Da bicicleta ao distintivo

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Para algumas pessoas, as coisas acontecem cedo demais, e não no sentido bonito da expressão, como quando se diz que alguém descobriu a vocação muito jovem, mas no sentido de ter fases roubadas, etapas que deveriam ser vividas com calma. 

Foi assim com Vítor. No caso dele, foi o trabalho que chegou cedo demais… cedo na vida e cedo no relógio. Com apenas 8 anos, e enquanto os outros meninos ainda dormiam, ele já cruzava as ruas frias da cidade de bicicleta, vendendo pão de porta em porta. O dia começava antes do nascer do sol e, na maioria das vezes, só terminava quando o corpo já não aguentava mais. 

Naquela época, seus sonhos não eram grandes. Nem poderiam ser. Crianças que crescem trabalhando aprendem a reduzir expectativas. Por isso, o maior objetivo daquele menino não era ser policial, advogado ou delegado. Era ser engraxate. Ele observava nas calçadas os garotos com uma pequena caixa de madeira, lustrando sapatos e ficando com todo o dinheiro que ganhavam, e aquilo lhe parecia um ótimo negócio. Afinal, a sua rotina exigia um esforço muito maior para um retorno bem menor.

Havia, ainda, outros demônios contra os quais Vítor lutava. Durante anos, ele conviveu com uma inquietação constante que não sabia explicar. Em várias ocasiões se viu paralisado por medos sem causa aparente. Além disso, a mente vivia acelerada, a ponto de fazê-lo perder o foco até nas tarefas mais simples. Parece piada, mas certa vez perdeu o ônibus porque simplesmente se esqueceu de fazer sinal ao motorista. Só mais tarde viria o diagnóstico que explicava tudo: TDAH em grau elevado, acompanhado de ansiedade persistente. Ao menos, a origem de tantas distrações e receios ganhou um nome…

Com o tempo surgiu outra descoberta importante. A mesma mente agitada que o atrapalhava em alguns aspectos também possuía uma rara capacidade de concentração quando algo realmente chamava sua atenção. Quando ele decidia aprender algo, mergulhava no assunto até se dar por satisfeito. Essa quase obsessão pelo conhecimento encontrou espaço na escola técnica, onde Vítor se encantou com eletricidade, circuitos e equipamentos.

Seu horizonte se ampliou. Ao ver colegas aprovados em concursos públicos, principalmente para as Polícias Militar e Civil, um pensamento simples se instalou: se eles conseguiram, talvez eu também consiga.

Foi então que ele virou a chave. Comprou uma apostila daquelas vendidas em banca de revista e começou a estudar como dava. Lia no caminho até a rodoviária, dentro do ônibus, enquanto aguardava entre um atendimento e outro nos bancos onde prestava serviços como eletricista. A espera, que antes irritava, virou aliada. Quando um gerente anunciava que demoraria algumas horas para recebê-lo, ele simplesmente se sentava e estudava. De repente, eram horas de estudo com as quais ele não havia contado.

Selfie de um homem trabalhando e uma caixa elétrica ao fundo.

Nos tempos de eletricista. Vítor aproveitava qualquer intervalo para estudar.

Foi dessa forma que ele conquistou uma vaga na Polícia Civil do Tocantins. Não ficou entre os primeiros colocados, mas passou, e naquele momento isso bastava. Durante mais de uma década, participou de operações de risco, atuou em investigações complexas e cumpriu longas jornadas, chegando a integrar o grupo de operações especiais.

Dois homens fardados e equipados em serviço militar.

Como policial civil no Tocantins.

Como se vê, tudo caminhava bem. Vítor, porém, já nutria outro sonho: tornar-se delegado. Para isso, precisava do curso de Direito. Em 2008, ingressou em universidade federal depois de estudar com livros antigos do ensino médio guardados na casa da mãe. A formatura, no entanto, só viria dez anos depois. A rotina de plantões na polícia, trabalhos extras para complementar a renda, uma filha pequena para criar e sucessivas greves universitárias atrasaram bastante esse processo.

Quando, enfim, se formou, prestou o primeiro concurso para delegado. O resultado foi devastador. Vítor ficou longe da aprovação, longe o bastante para cogitar desistir. E ele quase desistiu mesmo, até lembrar que tinha levado dez anos para terminar a faculdade e que não fazia sentido abandonar tudo assim.

A razão veio em boa hora. Ele foi atrás de aprender técnicas de estudo e métodos de organização e disciplina. Passou a se dedicar com afinco usando a plataforma Gran, explorando todos os recursos que ela oferece: videoaulas, PDFs, questões, simulados, aplicativos. Viu na prática que esforço sem método rende apenas cansaço. 

Os resultados começaram a aparecer. No concurso do Pará, ficou a meio ponto da aprovação. Em 2022, fez mais duas provas. Em Roraima, teve desempenho suficiente, tanto nas questões objetivas quanto na discursiva, para acreditar que havia chegado sua vez. Então surgiu um obstáculo inesperado, a reprovação nos exames médicos por um erro material – que ele não hesita em chamar de absurdo. Entrou na Justiça e conseguiu uma liminar a seu favor, mas, àquela altura, isso já não fazia diferença. Estava aprovado em Goiás. 

Selfie de um homem com distintivo e colete escrito "delegado", ao fundo, um painel escrito "polícia civil".

Nem precisava de legenda. Sonho realizado. 

Hoje, o delegado Vítor trabalha MUITO, em uma cidade com cerca de 30 mil habitantes. Incontáveis casos passam por sua mesa, e a responsabilidade é enorme. Tudo isso o enche de orgulho, é claro; ainda assim, há algo em sua história que ele valoriza mais que tudo: o fato de os filhos terem acompanhado toda a sua jornada e se inspirado nela. A filha estuda medicina em uma universidade pública e o filho conquistou bolsa em um dos melhores colégios da região. Em nenhum momento Vítor precisou cobrar dedicação. Eles viram o esforço acontecendo diante dos próprios olhos… Muitas vezes, ver é a forma mais poderosa de aprender.

Por tudo isso, se lhe perguntam como se sente em relação à infância que, de certa forma, lhe foi tomada, Vítor responde que sempre existe alguém com uma trajetória mais dura que a sua. Acrescenta que comparar sofrimentos não leva ninguém a lugar algum.

Mas resistir leva.

Adaptar-se leva.

Persistir leva.

Às vezes a distância entre um garoto pedalando no escuro e um delegado assinando o primeiro inquérito cabe em uma única decisão, reafirmada dia após dia: seguir em frente.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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