Há quem atravesse fronteiras com malas. Há quem atravesse com coragem. E há quem atravesse com estudo.
Pedro Sosa atravessou com tudo isso. Acima de tudo, atravessou com uma disposição rara: recomeçar numa fase da vida em que poucos ainda se permitem tal aventura.
Nascido em Cuba, em 1964, cresceu sob severa disciplina, reflexo daqueles tempos duros. Filho de uma dona de casa e de um soldador de usina de açúcar, viveu num ambiente em que estudar não era escolha; era obrigação. Leu cedo, e leu muito. O primeiro livro, Dom Quixote, ele achou no lixo e levou para casa como quem recolhe, sem saber, um futuro inteiro. Aos sete anos, já entendia que a leitura servia mais que como passatempo, servia para construir caminhos.
Formou-se engenheiro automotivo. Construiu uma carreira sólida, passando por cargos de supervisão, coordenação e direção. O sistema, porém, era injusto; e a remuneração, desproporcional à responsabilidade. A verdadeira ascensão — financeira e social — parecia sempre fora de alcance.
Então, algo atravessou o caminho e mudou tudo. Pedro conheceu uma brasileira, apaixonou-se por ela e, aos poucos, também pelo país de onde ela vinha. Não demorou para perceber que não poderia trazer o Brasil para Cuba. Para viver essa escolha, teria de fazer o caminho inverso.

O casamento que mudou tudo, exigindo que Pedro se reinventasse em outro país, e em outro idioma.
Foi nesse contexto que Pedro veio para cá.
Recomeçar, no entanto, raramente envolve glamour. Mas envolve — e pressupõe — força de vontade.
Aqui, Pedro descascou milho em mercado atacadista. Foi garçom, supervisor, motorista de aplicativo, corretor de imóveis. Trabalhou onde havia trabalho, sem romantizar nada nem transformar o peso em queixa. Decidiu gostar do que fazia, consciente de que odiar o caminho só tornaria a travessia mais arrastada.

Pedro já fez de tudo um pouco desde que chegou ao Brasil.
Neste registro, ele ganhava a vida como motorista de aplicativo.
Ainda assim, algo incomodava. Não era a falta de dinheiro; era a sensação de não estar sendo verdadeiramente útil.
Com mais de cinquenta anos, sotaque carregado e um currículo que ninguém compreendia por aqui, começou a ver portas se fechando. A ignorância e o preconceito com que se deparou lhe revelaram uma verdade difícil de engolir: experiência não abre caminhos quando ninguém sabe quem você é.
A esposa insistiu: “Faça um concurso”. Ele resistiu. Tinha alma empreendedora, gostava de liberdade, de liderar equipes. Contudo, quando a realidade aperta, ignorá-la não resolve.
Saiu o edital do Banco do Brasil. Trabalhar em banco nunca estivera em seus planos. Ele jamais havia sequer cogitado essa possibilidade. Todavia, era o concurso disponível. Muitas vezes, a vida não pergunta o que você quer; pergunta o que você vai fazer com o que tem diante de si.
Pedro deu uma olhada no conteúdo da prova e se assustou. Havia gramática, interpretação de textos… Tudo em língua portuguesa, que nem mesmo era seu idioma materno! E mais: matemática financeira, legislação… Parecia praticamente impossível para alguém que se aproximava dos sessenta anos e ainda carregava a ideia de que aprender tem prazo de validade.
Ele quase desistiu.
Quase.
Lúcido, comprou o curso do Gran. Sabia que o improviso não bastaria e que disciplina sem método só o levaria à exaustão. Então, fez o que sempre soube fazer: manteve constância. Estudou quatro horas por dia, todos os dias, inclusive aos domingos. Seguiu o cronograma, matéria por matéria, do início ao fim. Aprendeu português como quem reorganiza a própria mente. Descobriu, na prática, que a idade não impede o aprendizado; apenas exige mais método e menos orgulho.
No dia da prova, estava nervoso, porém inteiro. Inteiro porque tinha feito tudo que podia.
Ao sair, disse à esposa: “Não sei se fui o primeiro ou o último, mas estou em paz”.
Foi o primeiro.
Primeiro lugar na região. Aos 58 anos. Estrangeiro. Prova toda feita num idioma que não era o seu. Em um dos concursos mais disputados do Brasil.
Hoje, está satisfeito como funcionário do Banco, onde já foi até promovido! Lá atende aposentados, gente simples, pessoas que esperam na fila com a mesma ansiedade com que ele um dia esperou por oportunidades. E vive algo novo: a sensação de ser útil. Não apenas empregado. Útil.
Houve uma senhora que pediu que ele não fosse embora da agência. Outra se ofereceu, simbolicamente, para “dar um jeito” caso ele precisasse de ajuda para ficar. Esse reconhecimento é fonte de enorme satisfação. É dignidade concreta, circulando, discretamente, de pessoa para pessoa.

Orgulhoso, com o crachá que mudou sua vida e seu senso de propósito.
A vida mudou, sim, considerando a segurança que o cargo proporciona. Mas mudou ainda mais porque Pedro encontrou pertencimento.
Ele não precisou vencer o tempo, o idioma ou o sistema. Aprendeu a lidar com cada um deles, com paciência e método. No fim, superou todas as expectativas. Inclusive — e especialmente — a sua.
Por isso, esta história não gira em torno de um concurso ou de um banco. Ela convida a repensar a ideia de que já é tarde demais.
Se um homem estrangeiro, perto dos sessenta, conseguiu aprender do zero até mesmo uma língua nova e, no fim, conquistou um primeiro lugar, talvez a pergunta certa não seja “como ele conseguiu”, mas “o que ainda faz você acreditar que não pode”.
Para Pedro, não foi questão de talento nem de sorte. Foi simplesmente disciplina com direção e, sobretudo, a decisão de continuar.
O mundo pode até aplaudir quem começa cedo, mas costuma premiar quem não desiste.

Com os colegas da Agência do Prata, em Minas Gerais, onde está lotado.
Gabriel Granjeiro – CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de quatro livros best-seller na Amazon Kindle.
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