Esvazie-se do orgulho e da vaidade

Gabriel Granjeiro


10 de Dezembro de 2018 5 min. de leitura

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.” – Honoré de Balzac (1799-1850), escritor francês

Já ouvi muita gente boa aconselhando amigos, colegas, parentes a “diminuir o ego” quando, na verdade, quer orientar as pessoas de quem gostam a se livrar da vaidade e do orgulho. Como diria o psiquiatra Augusto Cury, “a vaidade é o caminho mais curto para o paraíso da satisfação, porém ela é, ao mesmo tempo, o solo onde a burrice melhor se desenvolve”. De fato, há que ter muito cuidado para que a presunção e a soberba não tragam infelicidade ao minar relacionamentos ou destruir sonhos como o seu, meu amigo, minha amiga, de passar em um bom concurso público.

Sei que não é muito a minha praia, mas vou tentar primeiro explicar o que é ego à luz da psicanálise. Em seguida, apresentarei as principais facetas do orgulho e da vaidade.

O ego (ou “eu”), um dos três componentes estruturais básicos da psique, responde pelo ajustamento ao ambiente e pela solução dos conflitos entre o organismo e a realidade. Lida com os estímulos originários da mente e do mundo exterior, desempenhando a função de controle sobre as exigências das pulsões (impulsos ou instintos, segundo alguns autores). É o ego que decide se esses desejos devem ser saciados, adiando sua satisfação para ocasiões e circunstâncias mais favoráveis ou reprimindo parcial ou inteiramente as excitações pulsionais. O ego atua, portanto, como mediador entre o id (elemento instintivo e inconsciente, regido pelo princípio do prazer) e o mundo exterior. Tem de lidar também com o superego (espécie de juiz que estabelece a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem), com as memórias de todo tipo e com as necessidades físicas do corpo. Como o ego opera de acordo com o princípio da realidade, seu tipo de pensamento é verbal e se caracteriza pela lógica e pela objetividade. O ego é pressionado pelos desejos insaciáveis do id, pela severidade repressiva do superego e pelas ameaças do mundo exterior. Assim, sua função é tentar conciliar as reivindicações das três instâncias a que serve, ou seja, o id, o mundo externo e o superego. Para Freud, estamos divididos entre o princípio do prazer (que não conhece limites) e o princípio da realidade (que nos impõe limites). Por isso, é impossível subjugar o ego como muitos sugerem.

Tomemos o exemplo do concurseiro que, ao despertar numa bela manhã ensolarada de domingo, sente-se tentado a deixar pra lá o cronograma de estudos e ir passar o dia no clube pegando sol e tomando banho de piscina. O impulso de tirar o dia de folga e sem preocupação com deveres e metas é manifestação do id. O superego entra em cena para lembrar o concurseiro de suas responsabilidades, diminuindo um pouco o impulso de jogar tudo para o alto e entregar-se ao lazer. É então que nosso guerreiro, munido de um ego saudável que dá ouvidos ao seu juiz interior, abre mão do sol e da piscina e se dirige ao quartel-general dos estudos, ciente – e cioso – de sua missão.

Espero ter conseguido explicar como funcionam os elementos que compõem a nossa mente, pois agora preciso discorrer sobre as principais características, reações e atitudes das pessoas que nutrem inflados sentimentos de orgulho e vaidade. Antes, porém, cabe alertar que orgulho (em seu formato danoso), egoísmo, vaidade, inveja, ambição e ódio são variáveis do mesmo veneno que devemos eliminar do corpo pouco a pouco, dia após dia, com a ajuda das vacinas da caridade, da misericórdia e da humildade.

[…] orgulho (em seu formato danoso), egoísmo, vaidade, inveja, ambição e ódio são variáveis do mesmo veneno que devemos eliminar do corpo pouco a pouco, dia após dia, com a ajuda das vacinas da caridade, da misericórdia e da humildade.

A vaidade e o orgulho têm naturezas diferentes, apesar de ser comum o emprego dos dois termos como sinônimos. A vaidade é decorrente do orgulho e caminha bem próximo a ele, mas tem mais a ver com narcisismo. Quem é vaidoso tende a se preocupar excessivamente com sua imagem perante os outros, muito mais do que se espera de, por exemplo, um profissional que precisa estar apresentável para atender seus clientes. Em outras palavras, a preocupação com a aparência, diferentemente da vaidade, não é necessariamente algo ruim. Para algumas profissões esse zelo pode ser mais do que positivo, mais do que desejável; pode ser indispensável. Também não há nada de errado em comprar com dinheiro honesto boas coisas e usá-las como bem entender. O problema começa quando a pessoa pauta sua vida apenas pelas aparências e, pior, julga os outros com base nisso.

Se a vaidade tem a ver com o que queremos que os outros pensem de nós, o orgulho está mais relacionado à opinião que temos de nós mesmos, à autopercepção. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa, e é preciso destacar que nem sempre o orgulho é ruim. Orgulhar-se de ser brasileiro, de ter superado um desafio ou de compor uma equipe bacana são exemplos nobres desse sentimento. Em sua má acepção, porém, ele leva uma pessoa à soberba, à arrogância, à impressão de que é melhor do que os outros. Quando se manifesta dessa forma, esse é um sentimento perigoso, porque cega e impede o orgulhoso de se desenvolver, de melhorar. Você certamente conhece alguém tão orgulhoso que não consegue de jeito nenhum enxergar os próprios defeitos, não é? E o que dizer daquele concurseiro tão seguro de si que é incapaz de perceber como está longe de ser o exemplo de dedicação que imagina ser?

Entre as características ou condutas de alguém ORGULHOSO assim, gostaria de destacar as seguintes:

a) Contraria-se com muita facilidade, o que, em muitos casos, é fruto de pura insegurança;

b) Tem necessidade de ser o centro das atenções e de fazer prevalecer as suas ideias;

c) Não reage bem a críticas;

d) Não aceita que também pode ser falível e passível de cometer erros, fechando-se ao diálogo construtivo;

e) Faz pouco caso das ideias dos colegas, dos colaboradores, dos mais experientes;

f) Quando elogiado, enche-se de empáfia e de uma satisfação presunçosa, como se o elogio fosse a prova de sua importância, de seu valor, de seu prestígio;

g) Acha que tudo deve girar ao seu redor. Isso vale para todos: para os membros da família, para os colegas de trabalho, para os amigos;

h) Nunca demonstra fragilidade;

i) Pode ser irônico e debochado em discussões e debates.

Agora analisemos algumas das facetas mais comuns do VAIDOSO:

a) Tece autoelogios sempre que pode;

b) Esforça-se em realçar seus dotes físicos, culturais e intelectuais, sempre de forma antipática e com visível intenção de provocar os demais;

c) É intolerante com quem tem formação acadêmica ou posição social inferior à sua, incorrendo em comentários inconvenientes e deselegantes que poderiam ser evitados;

d) Não reconhece sua parcela de responsabilidade em eventuais infortúnios que atravesse;

e) É incapaz de reconhecer suas falhas e erros. Prefere atribuir seus insucessos à má sorte ou a uma conspiração do universo;

f) Gosta muito de falar, para ouvir a própria voz e demonstrar “toda a sua sapiência”.

h) Aspira a cargos de destaque e que gerem respeito à sua pessoa, ao seu talento, à sua sabedoria. Indisfarçadamente, almeja que suas qualidades sejam reconhecidas e admiradas pelos outros.

[…] jogue fora a vaidade e procure fazer tudo com modéstia, paixão, humildade, autenticidade e alegria e de forma respeitosa em relação a todos que o cercam.

Viu como essas características não são nada legais, amigo leitor? Então jogue fora a vaidade e procure fazer tudo com modéstia, paixão, humildade, autenticidade e alegria e de forma respeitosa em relação a todos que o cercam. Trabalhe ao máximo para se esvaziar do orgulho ruim, aquele que o impede de aceitar feedback de desenvolvimento e o leva a achar que sabe tudo; aquele que sabota as suas metas de longo prazo por privar você de paciência para aguardar o momento certo da colheita. Freud ensinou, e eu repito: “Lute pelo sucesso e não pela fama. Se a fama vier, dê pouca importância a ela”. O pai da psicanálise disse mais: “Existem duas maneiras de ser feliz nesta vida: uma é fazer-se de idiota, a outra é sê-lo”.

É isto, meu amigo, minha amiga: não queira ser melhor do que ninguém; queira, sim, ser amanhã uma pessoa melhor do que foi hoje.

Vamos em frente, juntos, sem orgulho, sem vaidade, com o ego saudável e, acima de tudo, felizes por estarmos na direção certa rumo à realização dos nossos sonhos.

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“Se dois indivíduos estão sempre de acordo em tudo, posso assegurar que um dos dois pensa por ambos” – Freud

GRAN sucesso,

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Gabriel Granjeiro – Diretor-Presidente e Fundador do Gran Cursos Online. Vive e respira concursos há mais de 10 anos. Formado em Administração e Marketing pela New York University, Leonardo N. Stern School of Business. Fascinado pelo empreendedorismo e pelo ensino a distância.

 

 

 

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Gabriel Granjeiro

Presidente e sócio-fundador do Gran Cursos Online

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Comentários (207)

Avatar Paula Cristina Borges Rodrigues 12 de Outubro de 2020

Combinado Gabriel granjeiro
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Agradeço desde já
Obrigada 🙂

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Avatar Crisley 9 de Dezembro de 2020

combinado!

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Avatar RitaBetania 5 de Janeiro

cominado.

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Avatar Yasmin 6 de Maio

Combinado!

 Responder

Avatar Caroline 11 de Junho

Parabéns pelo artigo. Seu texto é maravilhoso e me permitiu fazer muitas reflexões, se você me permitir, gostaria de fazer um adendo.
Se a censura do superego é determinada apenas pela cultura e a sociedade. Onde é que fica os valores do indivíduo ?
Não creio que apenas o nosso instinto e a censura alheia imposta pela cultura e pela sociedade são capazes de determinar as nossas ações, pra mim os valores do indivíduo também são importantes.
Nossos valores fazem parte da nossa identidade. Observe que apenas uma crença limitante é capaz de determinar a direção das nossas vidas.
Obrigado pelo rico texto e mais uma vez, Parabéns. E a resposta para a proposta do texto é: Combinado

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