O gosto amargo do açúcar queimado

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Nem toda história começa com café. Algumas têm início com água quente e açúcar queimado, numa tentativa desesperada de enganar a fome e dar a uma criança forças para chegar à escola sem desmaiar no caminho.

Foi assim que a de Graciele começou.

No interior de Rondônia, num canto esquecido do mapa, ela cresceu em uma casa de madeira, com chão de terra batida e poeira entranhada nos cantos. A infância ali não deixava espaço para metáforas: a pobreza era concreta, diária e persistente. Em certos dias, o almoço se resumia a arroz, feijão e um único ovo dividido entre quatro pessoas. Em outros, nem o café aparecia à mesa. Sobreviver já era, por si só, uma vitória.

Mas havia alguém que se recusava a aceitar essa dura realidade como sentença.

Maria José, mãe de Graciele, nunca teve acesso à escola. Vinha de uma longa linhagem de pessoas sem estudo, sem escolha e sem voz. Ainda assim, compreendia, com a sabedoria que os livros não ensinam, que a educação era capaz de refazer caminhos. Por isso, enfrentou o medo, o marido, a cultura conservadora da roça e levou os filhos para a cidade, não em busca de conforto, mas de um futuro diferente.

Enquanto muitos repetiam que “filho de pobre não chega a lugar nenhum”, ela agia para tal previsão não se consumar com os dela. Não havia desculpa para faltar à aula. Chovesse, fizesse frio ou o rio transbordasse, as crianças iam. A pé. Caminhavam quilômetros, às vezes com a água no peito, carregando o irmão menor para que ele não fosse levado pela correnteza. O material escolar cabia em um caderno fino, usado para todas as matérias. A mochila era uma sacola de arroz. Lápis de cor, um luxo impensável.

Apesar das dificuldades, a infância também teve seus momentos de alegria. É que a casa onde Graciele cresceu dividia o lote com outras duas, onde moravam os primos. Como você deve imaginar, aquele quintal foi palco de muita brincadeira e ouviu muita risada de criança. Mas os irmãos e primos partilhavam mais do que um pedaço de chão; partilhavam também a certeza de que o estudo era a única saída possível de uma vida fadada à pobreza.

E isso bastava.

Foto antiga de um grupo de seis crianças sentadas e em pé em frente a um muro de blocos de concreto.

Graciele, alguns irmãos e primos reunidos no quintal de casa. Todos moravam juntos em um mesmo lote. 

A vida adulta não foi mais leve. Vieram os cursos escolhidos mais por necessidade do que por vocação. Fonoaudiologia, porque oferecia bolsa. Técnico em enfermagem, porque era preciso trabalhar logo. Direito, porque permitia sonhar mais. Tudo ao mesmo tempo. A rotina era pesada: plantões de doze horas seguidos das aulas na faculdade e, às vezes, de outro plantão na sequência. O sono era pouco. A comida também.

O corpo não aguentou. Os primeiros desmaios aconteceram, sucedidos pelo esgotamento físico.

Mas Graciele não parou.

Os concursos surgiram para ela quase por acaso. Um irmão da igreja apareceu com três apostilas doadas, já marcadas e gastas. Direito Penal, Constitucional e Administrativo. Graciele não compreendia tudo, mas decorava o que podia. Lia e relia aquelas folhas até o limite da exaustão.

O ano de 2009 trouxe a primeira aprovação, para o cargo de agente penitenciário. Graciele se tornava a primeira da família a ingressar no serviço público, e isso mudava tudo. Não porque resolvia a vida de imediato, mas porque provava que era possível romper com o ciclo da miséria. 

Desde então, ninguém naquela família voltou a enxergar o estudo como algo distante. Os irmãos seguiram o mesmo caminho. Todos estudaram. Todos avançaram. Algo que começara com uma apostila doada virou um movimento silencioso de transformação.

Na Força Aérea, Graciele começou a alçar voos ainda mais altos. Prestou outros concursos, alguns no intuito de mudar de área, outros para simplesmente manter o ritmo. No meio do caminho, uma experiência que ninguém quer no currículo: assédio moral, a sensação de ser esmagado por forças que não são vencidas com competência, mas com resistência emocional.

Uma militar fardada sentada na asa de um avião azul da Esquadrilha da Fumaça, dentro de um hangar.

No tempo da Aeronáutica…

O corpo resistiu até onde pôde. A mente, não.

Graciele entrou em depressão. Chorava sem parar. Em um dia particularmente difícil, passou horas deitada, sem forças, pedindo a Deus que tudo aquilo acabasse. Aquela dor não era sinal de fraqueza; era o cansaço acumulado de quem passou a vida inteira lutando. Quando se carrega tanto por tanto tempo, chega uma hora em que a alma pede trégua.

Foi então que o estudo virou refúgio. Graciele tirou licença do trabalho. Durante três meses ficou em casa, com o Gran Questões aberto, resolvendo questão por questão de uma banca específica, lendo comentário por comentário. Estudava para não chorar. Estudava para não pensar. Estudava para conseguir respirar.

Sem romantismo. Por necessidade.

Foi assim que ela enfrentou um dos concursos mais difíceis do estado, concorrendo com professores, com pessoas que admirava. No fundo, não acreditava que conseguiria, mas nem por isso parou.

Mulher usando máscara branca de proteção descansa a cabeça sobre o braço em uma mesa ao lado de um teclado.

Registro de um momento em que Graciele estava tão exausta que dormiu sentada.

O resultado saiu e trouxe o merecido alívio. Primeiro lugar no Tribunal de Justiça, e na sua área de formação! Quando Graciele recebeu a notícia, ainda tentava reaprender a respirar, depois de meses pesados demais. Mas ali havia luz. Ali havia saída. Ali estava a prova de que aquela dor não seria o fim da história.

A tão esperada aprovação na área de Fonoaudiologia.

Atualmente, Graciele olha ao redor e vê casas onde antes era apenas terra. Vê carros onde antes era estrada de chão para longos percursos a pé. Vê a mãe, que, mesmo com tudo contra, voltou a estudar e segue abrindo livros com a mesma teimosia de sempre.

Maria José foi e continua sendo a fundação invisível de tudo de bom que ocorreu com os filhos. Era ela quem queimava açúcar para enganar a fome deles e insistia na escola quando tudo dizia que não valia a pena.

Mulher de cabelos presos e camiseta preta com a inscrição "Fonoaudiologia" sentada à frente de um notebook em um escritório.

Fonoaudióloga concursada. Mais uma meta atingida!

Se você me acompanha há algum tempo, já deve ter notado que a história de Graciele não é exceção. É mais uma que mostra que o estudo não pode apagar o passado, mas pode redesenhar o futuro. Que a pobreza não determina o destino de ninguém. Que a dor pode servir tanto para paralisar como para impulsionar. E que desistir da própria vida jamais é uma opção, mesmo quando a carga parece excessiva.

Então, se você está desanimado ou acha que suas escolhas não fazem sentido, lembre-se: há quem tenha começado com apenas água e açúcar queimado e terminou realizando tudo que queria.

Não foi rápido. E certamente não foi fácil.

Mas foi possível.

E, enquanto você insistir, também pode ser.

Selfie de duas mulheres sorrindo em uma praça decorada para o Natal à noite.

Esta crônica é dedicada à Sra. Maria José, base de tudo na história de Graciele. Juntas, agora elas podem curtir momentos de lazer antes impensáveis. 


Gabriel Granjeiro – CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de quatro livros best-seller na Amazon Kindle.

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