“Observe a formiga, preguiçoso, reflita nos caminhos dela e seja sábio! Ela não tem nem chefe, nem supervisor, nem governante, e ainda assim armazena as suas provisões no verão e no tempo da colheita ajunta o seu alimento.”
Rei Salomão (c. 970-c. 931 a.C.), em Provérbios 6:6-8 (NVI).
Uma verdade muito desconfortável sobre a preparação para concurso público é que ninguém está olhando. Ninguém sabe se você abriu de verdade a plataforma de estudos hoje. Ninguém sabe se você fingiu estudar por três horas com o celular na mão. Ninguém sabe se você trocou a matéria difícil pela fácil. A prova não pergunta. O edital não pergunta. Só você sabe. E é essa solidão sem testemunhas que separa quem passa de quem fica pelo caminho.
O Rei Salomão, quase três mil anos atrás, colocou o dedo nessa ferida ao mandar um preguiçoso observar as ações de uma formiga. A razão da escolha foi simples: a formiga trabalha sem chefe e, mesmo assim, cumpre direitinho a tarefa de guardar alimento no tempo bom para ter no tempo ruim. Como pode um bicho tão pequeno e despretensioso reunir duas das qualidades mais raras do mundo – iniciativa própria e persistência?
O concurseiro está exatamente na mesma condição da formiga. Empregado ou não, a dedicação ao estudo acontece fora do expediente. Ele não tem um líder direto cobrando entrega, não tem reunião de status toda segunda-feira, não tem cliente pedindo relatório. Suas entregas são invisíveis até o dia da prova, quando, das duas, uma: ou o cimento foi assentado, ou não foi. Não há renegociação de prazo.
Confesso que, mesmo hoje, na condição de cofundador e presidente do Gran, boa parte do meu trabalho só acontece no modo formiga. No meu caso, há sócio, conselho, time, investidores e alunos, e todos cobram resultados, direta ou indiretamente. Isso é claro. Só que o preparo silencioso que sustenta esses resultados ninguém pauta.
Ninguém me obriga a ler as inúmeras mensagens e relatórios que se acumulam ao longo da semana. Ninguém marca um horário para eu pensar sobre um problema difícil da empresa. Ninguém além de mim gere o tempo em que estudo o mercado, escrevo ou aprendo algo novo. Tudo isso corre por minha conta e risco. Aprendi cedo que, se eu esperar alguém puxar minha orelha para fazer esse trabalho de fundo, ele simplesmente não será feito.
Foi mais ou menos isso que Albert Bandura demonstrou em 1977, em um de seus experimentos. Bandura, que por muitos anos foi professor em Stanford e é tido como um dos maiores psicólogos do século XX, recrutou pessoas com fobia severa de cobras, gente que não conseguia sequer entrar numa sala com um aquário fechado. A cada encontro, aplicava-se uma sequência progressiva de tarefas: primeiro chegar perto do aquário, depois tocar o vidro, depois pôr a mão dentro, então encostar na cobra com uma vara, mais tarde com a mão enluvada e, por fim, com a mão nua, até segurá-la e deixá-la enrolar no pescoço. A cada microvitória, media-se o que a pessoa efetivamente havia feito, o quanto acreditava ser capaz de dar o passo seguinte e como o corpo dela reagia.
Entre todos os fatores medidos, o único que de fato antecipava o comportamento diante da cobra era a autoeficácia – a crença específica de que se conseguiria dar o próximo passo. Vontade, leitura, palestra motivacional, vídeo de outras pessoas manuseando cobras; nada disso ajudava muito. Só a confiança construída a partir de uma ação bem-sucedida anterior fazia diferença real.
Repare como isso conversa com a situação do concurseiro. A formiga que mora dentro dele não desperta pela simples vontade. Tampouco uma palestra ou um audiolivro motivacional bastam para acordá-la. Tudo isso pode servir de pontapé inicial – como, aliás, espero que este texto sirva – , mas não será esse o grande diferencial. A formiga que nos habita nasce e cresce pelo acúmulo de dias em que nos sentamos e cumprimos o bloco de estudo, ainda que pequeno.
Cada bloco vencido é uma evidência que o cérebro guarda: “eu sou o tipo de pessoa que faz isso”. Depois de trinta, sessenta, noventa dias de evidência acumulada, a identidade muda. Você passa a estudar sem precisar decidir fazê-lo. Estuda porque o estudo virou rotina. Mais que isso: porque ele virou parte de quem você é.
O erro clássico é esperar sentir-se concurseiro para só então agir como um. Bandura provou, com seus fóbicos de cobra, que essa ordem jamais funciona. Primeiro a pessoa age; depois a identidade vem, no rastro daquilo que ela repete. A formiga não decidiu ser formiga; virou formiga trabalhando.
Se há uma desculpa comum entre os concurseiros, é a da falta de motivação. “Hoje eu não estou motivado”, dizem a si mesmos. Mas a verdade é mais dura: ninguém está motivado todo dia. Ninguém é aprovado por ter uma motivação interminável e contínua. É aprovado por ter constância independentemente da motivação.
O concurseiro fadado ao sucesso é o que se senta à mesa de estudo quando está bem-disposto, mas também quando tem sono, fome, raiva ou preguiça; quando está saudável, mas também quando está doente; quando está em paz com todos à sua volta, mas também quando está chateado ou em meio a uma turbulência familiar. A cadeira ocupada não pergunta como você se sente. O que interessa a ela é uma coisa só: estar ocupada ou não.
Parece simples, mas sabemos bem que não é. Não pense, caro leitor, querida leitora, que vou, aqui, abandonar você à própria sorte. Enquanto a formiga interior ainda não se firmou, a gente precisa de algumas ferramentas que ela própria dispensaria. Precisa de um cronograma visível, colado na parede, para lembrar você quando a vontade sumir. Precisa de um horário fixo e sagrado, tratado como uma reunião com o cliente mais importante da sua vida. Precisa de um mural dos sonhos com símbolos daquilo que você espera conquistar depois da nomeação: o carro novo, a casa própria, a viagem adiada… Também vale uma foto bonita dos filhos como fonte de motivação. Nada disso substitui a formiga interior, mas serve de apoio até ela caminhar sozinha.
A parte mais dura vem depois de alguns meses. Vem quando a novidade acabou, quando os amigos pararam de perguntar, quando você já sabe que vai chegar em casa cansado e não ouvirá um único elogio pela sua dedicação. Vem quando você tem plena consciência de que a sua entrega ainda vai demorar e, mesmo assim, se senta e estuda. É nessa hora que os aprovados se separam do resto. É a formiga sem chefe em ação, num movimento monótono, invisível e, ainda assim, absolutamente decisivo.
Salomão, muitos capítulos depois de evocar a imagem da formiga trabalhadora, fecha essa lógica com uma frase que soa quase como profecia para o concurseiro de hoje: “Você já observou um homem habilidoso em seu trabalho? Será promovido ao serviço real; não trabalhará para gente obscura” (Provérbios 22:29, NVI). Habilidoso, aqui, tem menos a ver com dom e mais com trabalho polido em silêncio. É a formiga que ninguém viu no verão sendo chamada ao palácio no inverno. É o concurseiro invisível de hoje se tornando o servidor público de amanhã.
Ninguém precisa estar vendo você estudar. Deus está. O edital está. A sua história futura está.
“O verdadeiro teste do caráter de um homem é o que ele faz quando ninguém está olhando.” – John Wooden (1910-2010), técnico de basquete norte-americano, dez vezes campeão nacional universitário pela UCLA.
Referências
BANDURA, Albert; ADAMS, Nancy E.; BEYER, Janice. Cognitive processes mediating behavioral change. Journal of Personality and Social Psychology, [S. l.], v. 35, n. 3, p. 125-139, 1977.
BANDURA, Albert. Self-efficacy: The exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.
BÍBLIA. Português. Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2011. Provérbios, cap. 6, v. 6-8; cap. 22, v. 29.
WOODEN, John; JAMISON, Steve. Wooden: A lifetime of observations and reflections on and off the court. Chicago: Contemporary Books, 1997.
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