Permanência

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“Permanecei em mim, e eu, em vós. Como o ramo de si mesmo não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim.” – João 15:4

Já reparou como a sociedade contemporânea valoriza a mudança e condena a rotina? É impressão minha ou damos mais crédito aos volúveis e desconfiamos de quem opta por alguma constância na vida? É como se o funcionário de uma empresa devesse alguma explicação por estar lá há vinte anos. Como se o morador de uma mesma cidade há três décadas tivesse, sei lá, perdido o trem para fora dali. O que dizer, então, de quem sustenta um casamento longo? Esse casal só pode estar escondendo algo… 

Para mim, está bem claro que as gerações que hoje governam o mundo veem com certo desprezo quem prefere fincar raízes. Paradoxalmente, nossa zona de conforto está em trocar de emprego a cada três anos, de cidade a cada cinco, de crença a cada dois e de parceiro a cada quatro. Quem faz isso, sim, alguns diriam, é corajoso e dinâmico, exatamente como o mundo ao seu redor. 

Pois bem, amigo leitor, quero defender aqui uma tese que vai na contramão disso. Vou tentar demostrar que existe um tipo de resultado, na vida adulta, que apenas a constância propicia. Esse resultado é raro justamente porque quase ninguém dedica tempo suficiente a um mesmo projeto para chegar até ele.

Tem a ver com a natureza dos bens que buscamos. Há bens que se adquirem com facilidade, mas que se perdem com a mesma rapidez. Não é esse tipo que almejamos aqui. Nosso foco é algo maior, um patrimônio duradouro, que só surge quando a pessoa escolhe permanecer onde está até conquistá-lo. Não se compra confiança; constrói-se, em um processo que depende, sobretudo, de estabilidade e previsibilidade. É assim que funciona em um relacionamento de duas décadas, por exemplo. Da mesma forma, não se ganha reconhecimento profissional da noite para o dia, pois a reputação é fruto do aperfeiçoamento diário. Igualmente, o domínio de um ramo do conhecimento não se consolida senão depois de alguns anos de estudo dedicado. Em comum, esses são bens legados pelo tempo. E o tempo, meus caros, não tem pressa.

Cal Newport, professor da Universidade de Georgetown e autor de “So Good They Can’t Ignore You”, passou a última década questionando o mantra do “siga sua paixão” que embalou os millenials. A conclusão dele se alinha à minha tese: a maestria em qualquer campo, e com ela a satisfação profunda no trabalho, se acumula pela permanência numa direção e é incompatível com trocas frequentes de rota. Quem muda de área a cada dois ou três anos nunca sai da faixa inicial da curva de aprendizagem, em que o rendimento é baixo e o prazer, idem. Quem, diferentemente, insiste mais um pouco e atravessa o platô do meio – o exato ponto em que a maioria das pessoas desiste –, enfim chega à região da curva em que a competência real começa a aparecer. “Siga sua paixão”, resume Newport com rara franqueza, é o pior conselho possível de carreira.

O sociólogo Robert Putnam, de Harvard, chegou ao mesmo lugar por outra estrada. O foco da sua pesquisa são as comunidades, e em “Bowling Alone” e em “The Upswing”, ele documenta que as mais estáveis garantem aos seus fiéis membros uma reserva específica de bem-estar que ele batizou de capital social. Os residentes têm mais confiança mútua, sofrem com menos criminalidade e gozam de maior mobilidade econômica e de boa saúde mental. E o lado desconfortável do achado de Putnam é que esse capital não se transfere, só existindo onde as pessoas ficam tempo bastante para se conhecerem pelo nome. Onde não há permanência, ninguém confia; onde a rotatividade é alta, tudo custa mais caro, do trabalho ao amor.

Há ainda uma camada matemática nesse arranjo. No século XX, o matemático Benoît Mandelbrot descreveu um fenômeno que Nassim Taleb popularizaria como “efeito Lindy”: aquilo que já durou muito tende a durar ainda mais. Um livro de quinhentos anos tem mais chance de estar sendo lido daqui a outros quinhentos do que um livro publicado semana passada. Uma teoria com dois mil anos prevê o futuro melhor do que outra surgida no último trimestre. Em sistemas complexos, um passado longo antecipa um futuro longo. Dito de outra forma, o que ficou tende a continuar ficando. Quem entende isso passa a ver instituições, ofícios e relações antigas com outro olhar.

Agora pense comigo: se é assim em tantos aspectos da vida, por que seria diferente no universo dos concursos públicos? O concurseiro que muda de foco a cada novo edital e que repensa métodos a cada frustração, sem dar tempo para o conteúdo se acumular e começar a render, fica preso àquela curva de aprendizado à qual nos referimos há pouco, sempre iniciando e jamais colhendo. A verdade é que, salvo honrosas exceções, quem passa costuma ser quem insistiu e não cedeu ao ímpeto de mudar, mudar e mudar. Costuma ser quem insistiu, por no mínimo três anos, no cargo originalmente pretendido, quem se submeteu à mesma banca até entender como ela pensa, quem seguiu o mesmo método até que ele mostrasse a que veio. Não se trata de teimosia, mas de respeito pela única variável na preparação que não comporta atalhos: o tempo.

Tenho até um relato recente que ilustra bem o que estou dizendo, o de Weslley Lindbergh, aluno do Gran que entrevistei há poucos dias no canal Imparável no YouTube (veja AQUI). Ele cresceu em Teresina, Piauí, assistindo ao pai, que era cego, estudar em braile – numa época em que material de concurso nesse formato quase não existia – e ser aprovado, depois de anos de reprovações, para um cargo no governo do estado. Inspirado nesse exemplo de obstinação, Weslley começou a trabalhar cedo. Aos dezessete, já era auxiliar de almoxarifado. Descarregava cimento e argamassa dos caminhões durante o dia e cursava Ciências Contábeis de noite. Decidiu estudar para concurso público quando se deu conta de que, na iniciativa privada, jamais teria retorno por todo seu esforço. Em 2022, sofreu a primeira frustração, a eliminação na CGU sem nem sequer atingir o mínimo na prova de conhecimentos básicos. Adoeceu do estômago pela pressão acumulada e passou quase um ano sem estudar. Poderia ter parado ali, mas não parou. De volta à preparação em 2023, em pouco mais de um ano, foi aprovado como auditor interno na ALESP, como consultor legislativo na Câmara Municipal de São Paulo, como analista judiciário no TRF-3 e, mais recentemente, como auditor da CGE-SP. Escolheu o cargo de consultor legislativo. No fim da entrevista, quando lhe perguntei o que o sustentou durante tantas provações, ele respondeu com uma frase que merece ser lida devagar: “O estudo sempre recompensa aqueles que permanecem”. Veio daí meu insight para este artigo. Ouvi essa palavra, “permanência”, que considerei chave para ressignificar toda a história dele e de tantos que passam pelo Gran.

Jesus, no capítulo 15 de João, do qual extraí a abertura da nossa conversa de hoje, resume o valor da permanência evocando a imagem de uma videira – Ele próprio – e seus frutos – os discípulos. Ele dá a instrução: “Permanecei em mim”. A palavra, no grego, é ménō, que significa, ao pé da letra, “ficar’, “morar”, “habitar”; no contexto, porém, é uma ordem para, mais que crer ou agir, permanecer. O ramo que se desprende, adverte Jesus, seca em horas, e não por castigo, mas por ter sido separado da fonte que o nutria. 

Então, amigo leitor, amiga leitora, antes de concluir que a próxima virada precisa ser radical e vir logo, considere a sério a alternativa tão desprezada pela cultura de hoje: ficar, continuar, permanecer. Permanecer no seu ofício, na sua cidade, no seu relacionamento, no seu material de estudo, no seu compromisso. 

Não defendo que você tenha medo de arriscar; defendo que tenha respeito pelo tempo que um bom fruto leva para amadurecer. Talvez a maior rebeldia possível, numa era obcecada por movimento, seja escolher o lugar certo e se manter nele tempo suficiente para fincar raízes fortes. Só elas garantirão estrutura para todo o resto.

“O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana.” – Simone Weil (1909-1943), em “O Enraizamento”

Referências

NEWPORT, Cal. So Good They Can’t Ignore You: Why Skills Trump Passion in the Quest for Work You Love. New York: Business Plus, 2012.

PUTNAM, Robert D. Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. New York: Simon & Schuster, 2000.

PUTNAM, Robert D.; GARRETT, Shaylyn Romney. The Upswing: How America Came Together a Century Ago and How We Can Do It Again. New York: Simon & Schuster, 2020.

TALEB, Nassim Nicholas. Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: Best Business, 2013.

WEIL, Simone. L’Enracinement: prélude à une déclaration des devoirs envers l’être humain. Paris: Gallimard, 1949.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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