“A vida só pode ser entendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente.” – Søren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, em Diários (1843)
Lewis Hamilton estava havia quase dois anos sem vencer uma corrida. Perguntavam a ele, dentro e fora dos boxes, se não era hora de parar. Foi nessa época que um fã o abordou e disse: “Lewis, lembre-se de quem você é, cara! Você já conseguiu, vai conseguir de novo.”
Então, em 14 de junho de 2026, no Grande Prêmio da Espanha, Hamilton cruzou a linha em primeiro. Aos 41 anos, tornou-se o piloto mais velho a vencer uma corrida em 56 anos. No post daquela noite, bastaram-lhe quatro palavras para resumir o que sentia: “Remember who you are.” Lembre-se de quem você é.
O recado do fã não era um convite ao saudosismo. Ninguém mandou o automobilista lembrar as corridas de antigamente apenas por lembrar. A mensagem era pragmática e potente. Dizia que Hamilton já provara ser capaz dos maiores feitos e que, portanto, uma simples fase ruim como aquela não deveria convencê-lo do contrário.
Quem diria, um dos maiores pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos precisando de um lembrete como esse… Se ele precisa, imagine o resto de nós, meros mortais. Infelizmente, porém, a maioria das pessoas dificilmente acredita que o recado se aplique a elas. Afinal, quem tem grandes vitórias como Hamilton para lembrar?
Se foi isso que passou pela sua cabeça agora, permita-me contra-argumentar.
Você já venceu alguma coisa na vida, e tenho certeza disso mesmo sem nem conhecê-lo(a). Algumas concurseiras são mães, e, se há um desafio que supera todos os demais, é a maternidade. E quantos relatos temos de alunos que conseguiram sair de um grau de pobreza difícil até de imaginar, e à custa apenas do próprio esforço? Outros terminaram a faculdade aos trancos e barrancos, sem apoio, tempo ou dinheiro, mas terminaram. Quer vitórias maiores que essas?
Eu mesmo perdi a conta das noites em que duvidei se conseguiria carregar o próximo peso que a vida colocaria sobre mim. O que me tirou de cada uma dessas situações foi a lembrança pontual de uma vitória qualquer do passado. Quando o Gran atravessou sua maior crise, em 2014, lembrei de minha admissão em uma das melhores universidades do mundo. Quando precisei falar para vinte mil pessoas ao vivo em uma das edições da nossa Reinvenção, pensei nas reuniões duras conduzidas com pouca gente na sala e muito em jogo. Vistas de fora, nenhuma das duas lembranças impressiona. Vistas de dentro, cada uma era prova bruta de que eu já tinha conseguido antes e conseguiria de novo.
Até hoje enfrento desafios que me obrigam a repetir esse exercício. Foi por isso que montei no meu escritório uma parede de conquistas: diplomas emoldurados, capas de revista, reportagens sobre o Gran. Quem vê de relance pode interpretar como vaidade, mas quem trabalha conosco sabe que aquele mural é um lembrete na mesma linha do post de Hamilton.

O que percebo de forma intuitiva já foi descrito pela ciência. Claude Steele, professor de psicologia em Stanford, chamou de “ameaça do estereótipo” o peso invisível que faz alunos preparados renderem abaixo do próprio nível justamente quando mais precisam render. E propôs um antídoto simples demais para ser verdade, a autoafirmação.
Num experimento que se tornou clássico, turmas de sétimo ano de uma escola americana ganharam quinze minutos de aula para uma redação. Metade escreveu sobre o valor mais importante da própria vida; a outra metade, sobre valores importantes para outras pessoas. No fim do semestre, as notas dos alunos negros do primeiro grupo tinham subido, e a distância que os separava dos colegas brancos havia encolhido 40%. Quinze minutos de caneta e papel bastaram para que aqueles meninos e meninas se lembrassem de quem eram antes de entrar na sala de aula. O medo de falhar afrouxou, e o que eles já sabiam finalmente marcou presença nas provas.
O experimento demonstra que refletir um pouco sobre o próprio passado pode promover uma guinada no desempenho presente e futuro. Mas e se você olhar para trás e não achar nada, nenhuma vitória para pinçar do fundo da memória? Talvez você tenha sido um péssimo aluno, um adolescente perdido, um adulto que só acumulou fracassos. Fique calmo: existe uma segunda alavanca, e ela aponta para outro lado.
Viktor Frankl, neurologista e psiquiatra vienense, sobreviveu a quatro campos de concentração. Perdeu a esposa, os pais e o irmão. Perdeu também o manuscrito da obra de sua vida, que foi confiscado na entrada de Auschwitz. Não havia passado ao qual voltar, pois haviam destruído tudo.
O que o manteve de pé foi uma cena que ele repetia para si mesmo nas marchas geladas das madrugadas. Na imagem, ele se via anos à frente, num auditório aquecido e bem iluminado, palestrando sobre a psicologia do campo de concentração para uma plateia atenta. Frankl se agarrou a um homem que ainda não existia, e foi esse homem que o puxou para fora do horror. Ele gostava de citar Nietzsche para explicar o que o sustentou: quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.
Olhar para trás e olhar para frente parecem movimentos opostos, mas fazem a mesma coisa: dizem quem você é na hora que a dúvida surge. Se o passado não lhe serve de bússola, o futuro há de servir. Essa segunda via tem uma regra generosa: você não precisa merecer hoje quem quer ser. Precisa escolher e andar nessa direção desde já.
Então, concurseiro e concurseira, escolha com clareza e assertividade o servidor público ou a servidora pública que você será aos 60 anos. Visualize o seu jeito de andar e, por que não, a conta bancária sempre no azul. Imagine os filhos ou até mesmo netos reunidos em casa em um domingo de família. Por fim, chame essa versão de si para a sua mesa de estudo todos os dias, como se ela existisse de fato. De um jeito estranho, ela já existe mesmo. A batalha do presente é caminhar até ela.
Sugiro, aliás, um exercício simples que reproduz o experimento de Stanford. Leva quinze minutinhos de um domingo à noite e não exige nada além de papel e caneta. Anote numa folha de caderno uma vitória do passado que, apesar de hoje parecer pequena, na hora foi enorme. Embaixo dessa nota, descreva o servidor ou a servidora que você vai se tornar, detalhando traços físicos e emocionais que só você conhece. Deixe o papel sobre a mesa de estudo e volte a olhar toda semana.
Hamilton fez isso na forma de um post fixado em sua rede social. Frankl fez com um auditório imaginário em meio a muita neve e absoluto terror. Você pode fazer com uma simples folha de papel.
Lembre-se de quem você já foi. Lembre-se de quem você vai se tornar. E estude hoje para não trair nenhum dos dois.
“Confia em ti mesmo: todo coração vibra a essa corda de ferro.” – Ralph Waldo Emerson (1803-1882), filósofo e ensaísta norte-americano, em Ensaios, “Autoconfiança” (1841)
Referências
COHEN, Geoffrey L.; GARCIA, Julio; APFEL, Nancy; MASTER, Allison. Reducing the racial achievement gap: a social-psychological intervention. Science, v. 313, n. 5791, p. 1307-1310, 2006.
EMERSON, Ralph Waldo. Essays: first series. Boston: James Munroe and Company, 1841.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. Petrópolis: Vozes, 2008.
KIERKEGAARD, Søren. Papirer (Diários). Copenhague, 1843.
STEELE, Claude M. The psychology of self-affirmation: sustaining the integrity of the self. Advances in Experimental Social Psychology, v. 21, p. 261-302, 1988.
STEELE, Claude M. Whistling Vivaldi: how stereotypes affect us and what we can do. New York: W. W. Norton, 2010.
Mais artigos para ajudar em sua preparação:
- Ninguém aplaude ensaio
- Pague o preço ou reduza o sonho
- A lenha e a medida
- A formiga sem chefe
- Bunda na cadeira
- A meia-vida do entusiasmo
- A raiva boa
- A esperança perigosa
- Permanência
- A combustão do que ninguém aplaude
- A síndrome do começador
- O custo silencioso do barulho
- A tirania do “talvez”
- Os juros compostos da fidelidade
- A linha que não se rompeu
- Da pulseira de hospital à PRF, PF e PCDF
- A pedra angular
- O Zezinho que não morreu nos fornos
- O que a vida quer da gente
- Do meio-fio à farda
- Cheiro de madeira
- Alfabetizado aos 14. Imparável para sempre.
- O sonho que você ainda não sabe que tem
- Não é o crítico que importa
![[PLANTÃO DE EDITAIS – NOVO KV] Setembro Lote 1 – Cabeçalho](https://blog-static.infra.grancursosonline.com.br/wp-content/uploads/2026/09/10085219/plantao-de-editais-novo-kv-setembro-1lote-cabecalho.webp)
![[PLANTÃO DE EDITAIS – NOVO KV] Setembro Lote 1 – Post](https://blog-static.infra.grancursosonline.com.br/wp-content/uploads/2026/09/10085545/plantao-de-editais-novo-kv-setembro-1lote-post.webp)


