Pague o preço ou reduza o sonho

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“Quem trabalha a sua terra terá fartura de pão, mas quem sai atrás de fantasias é sem juízo.” — Rei Salomão (c. 970-c. 931 a.C.), em Provérbios 12:11 (NVI).

Vou abrir esta conversa com um conselho que parece contradizer tudo o que escrevo aqui desde 2016: pode ser que esteja na hora de você diminuir o tamanho do seu sonho. Calma! Antes de fechar a página, saiba que a frase não é minha. Quem me disse isso, em recente entrevista no canal Imparável, foi Lukas Silva Leite, e ele tem lugar de fala para fazer esse tipo de recomendação. 

Alguém alegará, com aparente razão, que é muito fácil recomendar sonho pequeno para os outros quando a gente já está do lado de cá do balcão. Seria mesmo. Só que Lukas só chegou lá depois de muito, muito esforço. De origem simples, ele cresceu em barraco de fundo de quintal e dependeu de cesta básica para ter comida na mesa. 

Tudo começou a mudar quando o pai de Lukas conseguiu juntar R$ 50 e pagar um curso de informática para o filho. Foi o bastante para o menino de 15 anos virar professor da matéria e passar a ganhar cerca de R$ 200 por mês. Mas o melhor veio depois. O curso lhe rendeu estágios em órgãos públicos, e um deles, na Justiça Federal, lhe mostrou o caminho do concurso. 

Lukas entrou com tudo nesse universo. Tentou a PMDF, mas reprovou por apenas dois pontos. Chorou dentro do BRT e teria largado tudo se o pai – que nunca prestou concurso na vida – não tivesse dito, naquela noite, que reprovar faz parte. Então veio a aprovação para a Polícia Militar de Santa Catarina, que o fez morar quatro anos longe da família. Foi nesse período que ele sentiu na pele como é difícil estudar cansado e sem conforto algum. Voltou a Brasília aprovado na Polícia Penal do DF, começou a faculdade de Direito e emendou o concurso da Câmara dos Deputados, no qual passou em 14º lugar na cota e foi o primeiro colocado geral na prova discursiva.

No fim de nossa conversa, Lukas resumiu a própria biografia numa frase que eu não consegui esquecer: “Você está disposto a pagar o preço? Não? Então reduza o sonho. Ou você aumenta o sacrifício, ou você diminui o sonho.”

A frase incomoda, e é bom que faça isso. Reduzir o sonho soa como render-se, e render-se é justamente o que sempre peço que você não faça. Então onde está o truque?

Está na leitura. As palavras de Lukas não são autorização para sonhar pequeno, mas proibição de sonhar alto sem contrapartida.

O Rei Salomão, em Provérbios 12:11, já havia dito algo parecido, com outras palavras e evocando a imagem de uma lavoura. Reproduzi a frase na epígrafe deste texto. Volte a ela e veja como Salomão opõe dois personagens: o que trabalha a terra e o que corre atrás de fantasias. “Fantasia”, ali, não significa mera imaginação, tampouco um sonho desproporcional. Significa um sonho livre de qualquer custo. A lição é simples: quem trabalha enche o celeiro; quem vive de imaginá-lo cheio morre de fome. 

No artigo de duas semanas atrás, mencionei o professor Anders Ericsson e sua teoria sobre prática deliberada (leia AQUI). Volto a ele por um motivo específico. Ericsson passou quatro décadas atrás de respostas para uma pergunta simples: como alguém se torna excelente de verdade em alguma coisa? Foi conferir de perto violinistas em Berlim, enxadristas, cirurgiões, atletas olímpicos e em nenhum campo encontrou atalho, nem mesmo entre os considerados prodígios. Encontrou, sim, preço, e preço alto: milhares de horas de treinos difíceis e incômodos, sem nenhum retorno imediato.

Aqui, preciso tranquilizar você, porque esses números costumam assustar. Ericsson estava medindo o custo de virar mestre absoluto num ofício, não o de passar num concurso. Ninguém precisa de dez mil horas para ter o nome na lista de aprovados. Porém, a lógica que vale para o violinista profissional vale igualzinho para você: existe uma conta a pagar, e ela é toda sua.

Posso dizer que eu paguei a minha. Muitos sabem que fui um menino tímido, e não me refiro ao tipo de timidez que faz a pessoa ficar apenas quieta no canto dela. Estou falando de timidez nível travar na hora de apresentar trabalhos na escola e de se sentar no fundo da sala com o único intuito de não ser notado. Ao mesmo tempo, eu sonhava com uma vida que exigia exatamente o contrário, que era liderar uma empresa grande e ajudar o máximo de gente, o que provavelmente demandaria exposição contínua.

Foi assim que cheguei sozinho à equação do Lukas, muito antes de ouvi-la dele. Ou eu pagava o preço da timidez, ou eu encolhia o sonho até que ele coubesse na minha zona de conforto. Escolhi pagar. Fiz teatro. Fiz fonoaudiologia – faço até hoje. Obriguei-me a me expor em apresentações na empresa, em palestras Brasil afora, em entrevistas sob o constante foco de uma câmera.

A timidez não sumiu de vez, mas foi domada. Continuo reservado e introvertido, e falar em público segue não sendo a minha inclinação primeira, mas hoje faço isso com tranquilidade. No último sábado, falei para 4 mil pessoas no nosso Gran Dicas, aqui em Brasília. Se eu tivesse ficado esperando a timidez passar por conta própria, provavelmente ainda estaria esperando, e o Gran, o canal Imparável e estes artigos de segunda-feira simplesmente não existiriam.

Agora a objeção que de fato importa, aquela que chega à minha caixa de mensagens toda semana: e se eu pagar o preço e mesmo assim não passar?

Vou ser honesto. Pagar o preço não compra a aprovação; compra o direito de estar na disputa. O que a equação garante mesmo é o avesso disso: quem não paga fica de fora, sempre. Foi por isso que Lukas chorou dentro do BRT e voltou para a cadeira no dia seguinte. Ele já tinha entendido que a conta é paga antes mesmo de se conhecer o resultado.

Além disso, reduzir o sonho, quando for o caso, não é vergonha nenhuma. Conheço muita gente que entrou pelo cargo de nível médio para depois subir, e isso não é abrir mão do topo, e sim trocar o salto por uma escada. O que não funciona é a terceira via que quase todo mundo tenta, que é manter o sonho no tamanho original e o preço no tamanho que dá para pagar sem incômodo.

A equação vale para tudo e sugiro que você a aplique hoje mesmo em algum aspecto da sua vida. Quer o corpo forte? O preço se chama academia diária e comida sem graça na maioria das refeições. Se você não estiver disposto a isso, ajuste a meta para “corpo saudável” e pare de se torturar por não ter aquilo que não quis comprar. O mesmo raciocínio serve para as relações interpessoais. Quer um casamento baseado em amor, companheirismo e lealdade? Pague o preço das conversas difíceis, da entrega por inteiro e do perdão frequente. Do contrário, aceite que relacionamentos sólidos não são para você.

E quanto àquele concurso dos mais concorridos do país, que você anda paquerando? O preço está nas letras miúdas do contrato: acordar cedo, dizer não a quase tudo, estudar sozinho por muito tempo, chorar quando reprovar e voltar à mesa de estudos já na manhã seguinte. Se você aceita o desafio, o Lukas acaba de provar que dá. Se não aceita, ele também já lhe disse o que fazer.

Olhe o preço na etiqueta antes de dizer que quer. Depois escolha, e escolha em paz, porque as duas escolhas são honestas. Só a terceira, a de querer sem pagar, cobra caro e não entrega nada.

“Aquilo que obtemos barato demais o coração desvaloriza. Só o preço alto dá valor às coisas.” — Thomas Paine (1737-1809), em “A crise americana”, 1776.

Referências

BÍBLIA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2011. Provérbios, capítulo 12, versículo 11; capítulo 24, versículos 30 a 34.

LEITE, Lucas Silva. Ele acordava às 4h para estudar. Hoje, está entre os primeiros da Polícia Legislativa | Lukas Leite. Entrevista concedida ao Canal Imparável. Brasília: Gran Cursos Online, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NFDTDGEqe2I&t=319s. Acesso em: 30 ago. 2026.

PAINE, Thomas. The american crisis. Philadelphia: Styner and Cist, 1776-1783.

ERICSSON, K. Anders; POOL, Robert. Peak: Secrets from the new science of expertise. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2016.

ERICSSON, K. Anders; KRAMPE, Ralf Th.; TESCH-RÖMER, Clemens. The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, v. 100, n. 3, p. 363-406, 1993.

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