Errar é preciso!

“Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia.” (Paulo Coelho)

 

Qual é a sua postura diante de erros cometidos em sua trajetória de preparação para concursos públicos? Por meio de diversas ciências, podemos explicar esse assunto. Aqui, lançarei mão da Pedagogia (ciência da educação e minha área de formação) para conversarmos a esse respeito.

No decorrer da atuação como Pedagogo, não raras vezes, deparei-me com aprendentes com concepções negativas, ruins e de frustação face às situações de erros. Também, pudera, ao longo de mais de quatro séculos, vigorou a defesa desse entendimento nos processos educacionais em nosso país.

Para que você possa entender, estudamos questões pedagógicas por meio de tendências/escolas/concepções pedagógicas. Desse modo, é natural fazermos uma divisão entre essas concepções a partir de tendências liberais (tradicional, progressivista e tecnicista) e tendências progressistas (libertária, libertadora e crítico-social dos conteúdos).

Desde a chegada dos jesuítas ao Brasil (no intento de catequizar os indígenas) até o ano de 1930, tivemos, oficialmente, a aplicação da tendência tradicional. Volto a afirmar: são quatro séculos. Naquela época, a relação professor-aluno se estabeleceu por meio do medo. A aprendizagem ocorria por mera transmissão dos contepudos, pelo professor, e recepção das informações, pelo aluno.

Na tendência tradicional, o docente está em posição de superioridade intelectual, de poder e de direitos; já o educando é visto como um sujeito com condições intelectuais inatas (psicologia inatista) – ou seja, nasce com condições de aprender ou não. Desse modo, o erro é uma responsabilidade do aprendiz.

Nesse aspecto, o professor é visto como um “ser de luz” (subentende-se que aquele que por ele não se ilumina agiu com incompetência). Ou seja, há algo prévio no aprendiz que o inviabiliza de aprender, mas isso não pode ficar implícito.

Ao docente se faz necessário externalizar essa “incompetência” do aluno. Surgem então a pressão, o vexame e os castigos, todos utilizados como um “empurrãozinho” à aprendizagem ou como validação da impossibilidade de avanço por parte dos incapazes.

Já ouviu falar em palmatória? “Tomar a tabuada”? Ajoelhar em um punhado de milho? Lista decrescente de melhores alunos? Leitura em voz alta das notas em provas? “Orelhas de burro”? Como podemos ver o erro como algo positivo diante desses tipos de recursos pedagógicos?

Por volta de 1930, houve uma mobilização de educadores vinculados às teorias psicológicas de aprendizagem do “aprender a aprender”. Nessas abordagens, defende-se uma aprendizagem ativa (participativa). Eles trouxeram uma prática pedagógica do aprender-fazendo. Há estímulo à reflexão.

A relação professor-aluno se modifica. Propõe-se uma vivência democrática e a diminuição da hierarquização das relações. Não se faz mais suficiente receber informações, é preciso construí-las. Nesse momento, amigo concursando, o erro começou a receber uma abordagem completamente diferente. Os educadores passam a reconhecê-lo como uma parte do processo até necessária à aprendizagem. Por qual motivo? Utilizarei a Teoria do Desenvolvimento Cognitivo de Jean Piaget (psicólogo, biólogo, filósofo) para explicar.

Segundo essa teoria, temos a ideia de formação de esquemas cognitivos. Um esquema é um conjunto de informações que nos ajuda a fazer conexões quando somos inseridos em um novo contexto de aprendizagem. Por exemplo, ao começar a estudar licitações, posso fazer conexões com um esquema cognitivo já iniciado em Direito Administrativo sobre princípios constitucionais.

Ao resgatar essas informações prévias e usá-las como base para o início do estudo de licitações, faço assimilação entre o que já tenho de informações e as novas com as quais me deparo. Isso facilita o entendimento do assunto, pois este passa a não ser entendido algo absolutamente novo.

Legal, não é? Mas, vamos ser realistas, lei de licitações não é fácil! Teremos muitas informações novas, não é mesmo? Seriam os conhecimentos do Direito Administrativo suficientes para aprendermos licitações?

Piaget, então, traz para nós o conceito de acomodação: quando já não é mais possível avançar apenas resgatando informações prévias de nosso conhecimento, precisaremos criar outro esquema: agora sobre licitações. Para tanto, entramos em um desequilíbrio cognitivo, somos confrontados com uma infinidade de peculiaridades.

Seria bom acomodar as novas informações automaticamente, mas, na realidade, um esforço cognitivo nos é exigido previamente. Nesse momento, temos uma grande oportunidade de errar.

O erro no processo de equilíbrio para a formação de um esquema é essencial. Errar, desde que entendamos o motivo do erro e possamos justificá-lo, ajuda-nos a consolidar informações. Ou seja, quando erramos e temos consciência disso, entramos em desequilíbrio – um conflito cognitivo. Assim, vamos regular nosso entendimento, buscar nosso conforto cognitivo. Assimilaremos a nova informação, trataremos de acomodá-la e, de quebra, ampliaremos nosso esquema cognitivo a respeito de licitações.

De acordo com Moreira, “a equilibração é a grande força impulsionadora do desenvolvimento intelectual. A equilibração está em todos os períodos e estágios do desenvolvimento cognitivo e é, na verdade, responsável por ele.” (MOREIRA, 1999, p. 103). Para o autor, o processo de aprendizagem ocorre pelo desequilíbrio da mente e, ao buscar equilibrá-la, novamente, a reestruturamos cognitivamente e aprendemos.

Olha, que maravilha, errar é a grande oportunidade, na verdade, de aprender!

Considerando o apresentado, precisamos partir de uma perspectiva positiva do erro. Para além disso, carecemos SEMPRE entender e justificar nossas falhas, assim como possíveis acertos “por sorte”. Caso você, caro leitor, tenha o péssimo hábito de não justificar esse tipo de acerto, veja o que nos diz Aquino:

Um aluno pode, por meio da sorte, acertar rapidamente a resolução de um problema. Se acerta, sua tendência será, sem maiores reflexões, repetir suas ações em momento posterior, ao passo que, se errar, sua tendência será a de refletir mais sobre o problema e sobre as ações que empregou para resolvê-lo. Vale dizer que o erro pode levar o sujeito a modificar seus esquemas, enriquecendo-os. Em uma palavra, o erro pode ser a fonte de tomada de consciência (AQUINO, 1997, p. 36).

Essa postura depende, certamente, de termos bastante humildade e abertura para enfrentar as diversas dificuldades com as quais nos depararemos nessa preparação no mundo dos concursos.

E… existem tipos de erros?

De acordo com Vinocur (VINOCUR, 1998, p. 98), os erros podem ser: por distração, conceituais, por dificuldade de interpretação da instrução e, por fim, construtivos.

No erro por distração, o aprendente tem entendimento do fenômeno e estrutura cognitiva para acertar, porém, por falta de concentração, erra. Essa tal de concentração… ela é essencial para a aprendizagem. Fique atento, esse será um tema de uma próxima conversa!

Em relação ao erro conceitual, há ausência de formação de conceitos formados para o acerto das questões. Geralmente ocorre no início do processo de formação dos esquemas cognitivos. Ou seja, é mais que natural.

No tocante ao erro por dificuldade de interpretação da instrução, temos causas diversas, das simples às complexas, desde um enunciado mal elaborado à complexidade dos problemas de aprendizagem. Nestes últimos, assim como nas questões de concentração, demanda-se o auxílio de profissionais especializados para diagnóstico e tratamento. Atente-se!

Por fim, a respeito do erro construtivo, através dele é possível reformular ideias prévias a partir do contato com o outro (professores, mentores, estudantes). Nossas salas personalizadas são excelentes para errarmos construtiva e progressivamente. Pelos debates, enquetes, trocas de pontos de vista, podemos ampliar nossos esquemas. Como diria o professor Armando Veloso, de minha graduação: “Cada ponto de vista é a vista de um ponto” (informação verbal).

Querido estudante, a partir de nossa conversa, volto à pergunta inicial: qual será a sua postura diante de erros cometidos em sua trajetória de preparação para concursos públicos?

Aguardo seu retorno; compartilhe conosco as percepções obtidas a partir dessa abordagem positiva e científica da necessidade e importância do ato de errar. Não se esqueça: entenda o erro como elemento integrante de seu processo de aprendizagem.

Seguimos em contato, até breve!

Glauber Marinho

 

REFERÊNCIAS

AQUINO, Julio Groppa. Erro e fracasso na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1997.

MOREIRA, Marco Antonio. Teorias de Aprendizagem. São Paulo: EPU, 1999.

VINOCUR, Sandra. In: BOSSA, Nadia Aparecida. Avaliação psicopedagógica do adolescente. Petrópolis: Vozes, 1998.

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Glauber Marinho
Analista do TJDFT e coach do Gran Cursos Online
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