Você está vivo. Faça algo a respeito.

Descubra como a consciência da finitude do tempo e a perspectiva sobre a vida podem transformar a preparação para concursos públicos e suas escolhas diárias

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“Tenha diante dos olhos, todos os dias, a morte e o exílio e tudo o que parece terrível, mas sobretudo a morte; e nunca terás um pensamento baixo nem desejarás nada em excesso.”

— Epicteto (c. 50 – c. 135 d.C.), filósofo estoico, em Enchirídion, 21.

A foto que abre este artigo me marcou profundamente. O menino deitado ali, inchado, cheio de tubos, com cara de paciente terminal, recebeu de um médico de UTI a notícia de que não passaria de quarenta e oito horas. Entrou em coma. Ficou mais de uma semana respirando por aparelho. E sobreviveu, sem que a equipe soubesse explicar por quê. O nome dele é Guilherme Silvesso Silva, tem vinte e seis anos, e decidiu honrar aquele dia todos os dias que vieram depois. Conversei com esse aluno do Gran no Imparável e saí da gravação pensando num texto que escrevi anos atrás: “Você vai morrer. Faça algo a respeito.” A ideia da época era chocar e acho que cumpria o propósito. Porém, talvez o título poderia ser outro. O que o Guilherme me ensinou cabe no espelho dele: você está vivo. Faça algo a respeito. Vamos olhar pelo lado positivo, sempre.

Guilherme foi criado em Ponta Porã, na fronteira seca com o Paraguai, pela mãe Angela, manicure, e pela avó Abigail, costureira. Em janeiro de 2012, aos onze anos, começou a cair no meio do futebol de rua e pedia aos amigos que não contassem à avó para não preocupá-la. Um hemograma, três hospitais e o diagnóstico: leucemia mieloide aguda. Quimioterapia em ciclos de vinte e quatro horas, a gota caindo devagar na veia. Numa madrugada acordou sem conseguir puxar o ar, a mãe o abanando com o que tinha na mão, uma música evangélica tocando baixo, e a equipe demorou horas para vir atendê-lo. Hemorragia pulmonar, parada cardíaca, coma induzido. Quando acordou, as pernas tinham atrofiado e os exames estavam um pouco menos piores do que antes, o que ninguém esperava. A mãe assinou um termo de responsabilidade, trocou-o de hospital contra a recomendação do médico e levou o tratamento até o fim.

O que me prendeu na história foi o que ele fez com o tempo em que estava deitado. Isolado no quarto, vendo as pessoas de fora apenas por uma janelinha de vidro na porta, Guilherme recebia os professores do sétimo ano na beira da cama. Estudava entre uma gota e outra. Disse que foi ali que aprendeu a aprender: sem bagunça e sem distração, sobravam ele, a matéria e alguém disposto a explicar. Quando voltou à escola, quinhentos e tantos dias depois, inchado pela cortisona e com apelido novo nos corredores, sentou na primeira carteira, perto do professor, porque sabia que os colegas iriam embora um dia e o estudo não. Terminou o fundamental com nota acima da turma que nunca saiu da escola. Encerrou a quimioterapia em 2014. Teve alta em 2019.

O resto parece crônica de aprovado, e é. Ciências Contábeis na universidade estadual, pandemia estudada de um quarto como quem já tinha vivido isolamento, o primeiro notebook comprado com o auxílio emergencial, um empréstimo para pagar o aluguel enquanto estudava para o primeiro concurso. Em fevereiro de 2022, técnico em contabilidade na UFGD: quarenta e quatro acertos em cinquenta questões, primeiro lugar, dezesseis pontos à frente da segunda colocada. Desde então, sete primeiros lugares, cinco posses, mais de vinte e seis mil questões resolvidas. Nono lugar para auditor do Tribunal de Contas do estado, primeiro para analista da Secretaria de Educação de Santa Catarina. Mas a conquista que ele coloca acima de todas não tem classificação: em 2024 comprou um terreno em Ponta Porã e construiu uma casa para a mãe, que escolheu da planta até o ralo do banheiro. “Imparável não sou eu”, ele disse. “Imparável é a minha mãe.”

Confesso, como caso meu, que, apesar de incomparável em dimensão e gravidade, eu consigo compreender um pouco dessa percepção de ter passado por uma experiência de reflexão profunda sobre a vida. Eu sou alguém que levou quatro tiros no rosto à queima-roupa e está aqui para escrever sobre isso. Foram segundos, sem cena de filme, e o que ficou daquela noite foi uma conta, mais do que uma lição. Depois dela, também sofri um acidente de carro que poderia ter terminado de outro jeito, passei a carregar um relógio que conta em vez de correr.

Na manhã seguinte a receber 4 tiros no rosto. As balas eram pequenas, algo como calibre .177, de chumbo, e nenhuma atingiu uma região crítica. Se tivesse ido um centímetro para o lado ou para outro, a história poderia ter sido bem diferente. 

Moisés, no último discurso da vida dele, resumiu a escolha que o Guilherme fez na UTI e que eu demorei três sustos para fazer: “Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida” (Deuteronômio 30:19, NVI). Escolher a vida, no texto, é verbo, com objeto e sem adjetivo. Quem está vivo escolhe todo dia, e a maioria escolhe por omissão.

Laura Carstensen, professora de psicologia em Stanford e fundadora do Centro de Longevidade da universidade, passou trinta anos estudando o que acontece com as prioridades de uma pessoa quando ela percebe que o tempo é finito. A teoria dela, chamada de seletividade socioemocional, mostrou em dezenas de estudos que o que muda o que valorizamos é a percepção do horizonte, muito mais do que a idade. Jovens diagnosticados com doença grave passam a escolher como idosos: menos gente, mais profundidade; menos novidade, mais significado. O Guilherme é o caso de laboratório: um menino de onze anos que recebeu o horizonte mais curto possível e, por isso mesmo, aprendeu antes de todo mundo a não desperdiçar uma tarde.

É aqui que isso deixa de ser assunto meu e do Guilherme e passa a ser assunto seu, amigo leitor concurseiro. Você tem uma data. A prova é um horizonte com dia e hora, e Carstensen explicaria por que quem estuda com a data na parede escolhe melhor do que quem estuda “até passar”. Mas há uma segunda camada, mais funda. O concurso é um horizonte; a vida é outro. Já vi gente aprovada que atravessou os anos de preparação sem ligar para a mãe, sem ir ao aniversário do filho, sem sentar à mesa, e chegou à posse com o cargo e sem ninguém para contar. O Guilherme passou em sete primeiros lugares e construiu uma casa para a mãe. Dá para fazer as duas coisas.

Você está vivo. O Guilherme, que, segundo alguns médicos, não deveria estar, está, e usa cada dia como quem recebeu uma segunda conta bancária. Eu, que levei quatro tiros no rosto, estou. Ligue para quem precisa ouvir a sua voz, abra a plataforma do Gran, feche o celular, sente à mesa, estude, honre a sua vida. Você está vivo. Faça algo a respeito.

Estude como quem tem uma data. Viva como quem tem um número.

Referências

BÍBLIA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2011. Deuteronômio, capítulo 30, versículo 19.

CARSTENSEN, Laura L.; ISAACOWITZ, Derek M.; CHARLES, Susan T. Taking time seriously: a theory of socioemotional selectivity. American Psychologist, v. 54, n. 3, p. 165-181, 1999.

CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. Goiânia: Editora da UFG, 1983.

EPICTETO. Encheirídion (Manual). Tradução de Aldo Dinucci. São Cristóvão: Editora UFS, 2012.

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