“Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desistirmos.” Gálatas 6:9
Início de janeiro. Você acorda decidido. Compra um caderno novo, monta um cronograma colorido, separa os tênis para a corrida das seis da manhã e avisa a família de que desta vez será diferente. E de fato é. Nas duas primeiras semanas, você cumpre todo o planejado e ainda sobram energia e disposição. Você chega a pensar que enfim descobriu o segredo que faltava.
Fevereiro ainda vai bem. Você perde um dia aqui, outro ali, compensa no domingo e segue com a sensação de estar no controle.
Março chega e, com ele, a procrastinação. O cronograma para no dia 12. Você olha para ele de longe, promete retomar na segunda-feira com fôlego total, mas a segunda-feira passa, a terça-feira também, e nada de avanço nos estudos.
Em maio, ninguém mais toca no assunto dentro de casa. Nem você. E aí vem o veredito, sempre o mesmo: faltou força de vontade, faltou disciplina; sobrou o “não nasci para isso”.
Se você se identificou com ao menos parte desse relato, hoje eu queria oferecer uma explicação melhor para o que acontece conosco depois dos dias de empolgação que marcam todo novo projeto. Curiosamente, ela não vem da psicologia, mas de um estudo sobre radioatividade do começo do século passado. O neozelandês Ernest Rutherford e o inglês Frederick Soddy notaram que substâncias radioativas não somem de uma vez. Elas perdem intensidade em um ritmo previsível, e o tempo necessário para que metade da amostra se desintegre ganhou nome próprio: meia-vida. Uma amostra com meia-vida de dez dias conserva metade da radiação ao fim de dez dias; um quarto, ao fim de vinte; um oitavo, ao fim de trinta. Foi assim que se aprendeu que o decaimento é lei da natureza, não fruto de algum defeito da matéria. A amostra em estudo não falhou; apenas seguiu uma curva descendente previsível.
Tenho convicção de que o nosso ânimo funciona de maneira parecida. Até onde sei, ainda não mediram isso em um estudo controlado, mas todo adulto conhece a sequência de cor: no primeiro dia de qualquer projeto há disposição para acordar cedo e planejar o ano inteiro; algumas semanas mais tarde, sem que nada de errado tenha acontecido, a força da largada já caiu pela metade; algumas semanas depois, nova queda. Na prática, aquele março com o cronograma parado no dia 12 diz muito menos sobre quem você é do que você imagina. Acontece com todo mundo, e acontece mais ou menos na mesma hora.
Alguém dirá que, se a vontade vai e volta, basta esperar que ela volte. Aí é que mora o engano. Quem melhor descreveu esse vaivém foi B. J. Fogg, que há décadas estuda hábitos na Universidade Stanford e fala em ondas de motivação: a vontade sobe e desce em ciclos, com regularidade quase mecânica. Por definição, quem aposta em um projeto grande quando a onda está no alto acaba perdendo, porque em algum momento a água vai baixar. O que se deve fazer no ápice, ensina Fogg, é montar aquilo que vai continuar funcionando lá embaixo. James Clear resume a mesma ideia em “Hábitos Atômicos”: não subimos ao nível dos nossos objetivos, caímos ao nível dos nossos sistemas. Traduzindo: o tamanho do sonho não puxa ninguém para cima. Quem puxa é o arranjo miúdo do dia – a hora em que você se senta para estudar, o lugar onde você faz isso e o que está diante de si sobre a mesa de estudo. É esse arranjo que decide o resultado, e não a ambição declarada em janeiro.
Entendo o que isso quer dizer desde pelo menos 2012. Ainda nos primeiros anos do Gran, quando ele todo cabia numa única sala, Rodrigo Calado e eu adotamos uma frase que repetimos ao time até hoje: aqui é sempre o Dia 1. Já contei em outra ocasião o que esse mantra significa para nós (leia AQUI). Toda empresa nasce cheia de energia e de humildade diante do que ainda não domina; passados alguns anos, esse combustível se desintegra sozinho, e a companhia escorrega para o que Jeff Bezos, na carta aos acionistas de 2016, chamou de Dia 2 – autoconfiança excessiva, estagnação, declínio lento. Recusar essa curva descendente é decisão deliberada, tomada de novo toda semana.
Não é fácil, e digo por experiência própria. Manter o espírito daquele 2012, passados mais de treze anos, não tem nada a ver com empolgação. Tem a ver com escolha consciente somada a rotina. Nos dias em que o cansaço pesa mais, costumo reler a frase com a qual abri a nossa conversa. Repare no que Paulo admite ali. Ele compreende que é natural se cansar e apenas pede que ninguém desanime a ponto de abandonar a obra pela metade. Dois mil anos antes de Rutherford e Soddy, o apóstolo já havia entendido que o ânimo humano tem meia-vida e avisou que a colheita fica com quem continua plantando depois de a empolgação passar.
Voltemos ao cronograma que você elaborou em janeiro. Aquele maio em que você parou de vez de estudar não chegou por acaso. Aliás, ele não é obra do acaso para ninguém. A diferença entre quem para em julho e quem desiste só em novembro raramente está no tamanho da vontade inicial; está no que cada um construiu enquanto a vontade era grande. Horário fixo, material separado por matéria, revisão espaçada, simulado marcado na agenda, mesa arrumada na véspera. É essa engrenagem simples que mantém o ritmo quando a energia motora inicial já se dissipou.
Se eu pudesse voltar com você ao primeiro dia de janeiro, daria três conselhos. O primeiro: aproveite o pico para decidir tudo que puder, porque decisão tomada nos dias de energia é decisão que você não precisará tomar nos dias de desânimo. O segundo: monte uma rotina que funcione com você cansado, chateado e sem inspiração, já que exigir vontade diária é apostar contra a própria natureza. E o terceiro, mais difícil que os outros dois juntos: quando a energia cair, não interprete isso como sentença sobre quem você é. A queda estava prevista desde o começo e vale para toda e qualquer pessoa.
Então, quando você comprar seu próximo caderno, montar seu próximo cronograma de estudos e separar os tênis para a corrida das seis, saiba que essa empolgação toda tem prazo de validade e que ela serve muito bem para uma coisa só: construir, enquanto ainda há energia, aquilo que vai segurar o projeto quando a força de vontade passar.
A aprovação, lá na frente, dependerá menos do quanto você quis em janeiro e mais do que você deixou pronto antes de março chegar.
“A motivação é o que te faz começar. O hábito é o que te faz continuar.” – Jim Ryun (1947-), atleta olímpico e ex-deputado dos Estados Unidos
Referências
BEZOS, Jeff. 2016 Letter to Shareholders. Seattle: Amazon.com, Inc., abr. 2017.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.
CLEAR, James. Hábitos atômicos: um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e livrar-se dos maus. Tradução de Marcos Vinícius Bittencourt. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.
FOGG, B. J. Tiny Habits: The Small Changes That Change Everything. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2020.
RUTHERFORD, Ernest; SODDY, Frederick. Radioactive change. Philosophical Magazine, London, v. 5, series 6, n. 29, p. 576-591, maio 1903.
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
Participe do meu Canal no Whatsapp e tenha acesso em primeira mão ao artigo da semana e ao áudio do artigo com a voz do autor, além de muitos outros conteúdos para inspirar você, mesmo em dias difíceis!
P.S.: Siga-me (moderadamente, é claro) em meu perfil no Instagram . Lá, postarei pequenos textos de conteúdo motivacional. Serão dicas bem objetivas, mas, ainda assim, capazes de ajudá-lo em sua jornada rumo ao serviço público.
Mais artigos para ajudar em sua preparação:
- A raiva boa
- A esperança perigosa
- Permanência
- A combustão do que ninguém aplaude
- A síndrome do começador
- O custo silencioso do barulho
- A tirania do “talvez”
- Os juros compostos da fidelidade
- A linha que não se rompeu
- Da pulseira de hospital à PRF, PF e PCDF
- A pedra angular
- O Zezinho que não morreu nos fornos
- O que a vida quer da gente
- Do meio-fio à farda
- Cheiro de madeira
- Alfabetizado aos 14. Imparável para sempre.
- O sonho que você ainda não sabe que tem
- Não é o crítico que importa
- 522 segundas-feiras
- O primeiro servidor da família
![[APROVAÇÃO NÃO ESPERA EDITAL] Promo maio/junho e pós-copa – Cabeçalho](https://blog-static.infra.grancursosonline.com.br/wp-content/uploads/2026/07/27090851/sua-aprovacao-nao-espera-edital-cabecalho-3lote.webp)
![[APROVAÇÃO NÃO ESPERA EDITAL] Promo maio/junho e pós-copa – Post](https://blog-static.infra.grancursosonline.com.br/wp-content/uploads/2026/07/27091228/sua-aprovacao-nao-espera-edital-post-3lote.webp)