A segunda filha

Entenda como a coragem e a esperança impulsionam a aprovação em concursos públicos!

Por
Publicado em
4 min. de leitura

“A esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. A raiva pelo modo como as coisas são, e a coragem para fazer com que não permaneçam como estão.”

— Atribuída a Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona.

Encontrei a frase acima no aplicativo Glorify, onde aparece atribuída a Santo Agostinho. Fui pesquisar e não consegui confirmar que seja mesmo dele. Para o que quero dizer aqui, isso pouco importa, porque quem a escreveu entendia de gente. A raiva olha para o modo como as coisas são; a coragem trabalha para que elas não continuem assim.

Não faz muito tempo, escrevi sobre a primeira filha, a raiva boa, aquela que levanta a pessoa do chão (leia AQUI). Hoje quero falar da segunda, a que faz a pessoa andar depois de levantada.

E veja que interessante: as duas são filhas da esperança e, sem a mãe, ficam órfãs. A raiva sem esperança azeda e vira amargura. É o estudante que reclama do edital, da banca, do país e do vizinho, mas não abre a plataforma, porque no fundo acha que nada vai mudar. Já a coragem sem esperança desanda em imprudência, e o sujeito sai fazendo todas as provas que aparecem, sem saber bem por quê, até cansar. Quem mantém as duas de pé, e lhes dá rumo, é a esperança.

Penso logo na Isadora Gonçalves de Menezes, aluna Gran. Ela nasceu com ictiose e asma severa, e um médico chegou a avisar à mãe que a menina não sobreviveria. Sobreviveu. Formou-se em Nutrição na federal da Bahia e foi trabalhar em dois hospitais ao mesmo tempo, com plantões de vinte e quatro horas, deslocamento para outra cidade, setenta e duas horas por semana e três folgas no mês.

Depois veio o pacote completo: assédio, salário atrasado, burnout, afastamento médico. Muita gente usaria o afastamento apenas para respirar, e ninguém teria o direito de cobrar nada. Ela fez outra coisa. “Foi o período em que eu mais estudei”, me contou. “Eu falava: eu não vou ficar nessa situação, eu não nasci para isso, eu não vou me enterrar aqui.” Era a primeira filha falando.

Só que raiva, sozinha, cabe numa tarde de desabafo. Para virar aprovação, ela precisa da irmã, e é justamente sobre a coragem que quase todo concurseiro se engana. Aristóteles, que já me ajudou a pensar a raiva, escreve na Ética a Nicômaco que nos tornamos justos praticando atos justos, moderados praticando a moderação e corajosos praticando atos de coragem. A ordem importa e desmonta a espera de quem aguarda se sentir corajoso para começar. Ninguém fica corajoso para depois agir; a pessoa age, e a coragem vai se formando no caminho, como calo.

O filósofo acrescenta um detalhe que conversa com a frase de Agostinho. Para ele, a coragem fica no meio de dois defeitos: de um lado a covardia, que vê perigo demais; do outro a temeridade, que não vê perigo nenhum. O estudante amargo, que não abre a plataforma, e o imprudente, que se inscreve em tudo, já estavam catalogados em Atenas havia mais de dois mil anos. Corajoso, diz Aristóteles, é quem sente o medo na medida certa e vai assim mesmo, porque sabe pelo que vai.

Foi assim, no braço, que a Isadora formou o calo dela. Nos anos seguintes ao afastamento, estudou no metrô, no ônibus, no intervalo do almoço, entre um plantão e outro, e resolveu mais de 3 mil questões. Era a segunda filha trabalhando em silêncio, sem plateia e sem garantia nenhuma.

E o medo, onde fica nessa história? Stanley Rachman, psicólogo do Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres que depois seguiu carreira no Canadá, passou anos tentando entender por que algumas pessoas conseguem agir no meio do perigo enquanto outras travam. Foi buscar a resposta no grupo mais exposto que poderia encontrar: os especialistas do Exército britânico que desarmavam bombas na Irlanda do Norte, nos anos mais violentos do conflito.

Ele e os colegas levaram esses homens ao laboratório, submeteram todos a sessões de estresse e mediram duas coisas: o que eles diziam sentir e o que o coração deles fazia. Os condecorados por bravura relataram a mesma apreensão que os colegas sem medalha. A diferença estava no corpo, já que, nos momentos mais pesados do teste, o coração dos condecorados batia mais devagar. Curiosamente, Rachman não concluiu daí que os bravos nascem de sangue frio, mas o contrário. Coragem é agir apesar do medo, e o medo vai cedendo à medida que a pessoa repete o ato corajoso. O treino e a experiência acalmavam aqueles homens; a calma vinha depois da ação, e não antes.

Trazendo para a mesa de estudos, “não tenho coragem” quase sempre quer dizer “estou com medo”, e com medo está todo mundo que já se sentou numa cadeira de prova. A Isadora estava. No dia da prova da Prefeitura de Salvador, com 426 candidatos por vaga, ela foi de mototáxi, porque o carro de aplicativo estava caro, e pediu ao motorista: “Vá devagar, porque eu vou fazer a prova da minha vida.” Ninguém faz um pedido desses sem medo, e ela foi assim mesmo.

Paulo, o apóstolo, conhecia esse medo de perto. Estava preso, à espera da execução, quando escreveu a Timóteo, discípulo jovem e tímido a quem cabia conduzir a igreja de Éfeso. No meio de conselhos e saudades, deixou um versículo que serve mais de descrição do que de ordem: “Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio” (2 Timóteo 1:7). Note bem: a palavra que o apóstolo usa para covardia, no grego, é deilía, a mesma com que Aristóteles nomeara, séculos antes, o defeito do covarde. E o equilíbrio é sophronismós, parente próximo da moderação que o filósofo também tanto prezava.

Repare nos três substantivos, porque eles cabem numa mesa de estudo. O poder é a capacidade que você já tem e subestima. O amor é o quem, a pessoa por quem você estuda. O equilíbrio é a disciplina que não vira obsessão nem desculpa. A covardia, segundo o versículo, foi justamente o que não veio no pacote; os outros três vieram, e cabe a nós usá-los.

Na história da Isadora, o amor aparece no dia do resultado. Quando viu o sétimo lugar geral, ela se ajoelhou no chão de casa, agradeceu e foi buscar a esposa no trabalho com uma plaquinha escrita à mão: “Eu sou a nova concursada da família.” Hoje trabalha numa unidade básica de saúde, em horário administrativo de trinta horas semanais, e ganha mais do que ganhava nos dois hospitais somados.

Isadora assina o tão esperado termo de posse, que lhe permite trabalhar menos da metade das horas e ganhar mais.

Proponho, então, querida leitora, caro leitor, um pequeno exame para testar a frase de Agostinho na sua própria vida. Comece perguntando do que você tem raiva. Se a resposta for “de tudo”, a raiva está sem mãe e vai acabar em amargura; se for “de estar há três anos na mesma posição”, ela está viva e serve. Depois, olhe para a sua semana e veja o que a sua coragem produziu. Coragem que não gerou uma ação com data ainda é só sentimento, e medo, como Rachman mostrou, até o condecorado sentia.

Resta a pergunta que decide as outras: você ainda acredita que a sua situação pode mudar? Se a resposta for não, pare de cobrar coragem de si mesmo e cuide primeiro da esperança, porque sem ela as filhas não nascem. Se for sim, sente-se e comece hoje, com medo e tudo.

“A coragem não é simplesmente uma das virtudes, mas a forma de toda virtude no ponto de teste.” – C. S. Lewis (1898-1963), em “Cartas de um diabo a seu aprendiz”.


Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.

Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.

Acesse o Site Oficial do Gabriel Granjeiro

Participe do meu Canal no Whatsapp e do Canal do Imparável no Telegram e tenha acesso em primeira mão ao artigo da semana e ao áudio do artigo com a voz do autor, além de muitos outros conteúdos para inspirar você, mesmo em dias difíceis!

P.S.: Siga-me em meu perfil no Instagram. Lá, publicarei pequenos textos de conteúdo motivacional, com dicas objetivas que poderão ajudá-lo em sua jornada rumo ao serviço público.

Mais artigos para ajudar em sua preparação:

Por
Publicado em
4 min. de leitura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *