Elias Santana

Casos especiais de crase (parte 4)

Casos especiais de crase (parte 4)Chegamos à quarta e última semana dedicada a casos especiais de emprego do acento grave. Ao longo dos últimos dias, você provavelmente fez várias reflexões acerca da forma como você entende a crase!

Neste artigo, quero falar acerca de um entendimento praticamente pacificado entre os que dominam esse conhecimento gramatical: não se usa crase entre palavras repetidas.

Essa afirmação tem a sua validade! Existem locuções formadas por repetição de palavras que, de fato, não admitem o emprego do acento. Veja comigo:

(1) Dia a dia, aprendo mais sobre o nosso vernáculo.

(2) Pouco a pouco, a esperança chegava ao coração daquele povo.

(3) Eles enfim estavam frente a frente.

(4) Pé a pé, a criança andava pela casa.

Não sei se você percebeu, mas essas locuções são indissolúveis, ou seja, é impossível separá-las, mesmo com a mudança da ordem direta. Faça os seguintes testes: primeiramente, pegue cada uma das expressões sublinhadas e coloque-as no início ou no final de cada período; em seguida, tente deslocar somente parte da locução. Apenas a primeira experiência será bem-sucedida.

Agora, veja comigo os seguintes exemplos:

(5) É preciso dar vida à vida.

(6) Eu quero ter disposição à disposição.

Se você for se basear em opiniões reducionistas (popularmente conhecidas como “macetes”), provavelmente dirá que o emprego do acento grave, nas duas ocorrências, é inadequado; as orações 5 e 6, todavia, estão gramaticalmente corretas! E sabe por quê? Dessa vez, não se trata de locuções indissolúveis, mas sim de trechos sintaticamente independentes entre si!

Em 5, o verbo “dar” é transitivo direto e indireto. O OD é “vida”; o indireto, “à vida”! É até possível deslocar um dos complementos (à vida, é preciso dar vida). É uma construção semelhante a é preciso dar cor à vida; dar emoção à vida; dar vivacidade à vida.

Em 6, situação semelhante ocorre! O verbo “ter” é transitivo direto. O OD é “disposição”. “À disposição” é um adjunto adverbial que indica o modo como se quer ter a disposição. O deslocamento é novamente permitido (à disposição, eu quero ter disposição). É como dizer eu quero ter vitalidade à disposição ou eu quero ter disposição disponível.

A cada dia, certifico-me mais de que a nossa prática linguística cotidiana é um grande laboratório, e que nós somos os cientistas responsáveis por usá-lo. A língua e suas interações devem ser experimentadas, e não meramente prescritas. Dominar adequadamente uma língua está longe de ser apenas a memorização de um conjunto de regras ou de etimologias baseadas em línguas mortas; ter o entendimento pleno de um idioma significa admitir que este é um organismo vivo e apto a sofrer alterações. O verdadeiro linguista não teme as mudanças vernaculares, e sim as deseja – até porque toda língua evolui (e não o contrário), em conformidade com as necessidades dos usuários de uma língua. Pense nisso!


Elias Santana

Licenciado em Letras – Língua Portuguesa e Respectiva Literatura – pela Universidade de Brasília. Possui mestrado pela mesma instituição, na área de concentração “Gramática – Teoria e Análise”, com enfoque em ensino de gramática. Foi servidor da Secretaria de Educação do DF, além de professor em vários colégios e cursos preparatórios. Ministra aulas de gramática, redação discursiva e interpretação de textos. Ademais, é escritor, com uma obra literária já publicada. Por essa razão, recebeu Moção de Louvor da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

 


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