Dias de luta, dias de glória

Entenda por que o estudo mais árduo gera mais retenção e aprenda a transformar a ralação diária em aprovação!

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“Todo trabalho árduo traz proveito, mas o só falar leva à pobreza.” –
Provérbios 14:23 (NVI)

Onze e meia da noite. Você desliga o computador depois de quatro horas na cadeira e vai para a cama com a certeza de ter perdido o dia: errou quase metade das questões do simulado, voltou três vezes ao mesmo parágrafo do texto, teve que assistir a algumas videoaulas duas vezes e o pouco que entrou na mente parece já estar saindo.

Guarde essa noite. Ela pode ter sido o dia que mais lapidou a sua preparação. E guarde também a outra, aquela em que tudo fluiu, as páginas passando leves como as de uma revista, o marca-texto sem sossego. Essa pode ter sido a noite mais agradável e mais inútil da sua semana.

Em 2019, publiquei um artigo com o mesmo título deste (leia AQUI). Lembro que, na época, tomei o título emprestado da canção do Charlie Brown Jr. – parte do meu pequeno repertório de músicas que não são eletrônicas nem do Red Hot Chili Peppers (sim, eu sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra rs).

Pois bem. Agora, sete anos mais tarde e com um pouco mais de estrada, reli aquele artigo e gostei. Mas percebi que contei só metade da história. Lá eu dizia que a glória vem depois da luta, como recompensa pelo bom comportamento. Hoje penso diferente. A glória é fabricada dentro da luta, no mesmo dia, na mesma cadeira, com a mesma caneta. Quase ninguém percebe isso enquanto está lutando. Eu não percebi.

Chorão sabia do que falava. O vocalista do Charlie Brown Jr. vinha do skate e das ruas de Santos, e a canção por ele eternizada amarra crescimento e ralação num nó que ninguém desfaz. Há quem cante o refrão com foco na parte da glória; eu prefiro reparar na primeira metade do título, porque é ali que a coisa acontece.

Que concurseiro nunca experimentou a frustração de ficar a tarde inteira em Direito Administrativo, levantar da cadeira certo de que dominava a matéria e, passadas apenas duas semanas, bem na hora da prova, perceber que não se lembrava mais sequer da diferença entre dois institutos que parecia óbvia? É a versão, digamos, doméstica dos tais “dias de luta”.

Esse fenômeno é tão instigante que a ciência tratou de tentar explicá-lo. O psicólogo americano Robert Bjork, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, quis entender por que tanta gente estuda de um jeito que parece funcionar, mas não funciona. Em 1994 ele deu nome ao que encontrou: “dificuldades desejáveis” (desirable difficulties), nada além de obstáculos que deixam o estudo mais lento e incômodo na hora e o aprendizado muito mais sólido depois.

Em 2008, com Nate Kornell, Bjork montou um experimento que revelou algo particularmente interessante sobre isso. Os voluntários tinham de aprender a reconhecer o estilo de doze pintores, gente que ninguém conhece de nome. Alguns quadros apareciam em bloco – seis obras do mesmo artista seguidas, uma atrás da outra. Outros apareciam intercalados, embaralhados com os demais, para dar mais trabalho mesmo.

Depois veio o teste, com quadros que ninguém tinha visto antes e a pergunta: de quem é este? Os pintores estudados de forma intercalada foram reconhecidos com mais acerto por 78% dos participantes. Porém, curiosamente, quando perguntaram aos voluntários qual dos dois modos de estudo tinha ajudado mais, também 78% responderam que foi o estudo em bloco. Ou seja, a mesma proporção de gente que aprendeu mais de um jeito jurou ter aprendido mais do outro. 

O que aconteceu ali? Simples: quem estudou em bloco saiu com sensação de domínio, diferentemente de quem estudou misturado, que saiu cansado, meio perdido, com a impressão de que não tinha fixado nada. Só impressão. Um viveu um falso dia de glória; outro viveu um dia de luta que, na verdade, já era glória, só que sem parecer.

Dezoito séculos atrás, um filósofo que cito bastante aqui já tinha percebido isso. Epicteto, um dos maiores nomes do estoicismo, que nasceu escravo e mancava de uma perna, dizia que são as dificuldades que mostram quem são os homens. Evocando a imagem de um treinador que escolhe de propósito o adversário mais duro para treinar seu pupilo, ele explica que o oponente fácil só produz sensação de progresso. É o achado de Bjork com mil e oitocentos anos de antecedência: a dificuldade bem colocada não atrapalha o treino, ela é o treino. Daí o velho adágio que estampa os nossos simulados aqui no Gran: treino difícil, jogo fácil.

Levei tempo para entender isso de verdade. Só entendi mesmo depois de entrevistar mais de 350 aprovados nos mais diversos concursos do país e de reunir num livro os relatos que mais me marcaram (você pode baixá-lo gratuitamente AQUI). Um padrão se repetia em quase todas as histórias. Nenhum daqueles aprovados tratou os dias em que quase desistiu como dias de glória, mas a glória já estava lá, sentada ao lado da luta. Não parecia glória, pois trabalhava disfarçada, lapidando a pessoa, deixando-a mais hábil, mais resistente, mais resiliente. 

Na mesma linha, o provérbio de Salomão que abre este texto não promete proveito a quem fala em trabalhar; promete proveito a quem trabalha de fato. Nesse sentido, de nada adianta cronograma colorido pendurado na parede, planejamento refeito todo domingo, vídeo sobre como estudar tomando tempo do estudo propriamente dito, isto é, da bunda na cadeira.

Vale levar isso para a sua semana, caro leitor, estimada leitora.

Se você terminou a bateria de questões achando que errou demais, ótimo: o erro que dói é o que mais ensina. Se a revisão sem olhar o resumo parece lenta e travada, é porque está funcionando (reler os trechos grifados é prazeroso justamente porque exige pouco do cérebro). Se o simulado de sábado teve resultado abaixo do esperado, cumpriu o papel dele, que é mostrar as suas deficiências o quanto antes (melhor que descobri-las na prova, certo?).

Minha sugestão, então, é: estude intercalando as disciplinas, force a memória durante as revisões, resolva as questões antes de conferir a resposta oficial. Vai parecer dia de luta, e é mesmo. Só que a glória está sendo fabricada ali, quietinha e com toda a discrição do mundo.

O próprio Chorão, em “Senhor do Tempo”, fala daquele momento em que a gente olha para trás e entende o porquê de tudo. Dias de luta e dias de glória, na verdade, se confundem: de perto parecem luta, de longe se revelam glória. É assim que eles viram história. Nossas histórias.

“Primeiro diga a si mesmo o que você quer ser; depois faça o que tem de fazer.” – Epicteto (c. 50-135), em “Discursos”, III, 23

Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BJORK, Robert A. Memory and metamemory considerations in the training of human beings. In: METCALFE, Janet; SHIMAMURA, Arthur P. (org.). Metacognition: knowing about knowing. Cambridge, MA: MIT Press, 1994. p. 185-205.

CHARLIE BROWN JR. Dias de luta, dias de glória. In: Imunidade musical. [S.l.]: EMI, 2005.

EPICTETUS. Discourses, fragments, handbook. Tradução de Robin Hard. Oxford: Oxford University Press, 2014.

KORNELL, Nate; BJORK, Robert A. Learning concepts and categories: is spacing the “enemy of induction”? Psychological Science, v. 19, n. 6, p. 585-592, 2008.

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