-o de forma absoluta do patrimônio particular dos sócios ou proprietários.
• Princípio da Continuidade: Pressupõe que a entidade continuará em operação no futuro previsível, o que fundamenta a avaliação de ativos e passivos.
• Princípio da Oportunidade: Determina que os registros contábeis devem ser realizados de forma tempestiva (no momento certo) e com integralidade (completa), garantindo a relevância e a confiabilidade da informação.
As Contas Contábeis e o Método das Partidas Dobradas
Para operacionalizar o registro dos fatos que afetam o patrimônio, a contabilidade utiliza as Contas Contábeis como instrumentos de controle e classificação.
As contas classificam-se em:
1. Contas Patrimoniais: Registram os elementos do Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido.
2. Contas de Resultado: Evidenciam as Receitas e Despesas, que afetam o Patrimônio Líquido.
A organização dessas contas é feita por meio do Plano de Contas, cuja estrutura básica segue a segregação legal (Lei 6.404/1976 e Lei 11.638/2007) em grupos como Ativo Circulante e Não Circulante, Passivo Circulante e Não Circulante, Patrimônio Líquido, Receitas e Despesas.
O registro de qualquer transação é regido pelo Método das Partidas Dobradas, o fundamento técnico da escrituração. Este método estabelece que para cada débito em uma ou mais contas, deve corresponder um crédito de igual valor em uma ou mais contas.
| Elemento | Natureza | Aumento | Diminuição |
| Ativo | Devedora | Débito | Crédito |
| Passivo e PL | Credora | Crédito | Débito |
Esse mecanismo não apenas assegura o equilíbrio patrimonial, mas também possibilita a verificação da exatidão dos registros contábeis.
II. O Ciclo Contábil: Do Fato ao Livro
A aplicação do Método das Partidas Dobradas ocorre sobre os Fatos Contábeis, que são as ocorrências que alteram ou não o patrimônio da entidade.
Classificação dos Fatos Contábeis
Os fatos contábeis são classificados conforme seus efeitos sobre o Patrimônio Líquido:
• Fatos Permutativos: Alteram a composição do patrimônio (troca entre elementos do Ativo, Passivo ou ambos) sem afetar o valor do Patrimônio Líquido.
• Fatos Modificativos: Alteram o valor do Patrimônio Líquido. Podem ser aumentativos (receitas) ou diminutivos (despesas).
• Fatos Mistos: Combinam simultaneamente aspectos permutativos e modificativos, alterando tanto a composição patrimonial quanto o valor do Patrimônio Líquido.
A Escrituração e o Regime de Competência
A escrituração contábil é o processo de registro desses fatos e deve observar requisitos de fidelidade, clareza, ordem cronológica e registro em idioma e moeda nacionais.
Os principais livros de escrituração são:
• Livro Diário: Registro obrigatório que contém a escrituração completa e em ordem cronológica de todas as operações.
• Livro Razão: Embora não seja obrigatório pela legislação comercial tradicional, é indispensável para o controle individualizado das contas e a apuração dos saldos, sendo exigido pelo Sistema Público de Escrituração Digital (SPED).
A base para o reconhecimento das transações é o Regime de Competência, que é o padrão exigido pela legislação societária e pelas normas contábeis.
O Regime de Competência determina que as receitas e despesas devem ser reconhecidas no período em que ocorrem, independentemente do recebimento ou pagamento.
Este regime se diferencia do Regime de Caixa, no qual o reconhecimento depende da movimentação financeira (recebimento ou pagamento), sendo este último permitido apenas para fins fiscais específicos de entidades de pequeno porte ou sem fins lucrativos.
III. As Demonstrações Contábeis: A Comunicação da Informação
O ponto culminante do ciclo contábil é a elaboração das Demonstrações Contábeis, que comunicam a posição patrimonial e o desempenho da entidade aos usuários da informação.
As demonstrações obrigatórias incluem:
• Balanço Patrimonial (BP)
• Demonstração do Resultado do Exercício (DRE)
• Demonstração dos Lucros ou Prejuízos Acumulados (DLPA)
• Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC)
• Demonstração do Valor Adicionado (DVA – obrigatória apenas para companhias abertas).
O Balanço Patrimonial (BP)
O Balanço Patrimonial evidencia a posição patrimonial e financeira da entidade em uma determinada data. Sua estrutura é segregada em Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido, seguindo critérios de liquidez e exigibilidade.
| Grupo | Critério de Apresentação |
| Ativo | Ordem decrescente de liquidez (capacidade de se transformar em dinheiro) |
| Passivo | Ordem decrescente de exigibilidade (prazo para pagamento) |
O BP segrega os elementos em Circulante (conversibilidade ou exigibilidade até o término do exercício seguinte) e Não Circulante (prazos superiores).
Detalhamento do Ativo
• Ativo Circulante: Inclui disponibilidades (caixa, bancos, aplicações de liquidez imediata), direitos realizáveis no curto prazo e despesas do exercício seguinte. Os créditos (duplicatas a receber) devem ser apresentados líquidos das provisões para perdas esperadas.
• Ativo Não Circulante: Subdivide-se em:
• Realizável a Longo Prazo: Direitos realizáveis após o término do exercício seguinte.
• Investimentos: Participações permanentes e direitos que não se destinam à manutenção da atividade.
• Imobilizado: Bens corpóreos destinados à manutenção das atividades (sujeitos à depreciação).
• Intangível: Bens incorpóreos com vida útil definida ou indefinida (sujeitos à amortização).
Detalhamento do Passivo e Patrimônio Líquido
• Passivo Circulante: Obrigações conhecidas e encargos estimados cujo pagamento se espera no curso do exercício seguinte (fornecedores, empréstimos de curto prazo, obrigações fiscais).
• Passivo Não Circulante: Obrigações com vencimento após o término do exercício seguinte (empréstimos de longo prazo, provisões de longo prazo).
• Patrimônio Líquido: Recursos próprios, composto por Capital Social, Reservas de Capital, Ajustes de Avaliação Patrimonial, Reservas de Lucros e Prejuízos Acumulados.
A Demonstração do Resultado do Exercício (DRE)
A DRE apresenta o desempenho econômico da entidade em um determinado período, evidenciando a formação do resultado líquido por meio do confronto entre receitas, custos e despesas.
A estrutura da DRE segue uma ordem dedutiva:
1.Receita Bruta de Vendas
2.Deduções e Abatimentos (para obter a Receita Líquida)
3.Custo dos Produtos Vendidos (CPV) ou Serviços Prestados (para apurar o Lucro Bruto)
4.Despesas Operacionais (com vendas, administrativas e gerais)
5.Resultado Financeiro (receitas e despesas financeiras)
6.Outras Receitas e Despesas
7.Resultado Antes das Participações e Impostos sobre o Lucro
IV. A Contabilidade na Era da Convergência Internacional
A prática contábil brasileira passou por uma profunda transformação com a convergência às normas internacionais (IFRS), impulsionada pela Lei 11.638/2007 e pela atuação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC).
A adoção dos Pronunciamentos Técnicos do CPC introduziu conceitos cruciais que são frequentemente cobrados em concursos:
• Teste de Recuperabilidade dos Ativos (Impairment): Avaliação periódica para garantir que o valor contábil de um ativo não exceda seu valor recuperável.
• Mensuração a Valor Justo: Utilização de valores de mercado para mensurar certos ativos e passivos.
• Reconhecimento de Receitas: Baseado na transferência de controle de bens ou serviços para o cliente.
Essa harmonização internacional exige dos candidatos a concursos uma atualização constante e uma compreensão não apenas da técnica, mas dos fundamentos conceituais que orientam a elaboração e apresentação das demonstrações contábeis.
A Contabilidade Geral para concursos públicos é uma disciplina vasta e interconectada. Cada conceito, do Patrimônio ao Balanço, passando pelo Método das Partidas Dobradas e a Convergência ao IFRS, forma uma cadeia lógica de conhecimento. Dominar essa lógica é o caminho para a aprovação.
Convido você a seguir comigo nessa jornada de aprofundamento, explorando a história, os conceitos, as aplicações e as inovações da contabilidade, e a praticar as questões já cobradas pelas principais bancas.
Espero que a leitura deste e dos próximos artigos seja útil para sua jornada. Um abraço e até nosso próximo encontro!
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Convido você a seguir comigo nessa viagem pelo mundo da contabilidade, explorando sua história, conceitos, aplicações e inovações, além de praticarmos questões já cobradas pelas principais bancas de concursos.
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Autora: Nayara Mota – Professora de contabilidade. Graduada em Ciências Contábeis em 2015 pela UNOESC, com especialização em Administração Pública pela UFRGS e em Contabilidade e orçamento público pela Universidade Metropolitana.
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