Não é o crítico que importa

Por
Publicado em
5 min. de leitura

Pode ter certeza: quando você decide fazer algo grande, a crítica vem. Antes. Durante. Depois. Sempre. Aprendi isso da maneira mais concreta possível, não nos livros sobre empreendedorismo que li nos tempos da faculdade, mas na vida real. 

Como muitos sabem, comecei na área da educação ainda na adolescência, percorrendo praticamente toda a engrenagem das escolas presenciais dos meus pais: da portaria e do setor de matrículas ao financeiro, às compras, ao controle de estoque e patrimônio, à seleção de pessoal e à coordenação pedagógica. Anos mais tarde, vi, com dor no coração, o fechamento praticamente simultâneo dessas escolas. Mesmo assim, junto ao meu sócio, Rodrigo Calado, ajudei a construir do zero um projeto que, em treze anos, chegou a 826 mil alunos online ativos e mais de 3,3 milhões de pessoas impactadas com educação de qualidade e valores democráticos. 

Mas esses números, apesar de expressivos, não parecem importar muito quando se trata de crítica, pois, como eu disse, ela sempre vem. No nosso caso, há quem diga que recebemos tudo pronto, que já estava tudo encaminhado. Quem diz isso ignora tanta coisa, que não sei nem por onde começar… Ignora o que significou começar um negócio sem dinheiro, assumindo riscos reais e suportando pressões que quase nunca aparecem para quem vê apenas o resultado. Ignora que, nos dois primeiros anos do Gran, trabalhei sem receber um real de salário, e olhe que eram dezoito horas por dia com quase nenhuma pausa para descanso. Ignora até as vezes em que, literalmente, trabalhei até passar mal, algo que não recomendo, mas que achei que era necessário à época. 

É precisamente nesse ponto que o trecho mais conhecido de um discurso de Theodore Roosevelt ganha um sentido especial para mim. Porque ele desloca a atenção para o lugar certo: não para a opinião de quem observa de fora, mas para a experiência de quem entrou em campo, assumiu o risco, acumulou erros, suportou o desgaste e continuou. 

Em 23 de abril de 1910, o então presidente dos EUA subiu ao palco da Sorbonne para proferir “Cidadania em uma República”, um discurso de 35 páginas que a história, com justiça, condensou no parágrafo conhecido como “O Homem na Arena”. Roosevelt não falou como alguém no alto de uma torre de marfim. Falou da arena ele próprio, um homem que perdeu a esposa e a mãe no mesmo dia, governou o país por quase oito anos, lançou uma candidatura independente e perdeu. Falou, enfim, como quem conheceu grandes vitórias, mas também terríveis derrotas.

O trecho de sua fala que ficou na memória coletiva é este:

“Não é o crítico que importa, nem aquele que aponta como o homem forte tropeça, ou onde o realizador das proezas poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está de fato na arena, cuja face está manchada de poeira, suor e sangue; que luta valentemente; que erra, que ‘quase chega ’ repetidamente, porque não há nenhum esforço sem erros e falhas; que realmente se esforça para fazer as obras; que conhece o grande entusiasmo, grandes devoções; que se entrega a uma causa nobre; que, no melhor dos casos, conhece, ao final, o triunfo da grande conquista e que, no pior dos casos, se falhar, ao menos falha ousando com grandeza, de modo que o seu lugar jamais será entre as almas frias e tímidas, que não conhecem nem a vitória, nem a derrota.”

A retórica é brilhante. Roosevelt não começa dizendo quem importa. Começa dizendo quem não importa. Primeiro retira de cena o observador que está em posição confortável e só depois revela o herói. Quem estuda para concursos conhece bem esse tipo que Roosevelt condena. É aquele que diz: “você está perdendo tempo”, “isso não compensa”, “tem gente mais preparada que você”. É aquele que nunca se candidatou a nada nem arriscou algo que lhe fosse caro, mas sempre tem uma opinião pronta sobre o que você deveria fazer com a sua vida.

Uma das passagens mais libertadoras do discurso é, paradoxalmente, uma das menos lembradas: o homem na arena erra, “quase chega lá” repetidamente, “porque não há nenhum esforço sem erros e falhas”. Em resumo, Roosevelt não promete um herói sem tropeços. Ele faz algo maior: incorpora o tropeço à definição de quem está jogando. Trazendo essa ideia ao nosso contexto, a reprovação em um concurso não é o oposto do mérito, mas parte do caminho de quem está, de fato, na disputa. O crítico jamais reprova porque tampouco tenta. Sua taxa de aprovação é perfeita em absolutamente nada.

Roosevelt fala também em “entregar-se a uma causa nobre”, e aí está um ponto decisivo. Quem estuda para ser professor, promotor ou enfermeiro está se entregando a algo que deve transcender o contracheque. Ainda assim, é de conhecimento geral que os vencimentos no serviço público são bons, e sonho grande cobra preço alto. O problema é que o custo aparece antes do resultado, e o crítico parece ter prazer em reforçar isso.

Portanto, poucas trajetórias se aproximam tanto da metáfora de Roosevelt quanto a do concurseiro. Trata-se de uma jornada que acontece quase toda em silêncio e quase sem validação. Muitas vezes, a vida piora bastante antes de finalmente melhorar com a nomeação. Há o peso social de explicar por que você ainda não tem um emprego “de verdade” ou por que precisa estudar tanto. E há, invariavelmente, os críticos das festas, das mesas de almoço, dos grupos da família no WhatsApp, perguntando: “você ainda está nessa?”, calculando em voz alta quanto você já poderia ter ganhado se tivesse “feito outra coisa”. Roosevelt tinha uma resposta para eles. Ela cabe em três palavras: eles não contam.

O fechamento do discurso é ainda mais certeiro. Roosevelt fala das “almas frias e tímidas que não conhecem nem a vitória, nem a derrota”. É uma condenação mais severa do que qualquer ataque que o observador externo possa fazer. O crítico não perde nunca, mas não por ser corajoso. Ele é poupado por não entrar no jogo, por não se expor, por não apostar, por não sangrar. Em contrapartida, jamais colhe os louros do triunfo. Roosevelt identifica aí a pior derrota de todas: a de nunca sequer haver tentado. 

Entender Roosevelt não significa ignorar toda crítica. Existe uma diferença entre o crítico de fora, que julga da arquibancada, e o interlocutor honesto, que já esteve na arena e oferece uma perspectiva amadurecida. A crítica de quem fez, conhece o preço e fala para aprimorar tem lá o seu valor. O que Roosevelt despreza é o ruído, o julgamento sem investimento, o “eu teria feito diferente” de quem não colocou nada em jogo. 

“O Homem na Arena” foi citado por Richard Nixon ao vencer a disputa presidencial e ao renunciar ao cargo. Também foi entregue por Nelson Mandela ao capitão da África do Sul antes da final da Copa do Mundo de 1995 e inscrito nos tênis de LeBron James. Barack Obama o evocou em campanha. O que liga contextos tão distintos é a força universal da metáfora: em qualquer tempo e em qualquer campo, existem os que entram na arena e os que ficam de fora comentando. 

Para quem estuda a fim de transformar a própria vida, a arena já foi escolhida, assim como foi escolhida por mim “no alto” dos meus catorze anos, quando decidi aprender com a prática antes de partir para o empreendedorismo-raiz. O fato é que as críticas vão e vêm, e vêm e vão. Não tenha dúvidas: elas servem apenas para confirmar que você estava no lugar certo o tempo todo.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

Participe do meu Canal no Whatsapp e do Canal do Imparável no Telegram e tenha acesso em primeira mão ao artigo da semana e ao áudio do artigo com a voz do autor, além de muitos outros conteúdos para inspirar você, mesmo em dias difíceis!

P.S.: Siga-me (moderadamente, é claro) em meu perfil no Instagram . Lá, postarei pequenos textos de conteúdo motivacional. Serão dicas bem objetivas, mas, ainda assim, capazes de ajudá-lo em sua jornada rumo ao serviço público.

Mais artigos para ajudar em sua preparação:

  1. 522 segundas-feiras
  2. O primeiro servidor da família
  3. Da bicicleta ao distintivo
  4. Forjado no ferro
  5. A juíza que estudou no silêncio da UTI
  6. Aos 57, ele terminou o que começou aos oito
  7. Quando estudar é sinônimo de liberdade
  8. Sem computador, sem atalhos, sem plano B
  9. Novo país, novo idioma, novo começo — e um 1º lugar aos 58 anos
  10. O gosto amargo do açúcar queimado
  11. Quando sobreviver já não basta
  12. Costurando passado, presente e futuro
  13. Filha do Juruá: da luz de lamparina ao TJ-AM
  14. Luz acesa
  15. Restituição
  16. O mapa na parede
  17. Sem plano B
  18. Entre ônibus, câncer, provas, desemprego e vitória
  19. A volta por cima: do corredor de hospital à caneta de Consultor
  20. A Barbie das Profissões que virou Policial

Por
Publicado em
5 min. de leitura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *