Arnaldo nasceu no caos, e não é força de expressão. Àquela altura, em 1968, a enchente que atingiu Recife/PE dois anos antes tinha levado a casa recém-montada dos pais, os móveis, os presentes de casamento, os documentos… Na sequência, o pai, que tinha tentado refazer a vida pelo caminho da honra, entrando para o Exército, foi expulso da corporação ao se recusar a cumprir uma ordem que ia contra seus princípios. Mandaram torturar um estudante, e ele disse “não”. Um “não” que custou caro.
Nos anos seguintes, a família pingou em nada menos que 19 casas em quatro cidades diferentes. Mal se instalava em uma, o dinheiro acabava e era preciso se mudar de novo. Foi uma infância sem raiz, a de Arnaldo, que cresceu moleque de rua, apaixonado por bola e bicicleta e sem interesse pelos estudos. Trocava fácil a escola pela observação da natureza. Era fascinado especialmente por cigarras e seu processo de metamorfose. Para ele, a escola servia apenas como um intervalo incômodo entre uma brincadeira e outra.
Como se pode imaginar, ele jamais foi o aluno exemplar. Passava de ano raspando. E parecia que a vida já tinha escolhido seu papel. Mas, aos oito anos, algo saiu do roteiro e quase mudou tudo. Uma redação sobre a Bandeira lhe rendeu uma medalha. Ele tremia de emoção na cerimônia cívica. Pela primeira vez, sentiu que podia. E correu para casa, orgulhoso, mostrar a condecoração. Pena que o desfecho não foi bom. O irmão, estudioso, achou aquilo injusto e chorou. O pai, concordando, arrancou-lhe a medalha do pescoço e a entregou ao outro filho. À força. Como castigo. Arnaldo se convenceu de que estudar não era para ele.
A vida seguiu em zigue-zague. Tentou Engenharia sem sequer ter vontade de ser engenheiro. Também tentou Administração. Fez vestibular para Computação, mas não passou. Arriscou Pedagogia por desespero e acabou abandonando o curso. Casou-se e foi trabalhar com suporte técnico, ganhando pouco e sonhando baixo. Tornou-se um homem que começava um monte, mas não terminava nada.
Até que, aos 41, decidiu recomeçar de verdade. Escolheu Ciência da Computação e mudou de cidade, sem dinheiro nenhum, nem para comer. Tinha direito a dois almoços no restaurante universitário, às terças e quintas, e passava o resto da semana à base de paçoca. Uma por dia, que ele dividia em quatro partes: um quarto no café da manhã, dois no almoço, o último no jantar. A energia para estudar ele diz que vinha de algum lugar difícil de explicar. Os banhos, em regra, eram só com água mesmo. Certa vez, depois de dois dias sem sabonete, ficou feliz ao encontrar um pedaço fino caído num canto do box do chuveiro…
As dificuldades não paravam por aí. Arnaldo teve de alternar entre os estudos e o trabalho, ora trancando a faculdade para trabalhar e poder sustentar os filhos, ora retomando os estudos. Fez isso inúmeras vezes até se formar, em 2014. Ninguém da família foi à colação. Não houve foto; não houve abraço. O recém-graduado ficou lá, com o diploma e o silêncio. Chorou, mas seguiu.
Em 2018 veio para Brasília, onde enfrentou outro revés: o divórcio. Sem casa para morar e com apenas quinhentos reais no bolso, arranjou um emprego como terceirizado no Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Até receber o primeiro salário, ficou sem vale-refeição. Fez a matemática da fome e decidiu que comer era prioridade. Morar virou “onde der”. E “onde dava” era a rodoviária ou o aeroporto. Escolheu o segundo por achar mais seguro. Foram três semanas ali. Dormia sentado naquelas cadeiras de cor verde, cujos braços de metal impedem que alguém se deite. E tomava banho no subsolo do TRF, no banheiro destinado aos funcionários.
Então, algo fez virar a chave.
Na casa dos cinquenta, Arnaldo se cansou da insegurança do mercado e da sensação de ser descartável. Abandonou projetos paralelos e decidiu focar em um único objetivo: passar num concurso público. Estava em busca de estabilidade e de um pouco de paz. Deu a si mesmo dois anos de prazo. Se não desse certo, brincou, venderia coco na praia.
Não demorou para entender que, sozinho, levaria bem mais tempo que o esperado – e tempo era o que ele menos tinha. Foi aí que o Gran entrou na jogada, oferecendo estrutura e método. Aqui, ele tinha cronograma, interseção de editais, questões, simulados, dashboard, painel de evolução… Para quem está remodelando a mente depois de décadas de instabilidade, isso é alicerce.
Estudava das seis da tarde à uma da madrugada, todos os dias úteis. Saía do trabalho, caminhava para ver o sol um pouco e voltava para estudar. As sextas-feiras eram dos filhos; os sábados e domingos, da esposa, a menos que ele precisasse ficar em dia com alguma matéria. Foi um ano desse jeito. Um ano de “hoje não estou a fim, mas vou assim mesmo”.
E, então, veio a vitória: primeiro lugar no cargo de Tecnologista Desenvolvedor da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Não foi uma vitória simples. Depois da objetiva, ele precisou manter o primeiro lugar na prova oral, que cobraria um tema bem específico da área nuclear, conteúdo que não se encontra em qualquer apostila… Ele buscou artigos, pesquisou em sites da própria CNEN, consultou material internacional. Estudou como quem aprende um idioma novo e conseguiu manter a dianteira. E olhe que os concorrentes eram técnicos da própria casa, gente com anos de Comissão…
E teve, ainda, a etapa mais decisiva em muitos concursos, a fase de títulos. Arnaldo foi atrás de empresa falida, de RH que não respondia, de documento que precisava de assinatura formal. Conseguiu cinco dos seis pontos possíveis. O último dependia da pós-graduação. Lembrou-se de um professor dizendo que duas pós equivalem a um mestrado na pontuação e se agarrou a isso. Obteve o certificado a tempo de garantir o empate e, assim, manter a vantagem mínima construída na prova: 1,42 ponto. O tipo de vantagem que não é sorte, e sim fruto de muita persistência.
Depois da aprovação, a pressão caiu. Inclusive a arterial. Aparentemente, a ansiedade dos tempos de terceirizado tinha desencadeado uma doença silenciosa que a estabilidade curou. Até o sono melhorou!

Hoje, Arnaldo tem 57 anos e acabou de tomar posse no cargo. Diz, sem nenhuma reserva, que ainda se sente criança. A vontade de correr continua lá, só que agora mora dentro da cabeça de um homem que aprendeu a terminar o que começa.

A história de Arnaldo não é sobre dar certo de primeira. É sobre insistir mesmo quando desautorizado. Ele atravessou episódios de absoluta privação antes de refazer a vida como homem bem-sucedido profissional e pessoalmente. Da frustração de ter a medalha arrancada do pescoço na infância à solidão do diploma recebido sem plateia, cada etapa moldou o que viria depois.
Ao alcançar o primeiro lugar no concurso, ele não recuperou o que a vida o fez perder no caminho, mas ressignificou cada gesto e cada acontecimento.
Desta vez, nem ele nem ninguém poderia pôr em dúvida sua conquista.

Quem sabe um dia eu tenha o privilégio de tirar uma foto como esta com você…
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