“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.” (Paulo, em Efésios 4:26)
Comecei a escrever este artigo com raiva, e não é força de expressão. Nos últimos dias, tomei conhecimento de algo que considero uma grande injustiça e fiquei com aquele embrulho no estômago que não larga a gente nem na hora de dormir.
Nas primeiras horas, confesso, aquilo só me fez mal. Ruminei, remoí, perdi tempo. No dia seguinte, resolvi fazer outra coisa com o que estava sentindo: acionei pessoas, marquei reuniões, encaminhei providências, tomei decisões que vinha adiando havia semanas. Em poucos dias, a raiva tinha virado uma sequência de ações concretas. Olhando para trás, duvido que eu tivesse me movido com a mesma intensidade sem ela.
Veio daí o tema da nossa conversa de hoje e, com ele, uma tese que boa parte do discurso motivacional nega: a de que nem toda raiva é ruim.
Nossa cultura aprendeu a tratar toda raiva como problema, toda indignação como sinal de imaturidade, toda fúria como falta de equilíbrio. A intenção por trás disso é boa, porém tem um custo alto. A raiva é a emoção que mais protege o adulto quando há algo de muito errado em torno dele. Nesse sentido, aquela indignação lúcida diante do que merece ser combatido eu chamo de raiva boa, e arrisco dizer que ela é, em muitos casos, uma nobre expressão de amor. De amor pela justiça, pela dignidade dos outros, pelo direito de não fingir que está tudo bem quando não está.
Antes de qualquer coisa, esse tipo de raiva é um aviso de que um valor seu, caro leitor, querida leitora, foi violado. O peito que sobe ao ver alguém ser humilhado sem ter como se defender, o calor no rosto diante de uma injustiça, o incômodo específico que surge quando alguém desrespeita um princípio pelo qual você faria qualquer sacrifício; tudo isso é a sua consciência funcionando, e não um deslize de temperamento. Anestesiar esse sistema a pretexto de “manter a calma” raramente produz serenidade. O que costuma sobrar, no fim, é cinismo.
Então toda raiva serve? Claro que não. A que nos faz explodir por qualquer coisa, a que consome quem a sente e atropela qualquer um que estiver por perto, essa não constrói nada. A questão é que existe uma outra, e é justamente dela que quase ninguém fala.
Aristóteles já tinha notado isso mais de dois milênios atrás. Para ele, a virtude fica no meio-termo entre dois vícios opostos: de um lado, a irascibilidade fácil, da qual padece quem se enfurece por qualquer bobagem; do outro, uma mansidão covarde, caraterística de quem não se revolta nem mesmo quando a indignação é plenamente justificável. Virtuoso, escreveu ele em Ética a Nicômaco, é quem consegue se enraivecer “com as pessoas certas, na intensidade certa, no momento certo, pelas razões certas e do modo certo”.
Mais próxima de nós no tempo, a professora Myisha Cherry, da Universidade da Califórnia em Riverside, publicou em 2021 um dos livros mais comentados da década sobre o assunto, “The Case for Rage”. Ali, defende a tese de que certos tipos de indignação, sobretudo a que se volta contra a injustiça, cumprem uma função moral que o silêncio jamais deveria substituir. Foi essa espécie de raiva que Martin Luther King transformou em cartas escritas na cadeia, que Nelson Mandela digeriu por 27 anos sem se deixar apodrecer por dentro, que Malala Yousafzai converteu em causa mundial. Nenhum deles viveu sem raiva; todos souberam o que fazer com a que tinham.
Já faz tempo que cheguei à conclusão de que nem toda raiva deve ser combatida. Quando o Gran atravessou a crise de 2014, uma raiva específica se instalou em mim e quase me consumiu. Raiva de mim mesmo, por não ter antecipado o cenário; raiva do mercado, das dívidas que se acumulavam e, discreta e insistentemente, das pessoas que àquela altura andavam anunciando o nosso fim.
Eu tinha duas rotas possíveis pela frente. Podia levar aquele sentimento ruim para o travesseiro todas as noites e deixá-lo fermentar até virar ressentimento contra o mundo, ou podia acordar cedo e canalizar a mesma energia à solução do problema de fundo, cortando custos, reinventando o modelo de negócio do Gran e trabalhando mais duro ainda até tudo se ajeitar. Fiquei com a segunda opção, e não por serenidade de temperamento – que, aliás, eu não tinha, embora fosse exatamente o que eu transparecesse externamente, rs. Foi pragmatismo puro. Eu já havia entendido algo simples: raiva parada azeda e não traz nada de bom.
Mais uma vez introduzi meu texto semanal citando a Bíblia, e ressalto que a frase de Paulo merece ser lida com atenção. Repare que não há ali nenhuma proibição de sentir raiva; há, sim, a imposição de um prazo de duração para ela. Em linguagem contemporânea, Paulo diz algo como “fique com raiva, se for o caso; apenas não vá dormir sem resolvê-la”. A orientação vai ao encontro dos achados em pesquisas sobre sono e higiene emocional: aquilo que se leva para o travesseiro na forma de raiva ganha densidade durante a noite, e pela manhã terá evoluído para ressentimento. Mas isso está longe de significar que nenhuma raiva é bem-vinda.
Não conheço sua história, mas imagino que você, como concurseiro que é, já deve ter experimentado algum tipo de raiva fora do comum. Raiva de trabalhar demais, ganhar de menos e ter de deixar produtos para trás ao passar no caixa do supermercado; raiva contra o sistema depois de perceber que o mundo cobra bem mais de quem nasceu no CEP errado; raiva pelos anos perdidos à espera de um momento certo que nunca chegou; e até raiva de si mesmo depois de um mês inteiro ignorando o material de estudo que estava ali, aberto sobre a mesa.
Solta e sem rumo, essa energia evolui para amargura. Canalizada numa decisão específica de estudo, num plano de ataque para a semana que vem, num compromisso com a próxima madrugada, ela vira um dos motores mais confiáveis que existem. O que muda de uma circunstância para outra não é a intensidade da raiva, mas o destino que você dá a ela.
Então nada de se assustar com a sua raiva. Em vez disso, pergunte o que ela está tentando lhe dizer. Se ela apontar uma injustiça real, você tem uma bússola confiável na mão. Se apontar para um valor seu que acaba de ser violado, você acabou de identificar uma trincheira que vale a pena defender. O que a raiva boa pede de você é escuta, entendimento e ação.
Educar a própria raiva talvez seja uma das competências adultas menos discutidas e das mais úteis. Sufocá-la em nome de uma aparente virtude empobrece. Entre os dois caminhos, quem cresce escolhe o primeiro e, escolhendo, descobre que a raiva bem tratada nunca foi inimiga do amadurecimento. Foi, o tempo todo, um de seus melhores professores.
Escute a raiva antes que o sol se ponha.
“Chega um momento em que o silêncio se torna traição.”
Martin Luther King Jr. (1929-1968), no discurso “Beyond Vietnam: A Time to Break Silence”, Igreja Riverside, Nova York, 4 de abril de 1967
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.
CHERRY, Myisha. The Case for Rage: Why Anger Is Essential to Anti-Racist Struggle. New York: Oxford University Press, 2021.
KING JR., Martin Luther. Beyond Vietnam: A Time to Break Silence. Discurso pronunciado na Riverside Church, Nova York, 4 abr. 1967.
LORDE, Audre. The Uses of Anger: Women Responding to Racism. Discurso pronunciado na National Women’s Studies Association Conference, Storrs, Connecticut, jun. 1981.
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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Estava aqui nesta vibe de “mola encolhida” ruminando os sentimentos, sem poder dar vazão..esta reflexão chegou bem na hora, obrigada!!! Amei o texto, bem o que penso também, porém me faltava esta reflexão mais profunda da raiva, me ajudou bastante.