A lenha e a medida

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“Cuidado com aquilo em que você deposita o coração, porque certamente será seu.”

Atribuída a Ralph Waldo Emerson (1803-1882), filósofo e ensaísta norte-americano.

A qualidade da sua vida daqui a cinco anos vai depender menos do que você tiver conquistado no caminho e mais de duas escolhas que você faz todo dia sem perceber. Uma é sobre o que você deixa entrar. A outra é sobre o quanto você aguenta sem se tornar outra pessoa. 

Três mil anos atrás, dois autores do Livro de Provérbios, nas Escrituas, já faziam essas duas perguntas. Salomão cuidou da primeira e a respondeu com uma imagem doméstica: “Sem lenha, a fogueira se apaga; sem o caluniador, morre a contenda” (Provérbios 26:20, NVI). O outro se chamava Agur e escreveu uma das orações mais singulares das Escrituras, na qual ele não pede prosperidade, não pede alívio; pede medida: “Não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário. Se não, tendo demais, eu te negaria e diria: Quem é o Senhor? Ou, empobrecido, poderia vir a roubar” (Provérbios 30:8-9, NVI). 

O que dizem os dois sábios? Vamos por partes. 

Para Salomão, a equação é simples: só continua na sua vida aquilo que você alimenta todo dia, da mesma forma que aquilo que você para de nutrir morre por conta própria. Em outras palavras, o que você não quer por perto continua aí porque você mesmo, sem perceber, põe lenha nele todo dia. Ressentimento vive de recontagem na sua cabeça. Comparação vive de rolar o feed do Instagram – e daí para a autoestima em queda é um passo. Reclamação diária evolui para desânimo; fofoca de grupo, para apatia. Vale, portanto, saber qual lenha alimenta qual fogo, porque cortar a lenha errada apaga a chama errada.

Já Agur fala de outra coisa: o próprio limite. Ele não condena a riqueza. Diz apenas que conhece a si mesmo o bastante para saber a partir de que ponto o dinheiro passaria a mandar nele, em vez do contrário. Sua oração é um exercício de autoconhecimento. O problema, ele admite, quase nunca está no dinheiro, mas na facilidade com que a gente se transforma sem perceber. 

Somados, os dois provérbios são o retrato inteiro da vida adulta. Salomão fala de direcionamento: o que você alimenta cresce. Agur fala de dose: existe um ponto em que uma coisa boa deixa de sê-lo porque passa a mandar em você. Um pergunta o que você permite entrar. O outro quer saber o quanto de qualquer coisa você aguenta sem virar alguém que não pretendia ser. 

Em 1936, num laboratório da McGill University, Hans Selye injetou em ratos substâncias como formol, adrenalina e morfina, enquanto submeteu outros ao frio e a exercícios forçados. Esperava uma reação distinta para cada agente, mas encontrou sempre o mesmo estrago: as glândulas suprarrenais inchadas, os órgãos linfáticos encolhidos, hemorragia no estômago. Ou seja, o que adoecia os animais não era a natureza do que entrava, mas o tamanho da exigência que aquilo fazia ao corpo. Todo estímulo, bom ou ruim, consome capacidade de adaptação do organismo, capacidade essa que não é infinita. Passado certo ponto, o sistema entra em falência, o estágio que Selye chamou de “exaustão”. Ele foi o primeiro a pôr números no “quanto” de Agur.

Confesso que as perguntas dos dois sábios me alcançaram tarde. Gosto de ficar por dentro das notícias e sei que há valor nisso. Mas chegou o dia em que a soma delas ultrapassou minha capacidade real de processá-las e, que fique claro, esse limite nunca esteve atrelado ao da minha vontade. Levei tempo para descobrir que o cérebro humano não escolhe processar tudo o que recebe. Ele processa o que consegue, e o resto vira fonte de ansiedade. Hoje corto muita coisa, e não porque a coisa em si seja ruim, mas porque descobri, empiricamente, onde fica o meu ponto de saturação e passei a respeitá-lo antes que ele me imponha respeito à força.

As duas perguntas servem para qualquer aspecto da vida. No casamento: você está alimentando cumplicidade ou discórdia? E: a dose de trabalho que você trouxe para casa esta semana ainda cabe na rotina do casal ou já transpôs o limite do suportável e passou a definir a relação de vocês? Na saúde: você está alimentando desculpas ou autocuidado? E: a quantidade de exercícios físicos que você se impõe serve para manter o corpo em forma, ou já chegou ao ponto de o corpo pedir socorro? Vá para onde quiser: na amizade, no dinheiro, na ambição, na fé, as perguntas seguem na mesma linha, investigando se há equilíbrio entre o que você permite entrar em sua vida e o que suporta antes de se tornar algo ou alguém que não quer.

Em nome da sua saúde física e mental, adote um hábito simples. Todo domingo à noite, sente-se por quinze minutos e responda a duas perguntas com honestidade. A primeira: “O que venho alimentando que está me levando numa direção que eu não escolheria de forma consciente?” A segunda: “Onde, mesmo em coisas boas, venho aceitando doses que estão além do meu ponto de saturação?” 

Se você fizer essas perguntas semanalmente por três meses, acredite: sua vida mudará mais do que mudaria depois de você fazer qualquer curso sobre produtividade disponível no mercado.

“A grandeza da alma consiste menos em elevar-se e avançar do que em saber ordenar-se e conter-se em sua justa medida.”

Michel de Montaigne (1533-1592), filósofo francês, em Ensaios, Livro III, capítulo “Da experiência”.

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. São Paulo: Editora Vida, 2011. Provérbios, capítulo 26, versículo 20; capítulo 30, versículos 8 e 9.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Livro III.

SELYE, Hans. The stress of life. New York: McGraw-Hill, 1956.

SELYE, Hans. Stress without distress. Philadelphia: J. B. Lippincott, 1974.

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