O sonho que você ainda não sabe que tem

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Marco Aurélio, o imperador-filósofo, escreveu em suas Meditações: “Aceita de bom grado o que o destino te traz, pois o que acontece a cada um de nós é adaptado à nossa necessidade.” É uma frase dura de engolir quando se está no olho do furacão, mas profundamente verdadeira quando se olha para trás. A história que trago hoje ilustra bem isso. É a história de uma mulher que nunca havia sonhado com concurso público, até que a vida lhe tirou todas as alternativas e, ao fazê-lo, revelou a vocação que ela carregava sem saber.

Quando criança, Amanda Palácio queria ser detetive do FBI. Não tinha a menor ideia do que o cargo exigia, é claro, mas os filmes de Sandra Bullock, dos quais era fã, pintavam aquele mundo com tintas irresistíveis. Era um sonho de cinema, nascido mais do fascínio do que de qualquer contato com a realidade. Com o tempo, ele se dissolveu como se dissolve tudo que não encontra lastro na realidade.

Amanda estudou Direito, mas se formou sem nenhum plano de atuar na área. O que ela queria mesmo era trabalhar logo, ganhar o próprio dinheiro e sentir o dinamismo que só imaginava existir na iniciativa privada. Passou por comércio, RH, marketing, vendas, sempre no ritmo acelerado de quem precisa do mundo ao redor para se sentir produtiva. Concurso público, para ela, era sinônimo de clausura, de ficar meses trancada com livros, longe de tudo e de todos. E havia um fator mais forte que qualquer argumento racional: a família. Na cabeça de Amanda, ser aprovada significava ter de deixar o Ceará. E isso ela simplesmente não aceitava.

Esse medo foi maior que qualquer curiosidade pela carreira pública. Tanto assim, que bastou colar o grau de bacharel para Amanda dar como encerrado o capítulo do Direito em sua vida. Decidiu seguir adiante, sem preocupação com editais, videoaulas ou horas de estudo anotadas numa planilha. Simplesmente virou as costas para um caminho que, sem ela desconfiar, já a esperava.

Então veio a pandemia, e a empresa onde ela trabalhava fechou as portas. O mercado simplesmente travou, e eis que aquilo que ela sempre enxergou como prisão começou, aos poucos, a parecer refúgio. Tentou a advocacia, mas não encontrou sentido na prática forense. Percebeu, com uma clareza que só a necessidade proporciona, que, se fosse recomeçar, seria melhor escolher um caminho em que ser bem-sucedida dependesse mais dela mesma do que de qualquer conjuntura.

Todo concurseiro conhece essa encruzilhada. Há quem chegue ao mundo dos concursos por vocação precoce, como Lucas Abreu Maciel, cuja história já contei aqui, o menino de seis anos que dizia querer ser juiz ou promotor. Mas há também quem chegue pelo susto, pela necessidade, pelo desmoronamento do plano original. E sabe o que aprendi ao longo desses anos acompanhando milhares de trajetórias? Os dois grupos vencem na mesma proporção, desde que façam o que tem de ser feito. O ponto de partida importa menos que a direção escolhida.

As carreiras policiais surgiram na vida de Amanda por afinidade legítima. Havia o gosto pelo direito penal, a experiência do estágio em delegacia, a objetividade das provas. Somava-se a isso uma esperança concreta: a qualquer hora o Ceará poderia abrir concurso para a Polícia Civil, e Amanda, se aprovada, poderia ficar em casa. Por fim, houve uma conversa simples com a mãe que selou tudo: “Isso combina com você.” Às vezes, quem nos conhece de verdade enxerga antes de nós mesmos o que estamos destinados a fazer… 

No fim daquele ano, ela iniciou a preparação. Sem plano B. A mesma mulher que jamais pensara em ser concurseira agora precisava se tornar uma.

Em dez meses, fez sua primeira prova para delegada e passou. Depois, veio a aprovação no Ceará para o cargo de inspetor, que mais tarde virou oficial investigador de polícia. Era o começo de uma transformação que ela não havia planejado e que, por isso mesmo, tinha um sabor diferente, o sabor das coisas que nos encontram quando paramos de fugir delas.

Selfie de uma mulher com fones de ouvido reclinada sobre uma poltrona de ônibus.

No ônibus a caminho da prova no Rio Grande do Norte. Amanda ouvia louvores nos fones, cheia de medos e inseguranças. Ainda muito nova no mundo dos concursos, a pergunta era inevitável: “E se eu nunca conseguir?”

A partir dali, Amanda usou cada prova como laboratório. Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas: passou em todos. E, a cada resultado, construía dentro de si uma certeza silenciosa: quando saísse o edital do Ceará para delegada, ela estaria pronta.

Antes disso, porém, a jornada lhe cobrou a decisão mais difícil.

Aprovada em Alagoas, chegou a concluir o curso de formação. Tudo indicava que assumiria. Só que, no mesmo período, saiu o edital do Ceará, e ela entendeu, com a lucidez de quem já conhecia o preço da dispersão, que tomar posse em Alagoas significaria não dar o máximo na prova da sua vida.

Mulher sorridente tirando foto com uma bandeira escrito "Aprovados" e um brasão escrito "Delegado".

Aprovada para delegada da PC-AL, Amanda desistiu de tomar posse para apostar no concurso do Ceará. Trocar o certo pelo incerto é loucura? Ou é fé com método?

Escolheu o risco. Abriu mão de Alagoas. Depois, de Pernambuco. Apostou tudo no Ceará. Lembra-se da Camila, a “Barbie das Profissões”, cujo relato também já contei aqui? Ela almejava o cargo de delegada, mas entendeu que entrar “por baixo” era tática, não sinal de derrota. Amanda fez o inverso: já tinha o cargo inferior garantido e desistiu dele para mirar o topo. São caminhos opostos sustentados pela mesma coragem: a de não se acomodar.

Na reta final, Amanda intensificou a preparação, com resolução de questões em escala, sucessivas revisões e estudo do perfil da banca para afinar a tática de prova… Nada de folga. Apenas ação, dia após dia, com a plataforma do Gran como aliada – aquela que, cabe um parêntese, um dia a receberia como professora. Mas já já falamos sobre isso…

O resultado veio: sexto lugar geral para Delegada de Polícia Civil do Ceará. Em casa. No estado que ela nunca quis deixar. Foi o perfeito encontro entre vocação e pertencimento.

É esse o ponto que merece especial reflexão nesta história. Amanda resistia à opção do concurso público justamente porque não queria sair do Ceará. No fim, foi aprovada em vários estados, mas ficou onde sempre quis ficar. Não precisou abandonar suas raízes.

Hoje, além de delegada, Amanda é professora do Gran. Aliás, vale dizer, há algo bonito quando a roda gira assim. Nós sentimos um orgulho imenso quando o aluno se torna colega. Neste caso, a aluna virou voz. Ela sabe o que é estudar cansada, duvidar de si mesma, recomeçar do zero, trocar o certo pelo duvidoso. Ensina não de cima para baixo, mas de igual para igual, como quem dividiu a trincheira.

Mulher sorridente ao lado de um homem com a logotipo do Gran ao fundo.

Ontem, Amanda assistia às aulas dos professores do Gran. Hoje, tornou-se colega deles. Já imaginou isso para você?

Talvez a história de Amanda seja tão poderosa porque envolve não só uma aprovação, mas também a construção de um sonho que não veio pronto, que não estava previsto no roteiro original. Amanda queria o FBI dos filmes. A vida não deu. Deu algo melhor, mais real, mais próximo, mais profundo: um caminho que ela mesma pavimentou com medo, necessidade, disciplina e insistência.

Sabe aquele sonho que você ainda não sabe que tem? Pois é. Ele pode estar escondido no lugar que você menos espera, talvez atrás de uma porta que acabou de se fechar, talvez dentro de um edital que você nunca planejou abrir. O que Amanda nos ensina é que nem sempre escolhemos o sonho. Às vezes, é ele que nos escolhe. A nossa parte é estar prontos quando ele chegar.

Fico com Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Amanda atravessou. E o sonho, aquele que ela nem sabia ter, estava esperando do outro lado.

Continue firme no seu projeto de mudança de vida. Sempre em frente.

Mulher vestida com roupa social usando um distintivo.

Estude que a vida muda.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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