“A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns.” – frase atribuída a G. K. Chesterton (1874-1936), em “O homem comum”
A mentira mais repetida do mundo dos concursos é a de que ele foi feito para os brilhantes. A trajetória de Caroline de Almeida de Oliveira a desmente de ponta a ponta. Caroline foi criada pelos avós na roça, no interior de Minas. A família não tinha nenhuma grande pretensão para a menina. A escola serviria para ensiná-la a escrever o próprio nome, e era isso. Aos 13 anos, ela já trabalhava de empregada doméstica e, na escola, fugia das aulas de redação com medo de ter o texto corrigido. Certa feita, deixou a prova de inglês inteira em branco porque, nas palavras dela, não sabia nem pedir água no idioma estrangeiro. Terminou o ensino médio por supletivo.
Ainda assim, no primeiro dia de trabalho como analista técnica do Poder Executivo federal, ouviu da chefe: “Agora você é minha colega de carreira”. Tinha 44 anos e estava entrando em exercício naquele minuto, depois de ter sido aprovada em cinco cargos do Concurso Nacional Unificado. A chefe escolheu bem as palavras. Caroline passava a ter as mesmas atribuições e o mesmo contracheque inclusive de quem ficou no primeiro lugar da lista. Afinal, a ordem de classificação serve para escolher lotação e para a foto da posse; depois disso, o dia a dia na repartição trata do mesmo jeito quem entrou em primeiro e quem entrou por último.
Os cabeções existem, claro, mas são a exceção da exceção. Aliás, às vezes inteligência sobrando até atrapalha. Já vi aluno brilhante perder meses discutindo com a banca em vez de aprendê-la. Ele acha o furo na questão, escreve um recurso impecável, até tem razão, mas reprova. O concurso mede uma coisa só: se você marca o que a banca considera certo, e estar certo por conta própria não rende ponto. Quem é inteligente demais costuma estudar para se autoafirmar, diferentemente de alguém mediano, que, sem nada a provar, estuda para passar e aprende a resolver a prova do jeito que ela tem de ser resolvida.
Digo mais. Na maioria dos casos que vi de perto, ser mediano foi a própria condição que viabilizou a aprovação, porque a pessoa sabia, desde o primeiro dia, que precisaria se dedicar de maneira extraordinária se quisesse chegar lá. Além disso, a dedicação fora da média é obrigatória para todo mundo, inteligente ou não. O mediano apenas aceita isso mais cedo, pois nunca teve alternativa.
Um estudo iniciado em 1921 sustenta isso melhor do que qualquer opinião minha. Lewis Terman, psicólogo da Universidade Stanford, convencido de que o QI era capaz de apontar, ainda na infância, os futuros gênios do país, começou a selecionar crianças californianas com coeficiente a partir de 135, até reunir 1.528 delas. Acompanhou cada uma pelo resto da vida, e o estudo sobreviveu ao próprio Terman, atravessando décadas de questionários respondidos pelos que continuavam vivos. Os escolhidos ganharam até apelido, “termitas”.
Nenhum deles ganhou um Prêmio Nobel, mas dois meninos que foram rejeitados no estudo por terem QI insuficiente, William Shockley e Luis Alvarez, ganharam o Nobel de Física. E mais, quando Melita Oden, colaboradora de Terman, comparou os termitas mais bem-sucedidos com os que menos realizaram, encontrou uma média de QI praticamente igual nos dois grupos. A diferença estava na confiança, na persistência e no incentivo recebido cedo, em casa. Terman saiu à caça de gênios e acabou documentando, sem querer, o valor da teimosia.
Quem cresce ouvindo que é brilhante aprende a depender de sê-lo. Quando o primeiro platô chega, aquela fase em que a nota trava e o esforço parece não render, os que se acham verdadeiros prodígios interpretam como sinal de que não é para eles, porque jamais precisaram atravessar uma fase assim antes. É um território inteiramente novo para eles. Já uma pessoa, digamos, mediana interpreta como terça-feira. Ela nunca teve um talento no qual confiar, então precisou construir o próprio método para se diferenciar, e é justamente um bom método que permite superar uma fase ruim.
Sem ego para proteger nem facilidade no horizonte, resta ao mediano sentar a bunda na cadeira por muitas horas. É exatamente aí que o concurso é decidido. No fim das contas, ele é prova de permanência disfarçada de prova de inteligência.
O mestre Aragonê Fernandes, juiz, filantropo e professor que cativa milhares e milhares de alunos aqui no Gran, gosta de lembrar que nunca passou em primeiro lugar em nada na vida, nem chegou perto do pódio. Isso lhe ensinou desde cedo que, sem dedicação fora da média, não teria nem chance. Foi com ela que ele chegou à magistratura.
A Bíblia tem predileção por gente assim. Quando Deus incumbiu Gideão de libertar Israel, o rapaz respondeu com um currículo que depunha contra si: “Meu clã é o menos importante de Manassés, e eu sou o menor da minha família” (Juízes 6:15, NVI). A ordem que ele tinha recebido um versículo antes, contudo, talvez seja a instrução mais pragmática de todo o Antigo Testamento: “Com a força que você tem, vá libertar Israel das mãos de Midiã” (Juízes 6:14, NVI). Note que Deus não prometeu mais força, tampouco esperou que Gideão se sentisse pronto; apenas o mandou ir com a que tinha.
No capítulo seguinte, Deus ainda dispensou quase todo o exército. Dos 32 mil homens reunidos, mandou para casa os que tinham medo e, depois, quase todos os que restaram, até sobrarem trezentos, para que Israel não dissesse que havia vencido pela própria força (Juízes 7:2). Gideão foi, mediano como era, e venceu.
E você, caro leitor, querida leitora, até quando vai esperar se sentir especial para começar a estudar como quem vai passar? A sensação de ser especial é justamente a que atrapalha, porque cria uma pessoa que precisa de resultado rápido para continuar acreditando em si. Você não precisa dessa pessoa. Precisa de uma agenda, de uma cadeira e de tempo. Também precisa aceitar, como Caroline aceitou, que a dose de dedicação vai ter de ser muito maior do que se poderia esperar de alguém muito fora da curva.
Hoje, Caroline simula a aposentadoria no sistema do governo só pelo prazer de ver o próprio nome lá, o mesmo nome que a avó a levava à escola para aprender a escrever. A força dela era a mesma que você tem agora.
“Não tenho vergonha das minhas reprovações. Já tive tristeza e uma certa revolta com a minha história; hoje tenho muito orgulho dela.” – Caroline de Almeida de Oliveira, analista técnica do Poder Executivo federal, aprovada em cinco cargos do CNU, em entrevista ao Canal Imparável.
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: nova versão internacional. São Paulo: Editora Vida, 2011.
CHESTERTON, G. K. The common man. London: Sheed and Ward, 1950.
SHURKIN, Joel N. Terman’s kids: the groundbreaking study of how the gifted grow up. Boston: Little, Brown, 1992.
TERMAN, Lewis M. Genetic studies of genius. Volume I. Stanford: Stanford University Press, 1925.
TERMAN, Lewis M.; ODEN, Melita H. The gifted child grows up: twenty-five years’ follow-up of a superior group. Stanford: Stanford University Press, 1947.
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