A esperança perigosa

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“A esperança adiada adoece o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida.” Provérbios 13:12

São onze da noite de um domingo. Você abre o edital, lê duas linhas, sente aquele embrulho no estômago e fecha o arquivo. “Semana que vem eu começo pra valer”, promete a si mesmo, e a promessa traz um alívio morno, reconfortante. Repare bem nesse alívio, caro leitor, querida leitora, porque é ele o personagem principal da nossa conversa de hoje. 

Tenho uma tese que, para alguns, pode ser um tanto indigesta: existe uma esperança que cura e existe uma esperança que apenas anestesia, e o drama é que as duas se vestem exatamente igual, de tal forma que é difícil identificar uma e outra. A primeira faz você levantar da cadeira. A segunda faz você dormir tranquilo sem ter estudado. Quando a segunda toma o lugar da primeira, você não perde só suas chances de sucesso; perde a própria noção de que está perdendo algo e segue acreditando que continua no caminho.

Tudo começa numa frase aparentemente inocente, dessas que saem da boca de milhões de adultos diariamente: “Estou esperando o momento certo”. O momento certo para se casar, para se separar, para ter filhos. O momento certo para pedir aumento, para mudar de emprego, para enfim se inscrever no concurso. Acontece que, se você refletir honestamente sobre o que está por trás dessa espera toda, vai perceber algo incômodo: em nove de cada dez casos, não é a circunstância lá fora que você aguarda; é você mesmo virando alguém que não sinta mais medo. E, como essa versão de você nunca chega por conta própria, a espera não termina jamais. Seja honesto e me responda: quantos anos da sua vida você já gastou esperando se tornar essa pessoa destemida — alguém que, no fim, só aparece quando você para de esperar e começa a agir?

O problema não é novo. Muito antes de qualquer psicólogo comportamental se dedicar ao tema, o rei Salomão já havia cravado o diagnóstico na frase que abre este texto. Dizer que a esperança adiada adoece o coração resume bem o que acontece com um ser humano que sustenta expectativas demais e ações de menos. Note que o velho rei não condena a espera em si. Ele adverte sobre o preço de uma espera bem específica, aquela que se esconde em promessas e nunca vê a luz do dia. Adiar, ao contrário do que parece, não é um gesto neutro. Adiar cobra, e cobra caro, ainda que a fatura chegue sempre em silêncio.

A ciência levou alguns milênios para alcançar o velho rei, mas chegou lá. Durante três décadas, a psicóloga alemã Gabriele Oettingen, da Universidade Nova York, testou empiricamente aquilo que a autoajuda vendia como verdade: a ideia de que “pensar positivo” aproximaria você do objetivo. Deu o oposto. Permanecer no terreno da fantasia, apenas imaginando um futuro sem trabalhar para ele se concretizar, reduz as chances de isto acontecer. O cérebro que já se visualizou bem-sucedido em algum intento saboreia adiantado o gostinho da vitória e fica sem energia para pagar o preço da conquista real. Em bom português: sonhar demais queima justamente o combustível de que a ação precisaria. 

O antídoto veio de um parceiro de pesquisa de Oettingen, Peter Gollwitzer, que provou algo simples e libertador: esperança amarrada a um plano concreto — do tipo “se acontecer isso, então eu farei aquilo” — chega a triplicar o que a gente de fato realiza. Ou seja, esperança sem planejamento não passa de torcida; já esperança com um plano é ação. E ação, no fim das contas, é a única coisa que a esperança tem o direito de gerar.

Para quem estuda para concurso, o risco de ceder à passividade é enorme, até porque a recompensa demora. Indo direto ao ponto, concurso público é o território perfeito para a procrastinação. É o “vou esperar o edital ideal”, dito por quem nem sequer abriu o PDF do edital recém-lançado. É o “começo quando achar o método perfeito”, dito por quem já comprou três cursos e não terminou nenhum. É o “vou esperar minha mente acalmar para render mais”, dito por quem transformou a própria agitação numa desculpa perpétua. É o “quando Deus quiser, acontece”, dito por quem devolveu a Deus uma tarefa que era sua: a de ao menos abrir o livro hoje. Nenhuma dessas frases é falsa em si. Todas viram mentira no instante em que passam a justificar mais um dia sem estudo.

Eu mesmo aprendi na prática a separar um tipo de esperança do outro. Em 2014, cerca de um ano depois de Rodrigo e eu termos fundado o Gran, a empresa estava à beira do colapso. Eu tinha 21 anos, dívidas maiores do que meu bolso comportava, uma ansiedade que me tirava o sono e uma voz interna muito educada sussurrando, todo dia, que o prudente seria esperar. Esperar o mercado se estabilizar. Esperar a conjuntura melhorar. Esperar dias melhores para as decisões difíceis. 

Se eu tivesse obedecido àquela voz, o Gran teria fechado antes do Natal, e eu teria passado os anos seguintes tentando explicar por que não deu certo. Não obedeci. Ou, melhor dizendo, escutei apenas o bastante para reconhecer que aquilo era a manifestação de uma esperança perigosa, do tipo que se traveste de prudência. O que fizemos, Rodrigo e eu, foi o exato oposto de esperar: cortamos na hora o que precisava ser cortado, reinventamos o modelo com o caixa ainda no vermelho e trabalhamos como quem não tem para onde fugir. E veja que interessante: foi dessa reação que nasceu, em 2015, a Assinatura Ilimitada. 

Essa experiência — um tanto traumática, devo reconhecer rs — me ensinou algo que nunca vou esquecer: a esperança que vale a pena ter é aquela que produz ação hoje. Não amanhã, não quando “as condições melhorarem”, não quando você acordar sendo outra pessoa. Hoje. 

É hoje que o concurseiro que se preza age. Ele não fica inerte apenas esperando as coisas acontecerem. O edital ainda não saiu? Ele está estudando as matérias comuns à maioria das carreiras, juntando dinheiro para comprar o curso preparatório, se preparando física e emocionalmente para a maratona de estudos que inevitavelmente virá a seguir. 

Em resumo, caro leitor, querida leitora, a esperança boa é aquela que inspira ação, não passividade. No fim das contas, é aquela que, lá na frente, separa quem realizou algo de quem se perde em explicações sobre por que não realizou nada.

Dito isso, proponho um exercício simples para você fazer esta semana. Escreva num papel três coisas para as quais você anda “esperando o momento certo”. Ao lado de cada uma, anote, sem roubar, o que você de fato fez nos últimos trinta dias para chegar mais perto de torná-la realidade. Onde a resposta for “nada”, você acabou de flagrar uma esperança perigosa em plena atividade, ocupando o lugar da ação e ainda se disfarçando de virtude. 

Mas aqui vai a boa notícia: no minuto em que você a chama pelo nome certo, ela perde o feitiço. A providência capaz de curá-la, você já sabe, cabe inteira dentro do dia de hoje.

“A esperança não é o mesmo que otimismo. Não é a convicção de que algo dará certo, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente de como termine.”

Václav Havel (1936-2011), dramaturgo e primeiro presidente da República Tcheca, em “Disturbing the Peace”

Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

GOLLWITZER, Peter M. Implementation intentions: strong effects of simple plans. American Psychologist, Washington, D.C., v. 54, n. 7, p. 493-503, jul. 1999.

HAVEL, Václav. Disturbing the Peace: A Conversation with Karel Hvížďala. Tradução para o inglês de Paul Wilson. New York: Alfred A. Knopf, 1990.

OETTINGEN, Gabriele. Rethinking Positive Thinking: Inside the New Science of Motivation. New York: Current, 2014.

OETTINGEN, Gabriele; MAYER, Doris. The motivating function of thinking about the future: expectations versus fantasies. Journal of Personality and Social Psychology, Washington, D.C., v. 83, n. 5, p. 1198-1212, nov. 2002.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

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