Outro dia, perguntei ao meu time quantas entrevistas eu já havia gravado para o Canal Imparável. Eu tinha perdido as contas, e a resposta me pegou de surpresa: 400. Quatrocentas noites de quinta-feira. Comecei no fim de 2018, um jovem introvertido, em um estúdio meio improvisado na minha sala à época e com uma pergunta que me parecia simples: o que essas pessoas aprovadas em concurso sabem que as outras não sabem?
Oito anos e quatro centenas de conversas mais tarde, acho que tenho a resposta.
A primeira convidada do canal foi Marilene Conceição, servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Antes do tribunal, ela ganhava a vida catando latinhas. Mãe de cinco filhos, chegava em casa à noite, alimentava a todos e só então se sentava e abria o material de estudo emprestado pela irmã. Houve dias em que estudou com fome. Quando a cabeça não obedecia, Marilene parava, orava pedindo concentração, bebia um copo de água e retornava para a mesa, ainda que aos prantos. Quando saiu o resultado que mudaria sua vida, ela o leu num ponto de ônibus e chorou ali mesmo.
Na época da gravação, ela já era servidora havia muitos anos, estava terminando outra faculdade, tinha se tornado intérprete de Libras e levado a cunhada pelo mesmo caminho. Saí daquela conversa certo de que tinha encontrado o segredo. Mal sabia eu que a coisa seria bem mais complexa.

Àquela altura, eu estava em busca de uma fórmula mágica para compartilhar com os alunos do Gran. “Qual era, afinal, o método de quem passava em concurso público?”, eu me perguntava. Fiz essa pergunta, literalmente, de quatrocentas maneiras diferentes, mas a resposta jamais veio, ao menos não da forma como eu esperava. Não parecia haver uma tática secreta. Os meus entrevistados foram bem-sucedidos usando os mesmos instrumentos que qualquer concurseiro conhece bem: videoaulas, PDFs, resumos, questões e revisão.
O que mudava de um para outro era uma preferência aqui e ali. Guilherme Silvestro Silva, por exemplo, escrevia à mão trinta páginas de resumo; Lucas Silva Leite, policial militar, estudava em blocos de dez minutos no alojamento, entre uma ocorrência e outra; Isadora Gonçalves de Menezes resolvia questões no metrô. Já entrevistei concurseiros que revisavam todo dia e outros que revisavam uma vez por semana; quem ouvia lei seca no banho e quem memorizava recitando o texto para si mesmo.
A verdade é que ninguém estava mais certo que ninguém.
Embora o método de cada um dos protagonistas das quatrocentas histórias variasse nos detalhes, o enredo-base era praticamente o mesmo. Quase sempre há alguém por quem estudar: uma mãe diarista, um irmão especial, um filho pequeno. Muitas vezes, o primeiro contato com o serviço público acontece por uma porta lateral, como um estágio no Ministério Público, uma vaga de terceirizado na Justiça Federal ou um emprego temporário no IBGE. É ali que a pessoa descobre uma vida que nem sabia existir. E, em geral, tudo começa com um concurso pequeno, avança para uma reprovação por poucos pontos, seguida da noite em que quase se desiste, o que só não ocorre porque aparece alguém com a frase certa.
Todos os meus entrevistados passaram muitas horas diárias com a bunda na cadeira, por meses ou anos, e abriram mão de algo: fim de semana, dinheiro, amigos, sono, viagens. Estudaram cansados, no ônibus, no metrô, no banco do Uber, na beira de uma cama de hospital. E, depois da posse, comemoraram a chance de dar uma vida melhor para os pais, para os filhos e, por que não, para si mesmos.
Gênio, mesmo, não encontrei nenhum… Fórmula infalível não existe, e eu parei de procurar. Hoje, tenho como base o ensinamento de Eclesiastes 1:9, NVI: “O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.” Por muitos anos, li esse versículo como lamento. Depois de testemunhar a história da Marilene se repetir, com outros nomes e outros cargos, quase toda quinta-feira desde 2018, passei a lê-lo com pragmatismo: o que se repete pode e deve ser seguido.
Devo muito a essas entrevistas. Gosto de escutar as pessoas, e o trabalho no Gran, felizmente, me proporciona isso. O que o canal no YouTube mudou foi o tamanho dessa escuta: quatrocentas pessoas, uma por semana, dispostas a relatar como foi o pior ano – ou os piores anos – de sua vida. Certamente chorei mais diante daquela câmera de vídeo do que em qualquer outro lugar.
Com o tempo, fui aprendendo a prestar mais atenção à cena que antecede o conselho final do entrevistado do que ao conselho em si. O conselho, a gente esquece na mesma semana; a cena fica, marcando fundo a alma: a manga verde com sal como única refeição, o mototáxi indo devagar no dia D para evitar acidente, a plaquinha no banco do carro anunciando o resultado.
Em 1943, o matemático Abraham Wald, da Universidade Columbia, foi chamado para ajudar a decidir onde blindar os bombardeiros da Segunda Guerra que retornavam cheios de furos de bala. Os engenheiros queriam reforçar onde havia mais perfurações, mas Wald recomendou o contrário. Afinal, os furos mostravam onde o avião aguentava ser atingido, porque os atingidos em outros lugares não tinham sequer voltado para ser examinados.
Por definição, eu entrevisto quem voltou. As quatrocentas pessoas são quatrocentos aviões que pousaram. Quem foi atingido no lugar errado não se senta na cadeira do meu estúdio.
A pessoa número quatrocentos e um talvez esteja lendo este texto agora. Não sei seu nome, sua cidade, seu cargo. Sei apenas o que ela provavelmente tem em comum com as outras quatrocentas: alguém por quem estudar, uma porta lateral, uma noite ruim, muitas horas de bunda na cadeira e nenhuma fórmula mágica.
Levei quatrocentas quintas-feiras para aceitar que a resposta que eu procurava em 2018 cabia numa frase, e que a Marilene tinha me dito essa frase logo na primeira entrevista: “Não é fácil, mas vai valer a pena.”
Gabriel Granjeiro CEO e sócio-fundador do Gran, maior Edtech do Brasil em número de alunos, com mais de 800 mil discentes ativos pagantes. Reitor e professor da Gran Faculdade. Acompanha o universo dos concursos desde a adolescência e ingressou profissionalmente nele aos 14 anos. Desde 2016, escreve artigos semanais para o blog do Gran, que já somam milhões de leitores.
Formou-se entre os melhores alunos em Administração e Marketing pela New York University Stern School of Business. Foi incluído na lista Forbes Under 30 (2021), eleito Empreendedor do Ano pela Ernst & Young (2024) e reconhecido pela MIT Technology Review como Innovator Under 35 no Brasil e na América Latina. Autor de cinco livros, sendo quatro best-sellers na Amazon Kindle.
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