Tempo para todas as coisas

Gabriel Granjeiro


15/06/2020 | 14:57 Atualizado há 291 dias

Visualize a imagem a seguir. Você, de muitíssimo perto, está olhando para um quadro sem se dar conta de que ele integra uma enorme instalação, que vai muito além do que você consegue ver. Em seu campo visual limitado, é capaz de enxergar apenas um borrão escuro. Interpreta, então, que o autor do quadro quis pintar um retrato da escuridão. Mas eis que, ao se afastar o suficiente da tela, finalmente nota que aquele borrão é, na verdade, a sombra de uma entre várias árvores, e o retrato mostra um dia ensolarado numa floresta. Com a visão da imagem completa, a arte ganha uma nova dimensão.

Por que propus esse exercício de imaginação? Porque com ele, caro leitor, é possível demonstrar que nem sempre enxergamos, em sua inteireza, a realidade que nos circunda. Para nosso azar, é fácil acreditarmos que a parte corresponde ao todo e que uma situação singular e passageira sintetiza a nossa existência, como se não houvesse nada além do que enxergamos naquele exato instante. E como nos deixamos abalar com isso… Como uma visão parcial da realidade nos faz perder a confiança em nós mesmos e em nosso potencial…

Infelizmente, é muito comum, ao vermos de muito perto a tristeza, passarmos a entendê-la como algo inerente à vida. Da mesma forma, focando apenas a escuridão que, em nossa linha temporal, marcam as falhas pontuais, podemos facilmente generalizar, como se toda a trajetória tivesse sido em breu total. Simplesmente ignoramos os numerosos pontos de luz que vislumbramos em nossa caminhada. É triste pensar que, se nos afastássemos só um pouco do quadro, logo perceberíamos que a vida se insere num campo bem mais amplo, e aquilo que estávamos enxergando como se fosse o todo era apenas um dos vários tempos da nossa existência. É dessa ideia que vem a máxima a inspirar o tema da nossa conversa de hoje: “Há um tempo para todas as coisas.

Os nomes dos meses podem até se repetir, ano após ano, bem como os dias da semana e as horas. No entanto, serão outros meses, outras semanas, outros dias, outras horas. Outro tempo. A combinação desses diversos anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos é o que dá origem a uma vida cheia de fases, na qual há um tempo reservado para cada coisa. Você, eu, todos nós, chegamos ao mundo como seres completamente indefesos, bebês a requererem cuidado e atenção praticamente o tempo todo. No início, ingerimos apenas leite e água; meses mais tarde, passamos a consumir comida pastosa e vegetais amassados; só depois – devidamente munidos de dentes –, somos promovidos à fase dos alimentos sólidos. Desenvolvemos coordenação motora, aprendemos a falar, depois a ler e escrever… E é assim que crescemos dia após dia, tornando-nos, etapa após etapa, aptos a realizar atividades antes impossíveis ou complexas demais, chegando ao ponto de superar em quase tudo quem nos ensinou tanto: os nossos pais e mestres.

Cada uma dessas fases é importante a seu modo e, se as pulássemos, ávidos por viver logo a vida, estaríamos correndo riscos desnecessários. Quando bebês, poderíamos engasgar com alimentos mais duros oferecidos antes da hora. Crianças ainda descoordenadas, estaríamos sujeitos a graves acidentes numa atividade inadequada à nossa faixa etária. A vida sempre vai nos pedir paciência. A pressa é, para dizer o mínimo, temerária. Forçar um salto de etapas tem potencial para infligir grande sofrimento.

Você sabia que, no Brasil, um em cada três casamentos termina em divórcio? Ouso dizer que muitos casais tiveram ou têm uma união infeliz simplesmente porque não souberam esperar até estarem prontos para o matrimônio. Não aguardaram o tempo certo para essa conexão contínua. Não tiveram paciência de esperar o necessário para serem bem-sucedidos no projeto de compartilhar a vida um com o outro, e para sempre. Esse dado ilustra como é importante respeitar o tempo das coisas. Nada de queimar etapas.

O tempo é a matéria-prima da existência, e nossa compreensão dele faz toda a diferença quando se trata de realizar sonhos. Tem gente ansiosa porque quer viver um tempo que ainda não chegou. Tem gente rancorosa porque vive o tempo passado, carregando o que já se foi e deveria ficar lá atrás. Há gente sobrecarregada porque tenta centralizar tarefas que já deveria ter delegado e se frustra por não conseguir fazer tudo ao mesmo tempo.

Outro ponto que temos de entender é que a nossa existência é, por natureza, instável. Quem não compreende isso é capaz de, em dias extremamente alegres, enganar-se, acreditando que aquele período pode se estender para sempre e tomar decisões baseadas em um otimismo fantasioso. Analogamente, em circunstâncias tristes, tende a desejar reclusão eterna, achando que a frustração e o desencanto nunca terminarão. Em momentos de entusiasmo, vê-se traçando planos e metas loucamente, talvez além do que é humanamente possível de se fazer. Você já deve ter percebido que, longe desses excessos, o ideal é vivermos um dia de cada vez, com calma e sabedoria. Tudo no seu tempo.

Há tempo para o descanso, que talvez precise ser adiado se você estiver batalhando por um sonho. Há tempo para viver a agitação da juventude, que também pode ser um pouco postergado se o momento é propício a esse tipo de sacrifício em troca de um grande avanço rumo àquele mesmo sonho. Há tempo certo para largar, deixar ir, abrir mão, assim como há para segurar, abraçar, reter. Só não há tempo a perder. Ser negligente com o tempo NÃO é uma opção, leitor amigo, pois ele jamais volta. Para aproveitá-lo bem, temos de saber a hora de dizer sim e a hora de dizer não, mesmo nas decisões mais difíceis, justamente as que demandam maior esforço de nossa parte.

Por isso, um alerta: não adie o que deve ser feito hoje, tampouco faça as coisas de qualquer jeito e açodadamente. Faça o que precisa ser feito exatamente quando tem de ser feito. Não se culpe ao sentir, por exemplo, que não está dedicando às pessoas que ama o tempo que gostaria. Reflita objetivamente: talvez você esteja agindo errado, ou talvez esteja sendo coerente com o seu tempo; afinal, há momentos em que ficamos menos presentes por pura imposição da vida. Assim como um filho um dia sairá de casa em definitivo, para se dedicar aos próprios projetos, haverá períodos de distanciamento temporário, quando ele precisará se isolar um pouco para se desenvolver como indivíduo. Isso não faz dele um filho ingrato ou menos amoroso. Essa fase também passará um dia, e uma família saudável, sabendo disso, compreenderá as ausências.

Ah! E tenha paciência. Calma e tranquilidade permitem perceber a vida, as delicadezas do tempo. Sem paciência, incorremos no erro crasso de não notar as coisas que precisam ser notadas. Perceber a singularidade da existência é algo raro, assim como depositar a alma – tudo aquilo que faz sentido – nos gestos mais simplórios. Como nos ensina Rubem Alves, “existem coisas que são mais que coisas… são coisas que nos fazem lembrar”. Atento a isso, costumo dedicar minha absoluta atenção a momentos frívolos e cotidianos, que, assim, ganham mais significado e importância. Quando, por exemplo, chego à empresa ou entro em casa, faço questão de sentir minha alma vindo junto. Isso dá outra dimensão ao que poderia ser encarado como mera rotina, que se converte em senso de propósito ou de dever cumprido.

Em resumo: um momento não representa toda a sua existência. Pode ser que hoje estejamos todos vivendo um tempo difícil – quem não está enfrentando algum tipo de restrição, não é? –, mas vai passar. A pandemia de covid-19 nos pegou de surpresa e impôs situações sem precedentes na história recente. É um tempo estranho, diferente, complicado, mas é o tempo do agora. Se, para você, tem sido tempo de chorar, chore, mas sem perder de vista que uma hora será preciso enxugar as lágrimas e seguir em frente. Se tem sido tempo de lutar, então lute, mas ciente de que uma hora terá de buscar a paz. Cada coisa no seu tempo; cada dia trazendo uma nova oportunidade; cada instante compondo uma raridade; cada respirar, uma dádiva.

Espero encontrar você em um Gran Dicas ou, quem sabe, já na comemoração pela posse no cargo dos seus sonhos, tão logo retornemos ao tempo de abraços, de calor humano, das demonstrações de afeto pelas quais o brasileiro é conhecido e admirado. Vai acontecer. As coisas vão voltar ao normal. Tudo passa, no tempo certo.

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“Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu:
tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou,
tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir,
tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar,
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter,
tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora,
tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar,
tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.”
Eclesiastes 3:1-8

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Gabriel Granjeiro – Diretor-Presidente e Fundador do Gran Cursos Online. Vive e respira concursos há mais de 10 anos. Formado em Administração e Marketing pela New York University, Leonardo N. Stern School of Business. Fascinado pelo empreendedorismo e pelo ensino a distância

Gabriel Granjeiro

Presidente e sócio-fundador do Gran Cursos Online
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