Alguns anos atrás, havia em Belo Horizonte um homem que estudava com dores terríveis na coluna. Tomava analgésico forte, esperava o remédio fazer efeito e voltava para a cadeira. Eram já onze anos no fisco municipal, uma rotina confortável e um sonho guardado na gaveta. O que o tirou da inércia foi uma frase do pai, dita meio grogue de anestesia depois de uma cirurgia de coração às pressas: ele não entendia como o filho seguia estagnado na mesma carreira havia tanto tempo.
O filho não discutiu. Apenas se sentou e começou a estudar.
Esse homem é o professor Alexandre Meirelles, hoje um dos nomes mais respeitados do nosso time e uma espécie de lenda entre concurseiros. Nascido no Morro do Dendê, na Ilha do Governador, acabou aprovado em concursos de ponta, entre os quais Auditor-Fiscal da Receita Federal e Agente Fiscal de Rendas de São Paulo. Já contei sua história neste espaço (leia AQUI), mas há um detalhe dela que nunca me saiu da cabeça: a cadeira que ele se recusou a deixar enquanto não alcançasse seu objetivo.
Foi Alexandre quem popularizou no Brasil a expressão mais feia e mais honesta deste nosso universo: “horas-bunda-cadeira”, ou HBC. O termo é feio de propósito, porque a coisa que ele descreve é feia. Não existe sinônimo elegante para o ato de sentar-se, abrir o material e ficar ali, hora após hora, diariamente, por meses ou anos, até a prova que mudará tudo.
Quando se trata de concurso público, há uma verdade que muitos relutam em admitir: no fim, o que aprova é mesmo a bunda na cadeira. Talento ajuda, método ajuda, um bom professor encurta o caminho e uma plataforma decente faz diferença real. Nada disso, contudo, supera os efeitos de centenas de horas acumuladas de bunda na cadeira.
Só que há no conceito de HBC uma sutileza que não pode ser desconsiderada. Quando Alexandre fala em horas sentado na cadeira, ele não está falando no tempo bruto de cadeira ocupada. Está falando em tempo líquido de estudo; em cronômetro pausado quando você se levanta para ir ao banheiro ou para dar aquela espiada no WhatsApp e retomado só depois de ter voltado ao posto. Na prática, quatro horas de cadeira com o celular ao lado podem render apenas uma hora e meia de estudo real. E o pior é que – seja sincero – a conta que você faz para si mesmo, no fim do dia, é a de quatro.

Post que o professor Alexandre Meirelles fez ano passado.
É bem isso. Não há para onde fugir.
Alguém poderia concluir, então, que basta somar as horas. Anders Ericsson, professor de psicologia da Florida State University, passou décadas testando exatamente essa hipótese e chegou a uma resposta que incomoda os dois lados da discussão. De um lado, derrubou o mito do dom: nos campos que estudou, o que separava o profissional mediano do profissional de elite não era algum talento inato; era o volume de treino. De outro, passou boa parte da vida corrigindo quem simplificou seu trabalho na tal “regra das 10 mil horas”. Hora mal-empregada não forma ninguém. O que forma é a prática consciente e planejada, que ele resumiu como “prática deliberada”, o treino difícil, com correção de erro, feito sempre um degrau acima do que você já domina.
Quer dizer que só a cadeira não basta? Não basta, mas nada acontece sem ela. HBC são condição de partida, não de chegada.
De minha parte, sempre gostei de sentar para estudar. Perdi as contas de quantos livros li desde a infância. Nos anos de faculdade em Nova York, passei fins de semana inteiros dentro da Bobst Library, da NYU, um prédio de doze andares onde eu simplesmente esquecia que havia mundo lá fora. Lembro-me de ter passado ali uma noite de Thanksgiving, que para os americanos equivale mais ou menos ao nosso Natal. Minha família estava longe e eu tinha muita coisa para aprender.
Estudar virou vício, devo reconhecer (rs). Gosto de ler algo interessante todos os dias e, mais recentemente, incorporei os audiolivros para aproveitar as brechas. Estou na sala de espera do médico e esqueci o livro? Coloco o fone.

Perdi as contas de quantos fins de semana passei nessa biblioteca, que ocupa um quarteirão inteiro em uma das cidades mais movimentadas do mundo.
Se para quem gosta de aprender o conceito de HBC já é inestimável, para quem estuda para concurso ele tem ainda mais valor. A intensidade e a rigidez da dedicação são indiscutivelmente maiores, porque concurso público tem prazo certo e gente na nossa frente na fila. Estudar é um dever absoluto para esse público, e devo ser franco com você: não há gentileza nesse processo.
Há um preço a pagar, e vi isso de perto quando minha mãe, perto dos 60 anos, decidiu tirar do congelador um sonho antigo e disputar uma vaga de consultora legislativa na Câmara Legislativa do DF, na área de Direitos Humanos. Todo domingo ela montava o cronograma da semana, dividia as disciplinas em três blocos e alternava os estudos para que nada esfriasse. Encheu de anotações dezenas de cadernos grossos, leu centenas de PDFs, resolveu mais de 35 mil questões. Foram HBC levadas muito, muito a sério.
O corpo cobrou. O cotovelo inflamou, o punho ficou dormente, precisou de infiltração. Minha mãe prendeu a tala, sentou-se de novo e continuou. “Se eu paro, saio da fila, e quem sai da fila não vê a porta abrir”, dizia. Ela assinou o termo de posse em fevereiro de 2025, pouco antes de completar 61 anos (veja a história inteira AQUI).
É que o corpo humano não foi desenhado para passar seis, oito, dez horas sentado. A coluna reclama, o olho arde, o punho trava, o sono desregula. A conta vai chegar, e é melhor estar preparado para pagá-la sem maiores danos. Na prática, isso significa cadeira decente, mesa na altura certa, pequenas pausas a cada cinquenta minutos, um alongamento no meio da manhã, caminhada no fim da tarde e, principalmente, sono de qualidade. Nada disso é frescura; é condição para chegar inteiro ao dia da prova.
Todo aprovado que entrevistei no canal Imparável pagou algum tipo de preço. Uns pagaram com o corpo, como minha mãe. Outros pagaram com o casamento adiado, com a viagem que não fizeram, com o feriado de Natal “perdido” para os estudos, com a amizade que esfriou. Nenhum servidor público realizou o sonho da aprovação de graça, e quem promete o contrário está vendendo uma mentira. Em contrapartida, todos os ex-concurseiros com quem falei, sem exceção, me disseram que valeu a pena e que fariam tudo de novo. Sinal de que a recompensa está à altura do esforço.
Pois é, amigo leitor. O sistema que funciona é o das HBC. Cadeira ocupada, computador aberto à frente, cronômetro rodando. Sem drama.
Repare que nenhuma das três cadeiras desta conversa era confortável. A do Alexandre tinha o analgésico ao lado. A da minha mãe tinha a tala no punho. A minha tinha a festa de Thanksgiving acontecendo do outro lado da janela.
Nenhuma delas, porém, ficou vazia.
A sua, meu caro, está aí, à sua espera. Ela não cobra talento nem inspiração; cobra presença. E é, provavelmente, a única parte da sua preparação que depende exclusivamente de você.
“Todo o infortúnio dos homens vem de uma só coisa: não saberem permanecer em repouso num quarto.” – Blaise Pascal (1623-1662), em “Pensamentos”
Referências
ERICSSON, K. Anders; POOL, Robert. Peak: Secrets from the New Science of Expertise. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2016.
MEIRELLES, Alexandre. Como estudar para concursos. Salvador: JusPodivm, 2026.
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