“Quem fica observando o vento não plantará, e quem fica olhando para as nuvens não colherá.” – Eclesiastes 11:4 (NVI)
Trabalho com concursos públicos desde os 14 anos de idade. Nesses 20 anos e contando, já vi um pouco de tudo: greve dos caminhoneiros, pandemia, bolha financeira internacional, recessão aqui dentro, crises das mais diversas em nosso país… Posso garantir que, em cada uma dessas fases, quem passou em concurso foi quem seguiu em frente apesar de tudo. Não foi quem ficou só esperando o momento mais oportuno.
Aqui mora um aprendizado importantíssimo: tem gente que passa a vida esperando o que julga ser o vento certo. Acha que precisa de mais tempo, de ter os filhos crescidos, de ver a crise passar, de juntar um dinheiro antes. Essa gente espera tanto que, quando o vento finalmente, ao menos na teoria, sopra a favor, já não sobrou semente para plantar.
O vento, aliás, sopra de muitas direções. Há o vento de fora: a economia, o noticiário, o edital que demora, a banca que muda o estilo da prova. Há o vento de perto: o chefe que pede hora extra, o bebê que não dorme, a família que pergunta até quando você vai insistir nisso. E há o vento de dentro, talvez o mais traiçoeiro: o cansaço, o desânimo depois de uma reprovação, aquela voz que sussurra que agora não é a hora.
O problema começa quando qualquer um deles vira motivo para apenas… esperar. Ou pior: quando a pessoa enxerga tudo como terra arrasada e desiste dos seus sonhos justamente quando estava mais perto de realizá-los.
Faço um alerta, mais uma vez na condição de alguém que trabalha com concursos desde a adolescência: desconfie das previsões, sejam elas pessimistas demais ou otimistas em excesso. A experiência me ensinou que quem passa em concurso é quem mantém a constância em qualquer cenário, inclusive em meio a condições que não controla.
No livro de Eclesiastes, encontramos a frase que abre este artigo. Repare na construção com o verbo “ficar” seguido de gerúndio usada pelo autor, que a tradição bíblica identifica como Salomão. Ela denota uma condição crônica. O lavrador que espera o vento ideal perde a essência de lavrador e se torna mero sentinela do tempo. Enquanto ele vigia o céu, a melhor estação para o plantio vem e vai, e a terra fica sem semente. A metáfora alerta para o problema que é ficar apenas mirando tudo ao seu redor enquanto o tempo passa e as oportunidades também.
Ao longo desses anos, vi gente parar de estudar pelos motivos mais variados. Uns paravam aflitos, porque “o momento está ruim demais”. Outros paravam tranquilos, porque “depois eu recupero o tempo perdido”. Teve quem parou à espera da troca de emprego, do fim da reforma da casa, do filho entrar na escola. Na prática, estavam todos fazendo a mesma coisa: observando o vento, tal qual o lavrador descrito no versículo de Eclesiastes.
O professor Aragonê, juiz com mais de vinte e nove anos de serviço público, é um bom exemplo de quem nunca esperou o céu limpar. Ele começou a carreira como recenseador do IBGE, e foram 17 anos de estrada até chegar ao cargo de juiz, algo que nem sonhava atingir quando começou. Em quase três décadas, o vento soprou contra ele mais vezes do que a favor. Ele continuou plantando.
Também entrevistei um casal, a Isis e o Ademir, que estudaram para o concurso da CGU de 2021, num ano em que o mundo ainda tentava entender a pandemia, e tomaram posse juntos, no mesmo dia, em 2022. Dois lavradores no mesmo campo, semeando debaixo da maior tempestade que a nossa geração viu. Quer motivação maior que essa?
A incerteza, porém, mexe com qualquer um, e de nada adianta fingir que não. Contudo, há meios de lidar com ela. Quase dois mil anos atrás, Epicteto dava um caminho possível, a consciência de que não controlamos tudo, e tudo bem. “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não”, dizia. Dependem de nós, segundo ele, o juízo, o impulso, a ação. Não dependem o corpo, a fama, o cargo, e tudo o que não é obra nossa.
O cargo, portanto, não depende de você. A economia também não, tampouco a data do próximo edital, o humor do chefe ou a opinião do parente no almoço de domingo.
A lista do que está fora do nosso controle é bem extensa, ao contrário da que podemos controlar, mais curta, porém poderosa. A hora em que você se senta para estudar todas as manhãs, por exemplo, depende de uma decisão toda sua. Ora, se você não pode decidir nada sobre o resto, seja assertivo ao menos no que só depende de uma iniciativa sua.
Tenho alguns bons exemplos para citar de gente que não desistiu nem mesmo quando o vento mudou de direção de repente.
O professor Diego, hoje consultor legislativo da Câmara dos Deputados, começou a estudar para concursos lá atrás, em 2007. Um ano depois, passou na Abin e, em 2010, na Aneel. Em 2012, ficou fora das vagas da Polícia Legislativa do Senado, mas dentro do curso de formação, com a promessa de que toda a turma seria nomeada. Em 2013, uma decisão da Casa suspendeu as nomeações e bloqueou os cargos vagos de policial legislativo. Foi a maior desilusão da vida dele. No dia seguinte à notícia, Diego voltou a estudar. Vieram o MPU, a Polícia Legislativa da Câmara, a do Senado e, anos mais tarde, a vaga de consultor legislativo que perseguia havia tanto tempo (leia AQUI). Perceba que o vento mudou de direção mais de uma vez na vida dele, e em nenhuma delas Diego ficou parado olhando para o céu.
Veja mais histórias de alunos:
Um exemplo mais recente de persistência é o de Isadora Gonçalves de Menezes, nutricionista de Salvador/BA, que começou a preparação para concursos em 2021, desempregada, em plena pandemia. Estudar era a sua fuga, e essa “fuga” virou o sétimo lugar geral no concurso da Prefeitura de Salvador, numa disputa de 426 candidatos por vaga. A nomeação saiu em 2026 (leia AQUI).
Guilherme Silvesso Silva comprou o primeiro notebook com o dinheiro do auxílio emergencial e, no concurso seguinte, foi aprovado em primeiro lugar para técnico em contabilidade da Universidade Federal da Grande Dourados, em Mato Grosso do Sul. De lá para cá, foram sete primeiros lugares, entre os quais o de analista da Secretaria de Educação de Santa Catarina, além de uma nona posição para auditor do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (leia AQUI).
Já Weslley Lindbergh, de Teresina/PI, sofreu uma eliminação desanimadora na prova da CGU de 2022, quando não atingiu sequer o mínimo em conhecimentos básicos. Ele chegou a adoecer do estômago e passou meses afastado dos estudos. Voltou em 2023 e, em pouco mais de um ano, terminou aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo, na Câmara Municipal de São Paulo, no TRF-3 e na Controladoria-Geral do Estado de São Paulo (leia AQUI).
Repare que nenhum deles começou com o céu limpo. Pandemia, desemprego, dinheiro contado, uma reprovação que abalou até a saúde. Todos plantaram no meio da ventania.
Então, minha primeira sugestão, já para esta semana, é muito simples. Consuma as notícias como quem toma remédio: duas ou três vezes por dia, e só. Vale o mesmo para os grupos de mensagem e para a rolagem infinita das redes. O resto do tempo deve ser dedicado ao que você efetivamente controla: os estudos. Quem acompanha tudo de hora em hora acha que está bem-informado, mas está só observando o vento.
A segunda é um exercício prático. Pegue uma folha de papel e faça duas colunas. De um lado, anote tudo aquilo que ocupa a sua cabeça, mas que está fora do seu controle. Do outro, elenque as ações que você efetivamente controla. A primeira coluna vai sair comprida, mas não se assuste, porque a segunda, mais curta, também será a que lhe renderá algo de concreto. Antes de dormir, escolha uma das ações anotadas ali, como a resolução de um bloco de questões ou a leitura de uma lei do começo ao fim, e, depois de executá-la, registre.
Acima de tudo, caro leitor, querida leitora, tenha em mente que o vento muda a todo momento. No Brasil, nem se fala. Ninguém que está nas listas de aprovados deste ano sabia como estaria a própria vida no dia da posse. Essa gente semeou na incerteza, que, convenhamos, é a única estação disponível. Faça o mesmo: olhe o céu uma vez, por educação, e volte para a terra. O campo não lê manchete nem previsão do tempo. Sabe apenas se foi semeado.
Como escreveu Sêneca nas “Cartas a Lucílio”: “Nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige.”
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
Acesse o Site Oficial do Gabriel Granjeiro
Participe do meu Canal no Whatsapp e do Canal do Imparável no Telegram e tenha acesso em primeira mão ao artigo da semana e ao áudio do artigo com a voz do autor, além de muitos outros conteúdos para inspirar você, mesmo em dias difíceis!
P.S.: Siga-me em meu perfil no Instagram. Lá, publicarei pequenos textos de conteúdo motivacional, com dicas objetivas que poderão ajudá-lo em sua jornada rumo ao serviço público.
Mais artigos para ajudar em sua preparação:
- A Segunda Filha
- Dedicatória
- Você está vivo. Faça algo a respeito.
- Gente comum passa
- Dias de luta, dias de glória
- Lembre-se de quem você é (ou será)
- Ninguém aplaude ensaio
- Pague o preço ou reduza o sonho
- A lenha e a medida
- A formiga sem chefe
- Bunda na cadeira
- A meia-vida do entusiasmo
- A raiva boa
- A esperança perigosa
- Permanência
- A combustão do que ninguém aplaude
- A síndrome do começador
- O custo silencioso do barulho
- A tirania do “talvez”
- Os juros compostos da fidelidade
- A linha que não se rompeu
- Da pulseira de hospital à PRF, PF e PCDF
- A pedra angular
- O Zezinho que não morreu nos fornos
- O que a vida quer da gente
- Do meio-fio à farda
- Cheiro de madeira
- Alfabetizado aos 14. Imparável para sempre.
- O sonho que você ainda não sabe que tem
![[BLACK FRIDAY 2026] R$ 2 por dia – Cabeçalho](https://blog-static.infra.grancursosonline.com.br/wp-content/uploads/2026/10/23113511/black-friday-2026-2reais-por-dia-cabecalho.webp)
![[BLACK FRIDAY 2026] R$ 2 por dia – Post](https://blog-static.infra.grancursosonline.com.br/wp-content/uploads/2026/10/23113838/black-friday-2026-2reais-por-dia-post.webp)


