O que faz um diplomata?

Muitos candidatos à carreira diplomática costumam fazer a pergunta: “Mas, afinal, o que faz um diplomata?”. A questão pode parecer simples, mas a resposta é, na realidade, um pouco complexa. Para apresentar uma visão inicial, bastante modesta, é oportuno, primeiramente, identificar os dois principais espaços nos quais o diplomata brasileiro costuma exercer suas atividades: a Secretaria de Estado das Relações Exteriores (SERE), em Brasília, e os postos, no exterior.

Na SERE, os principais vetores aos quais o diplomata pode dedicar seu trabalho são, basicamente: geográfico, multilateral, consular e administrativo. As atividades das áreas geográficas correspondem àquelas vinculadas ao amplo campo das relações bilaterais entre o Brasil e os demais países do globo. A Divisão da Ásia Central e Meridional, por exemplo — na qual trabalho —, tem responsabilidade sobre as relações com os seguintes países: Irã, Turcomenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, Paquistão, Índia, Butão, Nepal, Bangladesh, Sri Lanka e Ilhas Maldivas. Todos os assuntos referentes a esses países são tramitados, em nível diplomático, por esse setor, no qual são diretamente tratados ou, eventualmente, encaminhados para outras áreas do Itamaraty, sobre os quais tenham competência específica.

As áreas multilaterais, por sua vez, estão vinculadas a temas específicos ou aos diferentes foros internacionais a eles vinculados. Todos os temas relacionados, por exemplo, a desarmamento, não-proliferação e tecnologia nuclear — envolvendo quaisquer países ou regimes internacionais — serão tratados pela Divisão de Desarmamento Nuclear e Tecnologias Sensíveis; já aqueles vinculados à ONU serão tramitados pela respectiva Divisão. O mesmo quando se tratar, para citar, de mudança do clima, defesa, espaço, ciência e tecnologia. Assim, cada assunto é tratado pela respectiva área temática.

A área consular, por sua vez, é uma das mais importantes do Itamaraty, pois atende diretamente, de maneira ponderável, o cidadão brasileiro. Tanto as comunidades no exterior quanto as nacionais que estão viajando a outros países são de responsabilidade dos diversos setores vinculados a essas atividades, sob os mais diferentes aspectos, como o jurídico, o legal e o humanitário.

O vetor administrativo, por fim, é a espinha dorsal do Ministério, sem o qual tanto a SERE quanto os postos no exterior não teriam como viabilizar seu trabalho. Não é tarefa trivial, efetivamente, realizar todas as rotinas legais e administrativas do Itamaraty, ou seja, da SERE, dos Escritórios Regionais localizados no Brasil e, sobretudo, da extensa rede de postos que o Brasil mantém nos cinco continentes.

O segundo espaço de trabalho do diplomata corresponde, como referido, aos postos no exterior. Os mesmos vetores de trabalho da SERE são contemplados nesses postos, com maior ou menor ênfase, de acordo com o tipo de representação e suas realidades específicas. Em uma Embaixada, por exemplo, desenvolvem-se as múltiplas atividades vetoriais; em um Consulado, por sua vez, o trabalho se concentra na respectiva área consular; em uma Missão Permanente junto a um organismo internacional, por fim, as atividades multilaterais certamente dominam a agenda.

Um interessante exemplo da multiplicidade de vetores dos vários tipos de postos encontra-se na cidade de Nova Iorque: ali há a Missão Permanente do Brasil junto à ONU, que se dedica à extensa e diversificada agenda multilateral desse órgão; há, também, o Consulado-Geral do Brasil, que atende aos interesses da numerosa comunidade brasileira ali presente, bem como analisa os pedidos de concessão de visto por parte de cidadãos estrangeiros que desejam ingressar no Brasil; finalmente, há o Escritório Financeiro, que é responsável pela coordenação da gestão orçamentária, financeira e patrimonial da maior parte dos postos no exterior.

Essa plêiade de possibilidades de trabalho oferecida ao diplomata brasileiro apresenta, de igual modo, uma multiplicidade de desafios. Haverá atividades mais brilhantes, outras um pouco menos; trabalhos burocráticos e rotineiros, atividades mais dinâmicas e imprevisíveis; tarefas de grande projeção, outras de certa discrição. Em todas, porém, o diplomata poderá cumprir seu dever público de negociar, informar e representar, na qualidade de membro do Serviço Exterior Brasileiro.

O horizonte de trabalho de um diplomata — e, em perspectiva, do candidato à carreira, pode remeter à navegação: há vários oceanos a serem cruzados e diferentes mares a serem singrados. Os caminhos exatos que serão percorridos, somente o destino e as circunstâncias, exógenas e endógenas, poderão determinar. É preciso ter coragem e determinação; no diapasão do grande poeta Fernando Pessoa: “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.


Victor Toniolo

Victor Toniolo Nascido em 11/12/1980, em Curitiba ­ PR, filho do Ministro Leonaldo Silva e da Senhora Zelia Inez Toniolo Silva Licenciatura em Filosofia, Universidad Complutense de Madrid, Madrid, 2003. Bacharel em Ciências da Religião, Centro Universitario UNITALO, São Paulo, 2009. Mestre em Resolução de Conflitos e Mediação, Universidade Iberoamericana, conforme a dissertação “Declaração de Teerã: uma análise sob a perspectiva da resolução de confitos e da mediação”, Ciudad de Mexico, 2017. Foi aprovado no CACD 2014 e desde então exerce a função de Terceiro-Secretário do Ministério das Relações Exteriores na Divisão da Ásia Central e Meridional.

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