Nem toda história começa com discursos eloquentes, grandes projetos ou metas traçadas a régua e compasso. Algumas nascem de gestos miúdos, quase invisíveis. No caso de Carla, tudo começou com o som da máquina de costura da mãe, aquele tac-tac madrugada adentro enquanto o resto da casa dormia. Um som repetido, insistente, mas que só ouve quem presta atenção.
Antes dos diplomas, dos concursos e das nomeações que viriam com o tempo, o que movia Carla era a lembrança daquela mulher que criou três filhos sozinha, costurando em silêncio, ponto por ponto, noite após noite. Foi essa mesma mulher quem alfabetizou a filha em casa, não por vaidade, mas por urgência, ciente de que, sem estudo, o caminho da menina seria ainda mais estreito.
Carla entendeu isso cedo, sem que ninguém precisasse explicar. Aprendeu que dignidade exige esforço e que o trabalho, quando é honesto, também ensina.
A infância foi simples. Faltaram coisas, mas não faltou cuidado. O pai esteve ausente, e isso deixou marcas, como era de se esperar. Mas o afeto da mãe compensava, e o avô ajudava como podia. A estrutura familiar era frágil, sim, mas havia algo que a mantinha de pé: a certeza de que era preciso seguir.
Desde pequena, Carla gostava de ler. Estudou à custa de muita insistência, buscando ajuda, negociando bolsas nas escolas. Aos 16 anos, deixou o interior de Goiás e foi para Goiânia, onde ingressou em uma universidade federal. A escolha pelo jornalismo veio cedo, feita por quem já sabia que ficar parada não era uma opção.
Formada, mergulhou na rotina exaustiva das redações. Plantões longos, prazos curtos, pressão constante. Por mais de vinte anos, trabalhou em emissoras e jornais, inclusive no maior do estado. Escrevia sobre a vida dos outros enquanto tentava sustentar a própria. Jornalismo, como se sabe, não oferece estabilidade. Oferece urgência, adrenalina e, muitas vezes, incerteza.


Dois momentos da carreira: entrevistando Betinho, em Goiânia, sobre a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, em 1994; e colaborando involuntariamente para um reencontro. O rapaz de bermuda da segunda foto é surdo e havia saído de casa, mas não soube voltar. Ao ver uma reportagem de Carla no jornal O Popular, reconheceu o abrigo em Trindade/GO e pôde, enfim, retornar.
Durante duas décadas, Carla nunca teve dificuldade para se manter empregada. Era respeitada no meio, requisitada pelos veículos. Mas isso não significava tranquilidade. Significava apenas estar sempre pronta para o próximo impacto.
E ele veio. Frio, seco, inesperado. Carla foi dispensada depois de cumprir tudo o que lhe pediram. Viajou, entregou, fez o que se esperava. Ainda assim, foi desligada. Simples assim.
Foi nesse momento que algo se moveu dentro dela.
Sem fazer alarde, decidiu mudar. Não queria mais viver à mercê de instabilidades. Não queria mais acordar sem saber se o chão ainda estaria ali. Não queria depender da vontade alheia para ter paz. Resolveu estudar para concursos públicos. Mesmo com dois outros empregos. Mesmo cuidando da casa. Mesmo exausta.
As condições estavam longe do ideal. Tinha apenas brechas no dia para estudar? Que fosse. O único tempo para resolver questões era dentro do Uber? Servia. Precisava acordar antes das cinco da manhã para cumprir o mínimo do cronograma? Melhor que nada.
E, como se não bastasse, ainda teve de lidar com olhares enviesados, comentários velados, ironias. Havia quem achasse que aquele caminho não era mais para ela. Que mulheres acima dos cinquenta, cansadas e cheias de responsabilidades, não tinham “perfil de aprovado”.
Carla nunca aceitou essa ideia.
Logo entendeu que concurso não é uma corrida contra os outros, mas um embate com o próprio cansaço e limitações, com a vontade de parar. A disputa é interna.

Carla foi aluna assídua da plataforma Gran.
Pensou em desistir? Muitas vezes. Mas seguir em frente doía menos do que se conformar com o fim abrupto de um ciclo, e parecia mais justo do que permitir que aquela dispensa ditasse o resto da sua história.
E então veio a aprovação. E, depois, a nomeação. Aos 56 anos. No primeiro Concurso Nacional Unificado.

Enfim, a nomeação!
Não foi sorte. Foi fruto do esforço.
Em breve, Carla começa uma nova etapa no serviço público. Leva consigo a consciência da responsabilidade e o desejo de retribuir com trabalho sério cada centavo do dinheiro público que cair em sua conta. Não chega apenas com diplomas, títulos e vasta experiência. Chega com uma história inteira sustentada pela persistência.
Seu caminho não teve atalhos. Carla não recorreu a fórmulas prontas nem quebrou a cabeça para montar um plano de estudos perfeito. O que fez foi se apoiar em uma verdade que qualquer um de nós facilmente perceberia se parasse para observar um pouco a realidade ao seu redor: o tempo passa, e a diferença está em como escolhemos vivê-lo.
Talvez você esteja cansado. Talvez ache que sua hora já passou. Ainda assim, enquanto lê estas linhas, o tempo continua avançando.
O barulho da máquina de costura atravessando as madrugadas na infância de Carla era mais do que um simples som que ficou na memória. Era um aviso. Um chamado para seguir. Mesmo cansada. Mesmo sem garantias. Um lembrete de que continuar é, às vezes, o único caminho para se chegar a algum lugar.
Gabriel Granjeiro – CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de quatro livros best-seller na Amazon Kindle.
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