Dedicatória

A história de Raphael Medeiros mostra como lembrar por quem estudamos pode renovar a motivação e dar sentido à jornada até a aprovação.

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Sabe quando a gente abre um livro e, antes do primeiro capítulo, encontra uma dedicatória, apenas algumas linhas, às vezes um nome só, que explica a razão de existir das trezentas páginas seguintes? Pois é… Essa parte da obra, que parece insignificante para quem lê, muitas vezes foi a que levou mais tempo para o autor escrever. Não raro, a vida toda até ali.

Raphael Medeiros, aluno do Gran e ex-motorista de aplicativo, que o diga. Quando viu seu nome na lista de aprovados para a Polícia Rodoviária Federal, a primeira coisa que ele fez foi chamar a mãe, que preparava o almoço na cozinha. “Mãe, vem ver”, disse, com a voz embargada. Raphael tinha saído da prova certo de que havia reprovado; porém, quando a mãe chegou perto, ele pronunciou a frase que eu gostaria de ver pendurada na parede do quarto de todo concurseiro: “A gente conseguiu. Não fui eu, foi a gente.”

Esse “a gente” diz tudo. Joana D’arc, a mãe, e Eduardo, o pai, trabalhavam duro para pagar as despesas da casa e o financiamento do apartamento onde a família morava – imóvel que acabaram perdendo para o banco. Ela como diarista de domingo a domingo; ele como cobrador de ônibus e, depois, taxista. E havia o Dudu, o irmão diagnosticado com autismo e deficiência cognitiva aos 3 anos, a quem Raphael chama de anjo, uma alma pura que não conhece o pecado. 

É a eles que Raphael dedica, até hoje, cada aprovação.

Raphael com a mãe, Joana D’arc, e o irmão, Dudu.

Séculos antes, o imperador Marco Aurélio, o homem mais poderoso do mundo em seu tempo, também começou seu livro Meditações com algo muito parecido com uma dedicatória. “De meu avô Vero aprendi o bom caráter. De meu pai, a modéstia. De minha mãe, a piedade e a generosidade”, inicia, antes de seguir com páginas e mais páginas nomeando professores, amigos e o pai adotivo, para só depois expor sua filosofia. Um dos livros mais lidos do estoicismo abre com um homem que governava meio mundo dizendo a quem devia cada pedaço de si. 

Raphael nunca pôs sua dedicatória no papel, mas ela estava em cada página que ele estudou. E você, caro leitor, querida leitora, se tivesse de escrever hoje a dedicatória dessa obra em construção chamada vida, a quem ela seria endereçada?

As Escrituras mostram o poder que esse destinatário exerce em nossa motivação. Jacó trabalhou sete anos para o sogro em troca da mão de Raquel, pastoreando o rebanho de outro homem, movido apenas pelo amor. O texto resume esse período numa linha: “Então Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava” (Gênesis 29:20).

Quem já passou uma tarde de domingo diante de um PDF aberto, sem render uma página, sabe que o problema raramente é falta de técnica. Adam Grant, hoje professor da Wharton, a escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, quando ainda fazia o doutorado na Universidade de Michigan, investigou justamente o que mantém alguém nesse esforço e escolheu um cenário ingrato: a central de telemarketing que pedia doações a ex-alunos para financiar bolsas de estudo. Ali, a maioria das ligações terminava em recusa.

A um grupo de atendentes, Grant apresentou um bolsista que só estava na faculdade graças àquele dinheiro e que contou como essa oportunidade mudou sua vida. O outro grupo seguiu trabalhando como sempre. Passado um mês, os números mostraram que quem tinha ouvido o relato do bolsista dedicou mais que o dobro do tempo ao telefone e arrecadou quase três vezes mais. Ninguém mexeu no roteiro, no salário ou no treinamento; os atendentes apenas passaram a saber para (e por) quem ligavam.

Grant voltou ao tema em outros estudos. Com salva-vidas, depois de fazê-los ler relatos de resgates feitos por colegas, observou o aumento nas horas de trabalho. Num hospital, bastou trocar o aviso acima dos dispensadores de sabonete e álcool em gel, de “A higiene das mãos evita que você pegue doenças” por “A higiene das mãos evita que os pacientes peguem doenças”, para ver o consumo por dispensador subir. No fim das contas, saber a quem o trabalho serve sustenta o esforço mais que qualquer benefício próprio.

Há, contudo, uma ressalva a fazer. Estudar por alguém é uma coisa; estudar para provar algo a alguém é outra bem diferente. Quem se senta à mesa só para calar o pai, o ex ou o colega que duvidou vive de ressentimento, e ressentimento esgota rápido. A dedicatória verdadeira se parece mais com um presente do que com uma cobrança.

Raphael conhece bem a diferença. No fim de 2019, depois de mais de duas semanas internado no Hospital Regional da Asa Norte, ele fez a prova da Polícia Penal com a pulseira do hospital no braço e uma máscara N95 no rosto, por orientação médica. Esse tipo de teimosia não nasce da vontade de calar ninguém; nasce da consciência de que alguém que importa está esperando em casa e depende de você.

Confesso que a minha dedicatória mudou com o tempo. Aos 21 anos, quando o Rodrigo e eu fundamos o Gran, ela era bem mais curta. Hoje menciona a Vivi, três meninos cujos nomes terminam igual, meus pais, o próprio Rodrigo e uma fila de gente que eu nunca vou conhecer e que abre a plataforma do Gran às cinco da manhã. É uma lista parecida com a do imperador Marco Aurélio, guardadas as devidas proporções, e produz em mim o mesmo efeito. Ela me obriga a lembrar, antes de qualquer página do livro da minha vida, a quem devo cada uma delas.

Daí a minha sugestão, concurseira, concurseiro: antes de montar o seu ciclo de estudo, redija a sua dedicatória. De próprio punho, de preferência na primeira página do caderno ou na capa do primeiro PDF. Escolha a que for melhor para você. Pode ser algo como “Para a minha mãe, que trabalhou de manicure para eu chegar até aqui” ou “Para mim mesmo aos 50, que vai me agradecer.” Uma linha basta.

Nos dias mais difíceis, quando a nota do simulado não tiver subido ou a mera visão da cadeira, ali, esperando por você, parecer castigo, volte a essa página. É o mesmo princípio dos estudos de Grant: os atendentes não aprenderam nenhuma técnica nova, só ganharam um rosto para lembrar a cada ligação.

Raphael passou na PRF, na Polícia Federal e na Polícia Civil do DF, tudo no mesmo ciclo, mas a frase dita naquele dia, na cozinha de casa, continua valendo. Escreva a sua dedicatória ainda hoje. Quando o seu nome aparecer na lista de aprovados, você vai saber exatamente quem chamar para ver.

“Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte do todo.” – John Donne (1572-1631), em “Devoções para ocasiões emergentes”

Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. São Paulo: Editora Vida, 2011.

DONNE, John. Devotions upon emergent occasions. London: Thomas Jones, 1624.

GRANT, Adam M. et al. Impact and the art of motivation maintenance: the effects of contact with beneficiaries on persistence behavior. Organizational Behavior and Human Decision Processes, v. 103, n. 1, p. 53-67, 2007.

GRANT, Adam M. The significance of task significance: job performance effects, relational mechanisms, and boundary conditions. Journal of Applied Psychology, v. 93, n. 1, p. 108-124, 2008.

GRANT, Adam M.; HOFMANN, David A. It’s not all about me: motivating hand hygiene among health care professionals by focusing on patients. Psychological Science, v. 22, n. 12, p. 1494-1499, 2011.

MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Alexandre Pires Vieira. São Paulo: Montecristo, 2019. Livro I.

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