“Melhor é o longânimo do que o valente, e quem domina o seu espírito do que quem toma uma cidade.” Provérbios 16:32
Existe um talento raro na vida adulta, e é ele que separa, em qualquer jornada de longo prazo, quem chega de quem apenas insiste: a capacidade de manter a energia quando o retorno de fora é zero. Chamo isso de “combustão do que ninguém aplaude”, mas você pode chamar pelo nome de sempre: “disciplina”. Não confunda com motivação, ao menos não no sentido barato que a palavra ganhou. Disciplina significa gerar, dentro de si, o combustível que o mundo, naquele dia, se recusou a fornecer. Ao contrário do que muita gente acredita, ela não nasce como traço de personalidade sorteado entre poucos felizardos. Na verdade, está mais para técnica – e, como toda técnica, é treinável. Disciplina, querida leitora e caríssimo leitor, constrói-se.
A Psicologia contemporânea explica o fenômeno. Os pesquisadores Edward Deci e Richard Ryan, da Universidade de Rochester, passaram cinco décadas formulando a chamada Teoria da Autodeterminação – Self-Determination Theory no original inglês. A tese central deles, confirmada em centenas de estudos, sustenta que a motivação humana pode se manifestar de duas formas. Na primeira, ela vem de fora, com a pessoa sendo movida por fatores externos, como recompensa ou punição; na segunda, a motivação surge de dentro, ligada ao sentido, em si, do que a pessoa se propõe fazer. Uma e outra forma de motivação parecem servir ao mesmo propósito, mas, no longo prazo, o resultado diverge muito. Quem depende de estímulo externo precisa de doses cada vez maiores para continuar rendendo, ao contrário de quem encontra motivação no simples agir, que sustenta o ritmo mesmo na ausência absoluta de reforço positivo. É esse segundo tipo que a disciplina, tomada como estilo de vida, põe para funcionar.
Um dos experimentos mais conhecidos da área comprovou exatamente isso. Em 1973, Mark Lepper, David Greene e Richard Nisbett separaram crianças da fase pré-escolar em três grupos e as convidaram a desenhar com canetas coloridas, atividade que a maioria adorava por si só. Um grupo ganhou um prêmio que havia sido prometido desde o início; outro foi agraciado com uma recompensa sem aviso; e o terceiro não recebeu nada. Duas semanas mais tarde, os pesquisadores observaram, à distância, quanto tempo cada criança ainda dedicava à atividade espontaneamente. Surpreendentemente, as crianças recompensadas passaram a desenhar bem menos que as outras. Ou seja, o prêmio, pensado para reforçar o comportamento, havia matado o interesse original.
É bom ser recompensado por algo bem-feito? Sem dúvida que sim! Porém, quem depende de incentivo para se mexer fica refém de prêmios e elogios que nem sempre virão. O problema aparece quando eles somem e o fogo se apaga. Por outro lado, quem carrega uma fagulha interna consegue arder sozinho e sustentar essa chama por todo o tempo necessário. Reconhece-se esse tipo de pessoa pelo brilho no olhar ao fazer o que faz. Sabe como é, as vitórias mais valiosas têm menos a ver com grandes conquistas e mais com o autoconhecimento e a capacidade de se auto-orientar.
Anos atrás, escrevi um livro intitulado Disciplina Imparável (acesse gratuitamente AQUI). Minha premissa, ali, é de que disciplina não é um talento inato, e sim um estilo de vida deliberadamente construído, que só se alcança depois de atravessar os campos dos sentimentos, do tempo, dos sonhos e da capacidade de decidir. No livro, confesso não me considerar gênio em nada, mas reconheço, sem falsa modéstia, que sou bastante disciplinado. Publico um artigo por semana há mais de dez anos, sem nunca ter falhado uma única segunda-feira. Lá se vão outros sete anos gravando entrevistas para o canal Imparável – até agora, já somei mais de 350 conversas! Nos dias úteis, acordo por volta das cinco da manhã para dar conta da agenda cheia, que, aliás, não me impede de treinar seis vezes por semana. Todas as noites, antes de dormir, leio para os meus filhos e oro com eles. Escolhi cedo viver ao lado do que carinhosamente apelidei de “Senhora Disciplina”, e é ela, hoje, a razão de eu continuar entregando quando a inspiração não aparece. Nenhum desses hábitos nasceu em busca de aplauso; todos foram construídos para sustentar quem eu quero ser quando ninguém está olhando.
Para o concurseiro, isso tem um significado bem preciso. Em toda preparação séria, chega um momento em que ninguém mais está olhando. O entusiasmo do primeiro mês passou, a família cansou de perguntar como vão os estudos, os amigos já não elogiam a sua dedicação, o algoritmo do Instagram parou de recompensar o post da madrugada, o edital demora, o resultado atrasa… Você acorda e não tem a quem prestar contas. Pois acredite: esse é o instante mais decisivo da caminhada, porque é o único em que a preparação se torna sua de verdade. Quem sobrevive ao deserto de estímulos externos costuma ser exatamente quem passa.
“Mas como treinar esse tipo de disciplina?’, você deve estar se perguntando. De três modos simples, ainda que nenhum deles seja fácil. Um envolve reduzir todo consumo que prometa recompensa rápida, como o feed infinito, o vídeo de trinta segundos, a dopamina servida em blocos. O cérebro viciado em prêmios imediatos perde a paciência para as recompensas lentas, e é essa falta de paciência que você deve combater. Afinal, todo projeto de longo prazo – como o de passar em concurso público – pressupõe demora nos resultados. Entenda isso de uma vez por todas. Outro é executar tarefas invisíveis, que ninguém saberá se você concluiu ou não, apenas para provar a si mesmo que você é capaz de fazer algo com ou sem holofote. O terceiro, e mais duro, é aceitar que em algum momento você vai se sentir invisível, não porque as pessoas não estejam, literalmente, vendo, mas porque você está construindo algo interno e impossível de gerar print para ser repostado.
Por isso, amigo e amiga leitora, se você está no meio de algo grande e ninguém está aplaudindo, respire fundo. Esse silêncio não sinaliza que o projeto morreu; sinaliza que ele finalmente ficou sério. O fogo que rende é o que arde por dentro. Assim se forja, com o tempo, alguém que já não vai precisar de aplauso nem quando ele enfim chegar.
O aplauso confirma uma conquista, mas nunca foi ele que a sustentou.
“Quem tem um porquê para viver suporta quase todo como.” Friedrich Nietzsche (1844-1900), em “Crepúsculo dos Ídolos”
Referências
DECI, Edward L.; RYAN, Richard M. Intrinsic Motivation and Self-Determination in Human Behavior. New York: Plenum Press, 1985.
LEPPER, Mark R.; GREENE, David; NISBETT, Richard E. Undermining children’s intrinsic interest with extrinsic reward: a test of the “overjustification” hypothesis. Journal of Personality and Social Psychology, Washington, D.C., v. 28, n. 1, p. 129-137, out. 1973.
NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos, ou como se filosofa com o martelo. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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