Cirurgia Oral Menor: Protocolos de exodontia e manejo de complicações pós-operatórias

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A cirurgia oral menor é o pilar da resolutividade na atenção primária e um dos temas mais recorrentes em provas de concursos odontológicos. Para o dentista do serviço público, dominar a exodontia vai além da técnica de fórceps; exige um entendimento profundo da propedêutica e da capacidade de prever riscos. O sucesso do procedimento começa muito antes da anestesia, no momento em que avaliamos se o paciente está sistemicamente apto para a intervenção.

As indicações para exodontia são vastas, incluindo cáries extensas não restauráveis, necrose pulpar sem possibilidade de endodontia, doença periodontal severa com perda de inserção irreversível e dentes impactados. No contexto do SUS, a decisão clínica muitas vezes passa pela viabilidade socioeconômica do tratamento reabilitador, mas a prioridade deve ser sempre a eliminação de focos de infecção que possam comprometer a saúde sistêmica do indivíduo.

Por outro lado, as contraindicações podem ser locais ou sistêmicas e são pratos cheios para bancas examinadoras. Localmente, destacam-se dentes localizados em áreas de radioterapia prévia (risco de osteorradionecrose) ou processos inflamatórios agudos severos sem controle prévio. Sistemicamente, doenças metabólicas descompensadas, como o diabetes mellitus, ou distúrbios de coagulação não controlados exigem o adiamento do ato cirúrgico até a estabilização do quadro.

O protocolo de exodontia convencional segue uma sequência lógica que visa preservar o osso alveolar. Iniciamos com a sindesmotomia, o descolamento das fibras gengivais, seguido pela luxação com alavancas. A aplicação correta dos princípios de física  (alavanca, cunha e roda/eixo) minimiza a força necessária e previne fraturas radiculares. O uso do fórceps deve ser o passo final para a remoção, nunca o protagonista único da força.

Durante a luxação, a sensibilidade tátil do cirurgião é fundamental. É necessário expandir as tábuas ósseas de forma progressiva e controlada. Em casos de resistência excessiva ou anatomia radicular complexa (como dilacerações), o profissional não deve hesitar em realizar a osteotomia ou a odontossecção. Tentar “vencer” a resistência na força bruta aumenta drasticamente o risco de complicações transoperatórias, como a fratura da tuberosidade ou do processo alveolar.

Após a avulsão do elemento, o cuidado com o alvéolo é o que define o pós-operatório. A curetagem deve ser criteriosa, realizada apenas se houver presença de tecido patológico (granulomas ou cistos). A irrigação abundante com soro fisiológico remove detritos ósseos e restos de amálgama. A compressão das tábuas vestibulares e linguais, seguida de uma sutura firme e sem tensão, garante a manutenção do coágulo sanguíneo, que é o andaime da cicatrização.

No manejo pós-operatório, as orientações ao paciente são tão vitais quanto o corte cirúrgico. O controle do edema nos primeiros 2 a 3 dias deve ser feito com crioterapia externa e repouso relativo. A prescrição de analgésicos e anti-inflamatórios deve ser personalizada, considerando o histórico gástrico e alérgico do paciente. No serviço público, a clareza na explicação sobre a proibição de bochechos vigorosos e fumo nas primeiras 48 horas previne a maioria das urgências pós-cirúrgicas.

A alveolite (osteíte alveolar) é a complicação dolorosa mais comum e frequentemente cobrada em provas. Ela ocorre pela desintegração prematura do coágulo, expondo o osso alveolar à cavidade bucal. O quadro clínico de dor pulsátil severa, geralmente surgindo entre o 3º e 4º dia após a cirurgia, requer tratamento imediato com irrigação e aplicação de curativos calmantes à base de eugenol, além de reforço na higiene local.

Outra complicação que gera insegurança é a hemorragia pós-operatória. Embora o sangramento leve (saliva rosada) seja esperado, a hemorragia persistente exige intervenção. O protocolo clínico inclui a limpeza de coágulos “em fígado”, localização da origem do sangramento e aplicação de agentes hemostáticos locais, como esponjas de colágeno ou fibrina, seguidos de sutura compressiva. É essencial descartar causas sistêmicas, como o uso inadvertido de anticoagulantes.

Infecções pós-operatórias, manifestadas por febre, trismo progressivo e exsudato purulento, indicam que a barreira de defesa foi rompida. Nesses casos, a antibioticoterapia torna-se obrigatória e a drenagem de possíveis coleções purulentas deve ser realizada. O acompanhamento do paciente deve ser rigoroso até a regressão total dos sintomas flogísticos, garantindo que o processo de reparo tecidual retorne à normalidade.

Para o concurseiro, é fundamental memorizar a classificação de Pell & Gregory e Winter para terceiros molares, pois elas ditam a complexidade cirúrgica e são temas certos em questões de cirurgia. Entender a relação do dente com o ramo da mandíbula e a profundidade em relação à linha oclusal permite antecipar a necessidade de manobras mais invasivas e preparar melhor o campo operatório.

Em suma, a cirurgia oral menor exige domínio técnico e vigilância constante. Seja na cadeira da UBS ou diante da folha de respostas do concurso, o segredo reside no respeito à anatomia e na aplicação rigorosa dos protocolos de biossegurança e técnica asséptica. O bom cirurgião não é aquele que nunca tem complicações, mas aquele que sabe diagnosticá-las precocemente e manejá-las com segurança e ética.

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