A juíza que estudou no silêncio da UTI

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Quando menina, Fernanda Rocha queria ser professora. Aluna aplicada, mantinha os cadernos muito bem-organizados e gostava de explicar a matéria para os colegas de escola, sempre com aquele brilho no olhar típico de quem encontrou seu propósito. Mais tarde, porém, outro sonho de infância foi ganhando contornos mais sólidos: o sonho de ser juíza. Hoje vou contar um pouco dessa história. 

No início, Fernanda enxergava a magistratura como algo surreal e fora da realidade para alguém como ela, filha de empregados públicos de nível médio e moradora de Taguatinga, cidade satélite daqui, de Brasília. Na casa onde ela cresceu, embora se valorizasse a ascensão pelo estudo, ainda que tardia – sua mãe só foi buscar o diploma universitário adulta – , ninguém contava muito com a possibilidade de chegar tão alto.

Então ela foi subindo aos poucos. Começou fazendo Ciências Contábeis na UnB. Depois, influenciada pela mãe, mudou para Direito. Nos corredores da faculdade, entre códigos, petições e simulações de audiências, o Direito do Trabalho deixou de ser mero conteúdo de prova e foi se revelando vocação. Mesmo assim, a magistratura continuava fora da sua realidade. Era como um quadro bonito pendurado na sala de um vizinho: admirável, inspirador, mas que não era seu.

Pragmática, seguiu a vida como a maioria de nós. Formou-se e começou a trabalhar. Foi assessora legislativa na Confederação Nacional da Indústria. Advogou. Abriu escritório com o irmão. Realizou até o sonho de infância, tornando-se professora, inclusive aqui, no Gran. Sua história, até aí, já seria notável, mas dentro dela crescia uma inquietação… 

Em 2019, decidiu abraçar o anseio que vinha escondendo em um canto profundo da mente. A magistratura deixou de ser mito e virou projeto. Conteúdo não lhe faltava. Fernanda tinha mestrado, base teórica robusta e experiência prática. Mas concurso público não cobra apenas brilho acadêmico. 

No começo, preparando-se para o Ministério Público do Trabalho (MPT), ela caiu no erro comum: mergulhava no que adorava estudar e negligenciava o resto – no caso, a parte objetiva da prova, decisiva na primeira fase. A reprovação foi inevitável e serviu de lembrete: o problema não era falta de capacidade, mas de método.

Era preciso mudar, e ela mudou. Passou a encarar lei seca com a mesma disciplina que dedicava à doutrina. Os fones de ouvido se tornaram praticamente extensão do corpo: estavam lá no trânsito, na esteira, na fila do banco, na cadeira da manicure. As videoaulas do Gran preenchiam todo e qualquer espaço vazio do dia, de modo que falta de tempo parou de ser desculpa. Àquela altura, a vida já girava em torno de um único objetivo, pois Fernanda tinha feito sua escolha, e, como bem sabemos, quando se decide de verdade, todo o resto fica um pouco mais fácil. 

Tal determinação, no entanto, foi posta à prova quando, em 2021, seu pai sofreu um AVC e foi parar na UTI. Por quatro meses, ela e o irmão tiveram de se revezar entre vigiar sondas, ouvir os médicos, falar com enfermeiros e revisar jurisprudência, quando e como dava. Estudavam sentados ao lado do leito, com o bipe dos aparelhos marcando o tempo e num estado de alerta constante.

As despesas, é claro, aumentaram substancialmente e Fernanda teve de trabalhar mais do que nunca para sustentar a casa e bancar fisioterapia, cuidadora, exames e procedimentos que o plano não cobria. Intensificou a advocacia, aumentou a quantidade de aulas, assumiu o que fosse necessário para superar aquela fase. Dormia pouco, chorava em silêncio, mas não interrompeu os estudos.

Mulher segurando a mão de um homem acamado no leito de hospital.

Fernanda com o pai na UTI.

Provavelmente aquele não foi o período de maior rendimento na preparação. Parte do conteúdo se perdeu entre cansaço e medo. Mesmo assim, seguir estudando manteve sua integridade emocional. Parar equivaleria a admitir que o sonho era luxo; continuar confirmava que era necessidade.

As voltas que o mundo dá… O edital para juiz do trabalho foi publicado em janeiro de 2023 e apenas uma semana depois o pai de Fernanda voltou a trabalhar. Era como se a vida tivesse aguardado o momento exato para dizer: é agora! Com a saúde do pai restabelecida e as finanças de casa estabilizadas, Fernanda pôde, enfim, reduzir a carga de trabalho e se dedicar ao edital. E ela fez isso como se aquela fosse a última chance de sua vida.

Começou a fase mais dura. Todos os dias, acordar às quatro da manhã; estudar até seis e meia, sete; seguir para o trabalho; entre uma atividade e outra, ouvir mais uma aula; e, de noite, adicionar outra hora e meia de concentração absoluta. Quando o corpo era irredutível em exigir pausas, Fernanda atendia e descansava um pouco, ciente de que isso também era necessário. 

Foram mais de doze meses nesse compasso, sem férias de verdade e com domingos um pouco mais leves, porém nunca ociosos. Vieram as provas objetiva e discursiva. Depois, quase um ano de expectativa até a prova oral. Enquanto aguardava resultados que não dependiam dela, Fernanda se mantinha firme no que dependia: o estudo. 

Mulher sorridente tirando selfie em frente a um computador enquanto estuda.

Estuda que a vida muda.

No dia da divulgação do resultado, ela não foi sozinha. Levou a mãe, o noivo, o irmão e o melhor amigo. Queria por perto quem pudesse acolhê-la caso seu nome não fosse chamado. Sabe como é… fé combinada com cautela. Mas eis que ouviu… “Fernanda Rocha…”, e o corpo cedeu. Não foi só alegria; foi descarga de anos de tensão. A aprovação validava cada ausência, cada festa recusada, cada madrugada diante dos livros, cada noite na UTI alternando entre vigília e estudo.

Fernanda costuma dizer que foi mais feliz naquele instante que no próprio dia da posse.

Hoje, juíza do trabalho no TRT da 3ª Região, ela fala sobre sua trajetória com serenidade. Não há euforia; há consciência. Ela sabe exatamente quanto lhe custou chegar até ali. Quando tenta resumir o caminho, o faz em uma só palavra: constância. Para ela, mais vale uma hora todo santo dia que oito num esforço isolado aqui e ali. Concurso público, ressalta, não se vence com lampejos de motivação; se vence com disciplina.

Mulher segurando um microfone enquanto faz um discurso.

Discurso de posse como juíza do TRT da 3ª região. Orgulho para toda a família Gran!

No fim, ela aprendeu que o sonho de menina só parecia distante enquanto não era perseguido com método. Descobriu também que a dor de todo o processo, depois da conquista, diminui de tamanho e vira lembrança. É como diz outro juiz, o também professor do Gran Aragonê Fernandes: “todas as reprovações transitam em julgado após a aprovação”.

Questionada se faria algo diferente, ela responde com a garra de quem venceu: se soubesse o quão maravilhoso seria alcançar esse sonho, teria estudado ainda mais. Talvez tivesse colocado o despertador não para as quatro da manhã, mas para as três.

Mulher feliz enquanto segura uma bebê recém nascida frente a seu rosto.

Hoje, após a nomeação, Fernanda se sente mais segura para viver a maternidade. Sua linda filha se chama Maria Alice.


Gabriel Granjeiro – CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de quatro livros best-seller na Amazon Kindle.

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