“Qual de vocês, se quiser construir uma torre, não senta primeiro para calcular o preço e verificar se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não puder terminá-la, todos os que a virem zombarão dele.” (Lucas 14:28-29)
Existe uma síndrome silenciosa que atinge boa parte dos adultos de hoje. Vou chamá-la de “síndrome do começador”. O sujeito acometido começa muito e conclui pouco: faz matrícula em quatro cursos online e mal termina um; compra três livros por mês e abandona todos pela metade; inscreve-se em três concursos por semestre e não estuda a sério para nenhum. Começa academia em janeiro, dieta em fevereiro e projeto pessoal em março, abandona os três em abril e chega a maio exausto e sem entender por quê.
Jesus, dois mil anos atrás, foi bastante assertivo em sua análise do fenômeno. Na parábola de Lucas, da qual extraí o trecho que abre esta nossa conversa, ele frisa que quem começa a edificar uma torre sem antes calcular o custo total da obra corre sério risco de virar motivo de piada, se não conseguir concluir o serviço. Note bem: a questão não é o fracasso técnico; é a vergonha pública de quem se comprometeu sem cálculo. Jesus está dizendo que começar sem condições reais de terminar revela falta de seriedade.
Hoje se sabe que esse comportamento é fruto de uma armadilha do cérebro. Em 1979, dois psicólogos, Daniel Kahneman e Amos Tversky, batizaram-no de “falácia do planejamento” (em inglês, “planning fallacy”) e o descreveram como a teimosia em subestimar o tempo, o custo e a dificuldade de terminar qualquer coisa mesmo depois de inúmeras experiências pessoais terem mostrado por A mais B o erro de agir assim. Não adianta: na hora de dar a largada, sempre acreditamos numa espécie de plano otimizado que a mente cria, um plano que normalmente ignora tudo o que pode dar errado no caminho.
Outro pesquisador, o professor Robert Boice, da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook, passou décadas tentando entender por que alguns acadêmicos, altamente produtivos, escrevem um artigo, depois mais um ou dois e ainda emendam um livro na sequência, enquanto outros, tão talentosos quanto, produzem bem menos ou quase nada. Depois de anos de observação, ele chegou a uma conclusão bastante contraintuitiva: os pesquisadores mais produtivos não ficavam aguardando a visita da musa inspiradora para, só então, começar a escrever um paper genial. Curiosamente, eram os acadêmicos mais metódicos, que redigiam um pouco todo santo dia, em horário fixo e sem maiores expectativas. Além disso, Boice notou que quem apostava no momento mágico quase nunca terminava o que havia começado, ao contrário de quem confiava no expediente regrado. Traduzindo para a nossa realidade, terminar depende muito menos do fôlego do começo e muito mais da disciplina do meio.
Tenho de admitir que conheço essa síndrome por dentro. Sou ansioso, do tipo que quer dar conta do mundo e tocar dez frentes ao mesmo tempo. Empreender, para quem é assim, é um exercício diário de autocontenção. Não aprendi isso nos livros, mas no chão de fábrica destes anos todos à frente do Gran. Descobri que talvez o ativo mais valioso de um negócio seja a coragem de dizer não, inclusive a boas ideias, daquelas que parecem promissoras, mas chegam na hora errada. Hoje não tenho dúvida de que parte do sucesso do Gran tem menos a ver com as apostas que fizemos e mais com a disciplina de recusar excessos e de levar até o fim cada empreitada antes de abrir a seguinte.
Também experimentei isso na vida pessoal. Como contei AQUI, quando o Gran nasceu, eu ainda cursava a faculdade em Nova York e fiz o que podia e o que não podia para adiantar os estudos, virando noites entre uma matéria e outra. Ao me formar – cercado de colegas de olho em Wall Street –, recusei a tentação de trabalhar em bancos de investimentos e ganhar muito bem para um jovem de 20 anos, e voltei de vez ao Brasil para me dedicar de corpo e alma à empresa, sem remuneração alguma, o que continuou por 2 anos. Dizer não àquelas oportunidades e ainda tolerar uma “piora” de vida temporária foi só a primeira de muitas vezes em que precisei segurar a mão para não me dispersar, ciente de que um projeto inacabado não é uma “entrega parcial”, como alguns querem fazer crer. É zero entrega, com a agravante de consumir energia que deveria estar alocada em algo concreto. Seria impossível seguir com o projeto e trabalhar em outro lugar ao mesmo tempo. Uma escolha precisava ser tomada e, obviamente, eu tinha o privilégio de ficar um tempo sem receber nada.
No caso do concurseiro, a síndrome do começador ataca em três eixos, e é bem provável que você se reconheça em no mínimo um deles. O primeiro é trocar de curso a cada três meses, convencido de que a culpa é sempre do professor, quando o que faltou foi constância para sustentar o esforço depois que a novidade esfriou. O segundo é saltar de edital em edital, às vezes até mudando de área, sem sequer ter fechado as matérias básicas do concurso anterior. O terceiro é abrir o simulado, parar na metade e jurar a si mesmo que termina amanhã – e amanhã, você já sabe, não chega nunca. Nos três casos, a cabeça oferece a ilusão de avanço (matrícula nova, edital novo, simulado iniciado) e poupa o custo do avanço real, que é chegar ao fim. É a falácia do planejamento de novo, agora em dose diária. E é, de longe, o motivo mais comum para gente capaz e dedicada nunca ver o nome na lista de aprovados.
Qual é a saída, então? Ela é menos glamourosa do que se pensa. Não é dedicar mais energia para começar algo; é ser teimoso o suficiente para terminar o que já estava começado. Na prática, é decidir que, antes de abrir a próxima frente, é preciso encerrar as que já estiverem em curso. É, em resumo, reduzir o número de coisas em andamento até um patamar honesto, fechando uma por uma. No fundo, é buscar uma sensação que anda rara: a de pôr ponto final em algo.
Por isso, amigo leitor, hoje, em vez de rascunhar mais uma lista de projetos para a semana, faça diferente: anote tudo que você abriu nos últimos meses e deixou pelo caminho. Curso, videoaula, PDF, edital, aquela decisão que você vem empurrando com a barriga…
Não saia tentando concluir tudo de uma vez. Apenas encare a lista inteira, em silêncio, e deixe que ela fale com você. Vai ficar claro que o seu cansaço tem menos a ver com o tanto que você trabalha ou estuda e mais com as torres que você ergueu pela metade e jamais teve coragem de assumir como inacabadas.
“Melhor é o fim de uma coisa do que o seu princípio.” (Eclesiastes 7:8)
Referências
BOICE, Robert. Professors as Writers: A Self-Help Guide to Productive Writing. Stillwater: New Forums Press, 1990.
BOICE, Robert. Advice for New Faculty Members: Nihil Nimus. Boston: Allyn and Bacon, 2000.
KAHNEMAN, Daniel; TVERSKY, Amos. Intuitive prediction: biases and corrective procedures. In: MAKRIDAKIS, S.; WHEELWRIGHT, S. C. (Org.). Studies in the Management Sciences: Forecasting. Amsterdam: North-Holland, 1979. v. 12, p. 313-327.
KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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