Como lidar com a culpa

Culpa é o sentimento de dívida. Vem da impressão de ter falhado consigo mesmo ou com alguém, percepção essa que pode ou não corresponder à realidade. Todo ser humano está sujeito a essa sensação, exceto os sociopatas, por serem privados da bússola moral que indica o que é certo e o que é errado. Em outras palavras, trata-se de sentimento inerente à condição humana, mas sabe qual é o problema de não se conseguir gerenciá-lo? O problema, caro leitor, é que ficar remoendo a culpa não produz efeito prático algum, apenas abre portas para lamúrias e mais lamúrias. Pior ainda, pode tornar você mais um refém do medo, incapaz de esboçar reação. Percebe que funciona como um veneno dos mais potentes? Então, quais seriam os antídotos? Continue lendo, que talvez eu possa oferecer alguma resposta.

Primeiro, é preciso compreender a origem desse sentimento. Entenda que ele está sempre relacionado a uma decisão tomada no passado, com reflexos no presente. Por exemplo, a culpa que talvez você, concurseiro, carregue hoje, por não passar com a família o tempo que gostaria, é fruto de sua decisão de mudar de vida por meio dos estudos. Lembra-se de tê-la tomado, lá atrás?

Segundo, temos de aceitar que frustrações são inevitáveis, mas ruminá-las ou não, ao contrário, está sob nosso total controle. Como explica a psicóloga e professora do Gran Kátia Lima, a quem consultei antes de redigir este artigo, “a ruminação relacionada à culpa, à luz da psicologia cognitivo-comportamental, vem de um pensamento inútil, caracterizando, assim, uma atividade mental sem propósito, que não nos levará a lugar nenhum”.

Um tipo de culpa é a chamada “situacional”. Ela surge após um fato ou a tomada de certa decisão e pode ser descrita como uma espécie de hesitação sobre ter feito o que fez e do jeito que fez. Ora, erros e acertos constituem experiências, fazem parte da vida. Assim, uma decisão que gere resultados extraordinários pode, igualmente, produzir consequências negativas. Não se martirize. Não se condene. Procure pensar que você agiu de acordo com as informações disponíveis e as condições do momento. Você deu o seu melhor conforme o seu entendimento da época, e ponto.

Outro tipo é a culpa subliminar, sem conexão com nenhuma ação concreta, nenhum evento em particular. Tem a ver com sensações difusas como a de não estar sendo um bom filho, esposo, indivíduo; ou a de estar deixando a desejar nos estudos, na academia, na alimentação… Talvez esse tipo de culpa seja mais prejudicial por criar fantasmas que assombram o tempo todo, iniciando um círculo vicioso no qual, quanto mais nos culpamos, mais repetimos o “erro” original, que resulta em mais culpa, e assim sucessivamente.

Claro, a culpa tem lá a sua função social e individual. A pesquisadora Brené Brown explica que o sentimento é saudável quando nos move em direção a pensamentos e comportamentos positivos, ao desenvolvimento como ser humano. É com base nas lições aprendidas a cada tropeço que vamos criando saídas para situações desconfortáveis que experimentamos. A culpa é, assim, parte da solução.

O problema surge quando não mantemos nossos sentimentos sob controle. Explico: uma pessoa consumida pela culpa tende a perseguir formas de castigo, julgando-se merecedora de punição, e isso leva facilmente à autossabotagem. A penitência provoca a ilusão de que se está quitando a “dívida”. Cegos e confusos, esquecemos que a vida não tem interesse algum em nos punir. Para ela, basta aprendermos com a experiência e seguirmos em nosso crescimento. “Menos culpa, mais aprendizado!” É esse que precisa ser o nosso mote.

Dra. Juliana Gebrim, outra psicóloga do Gran que ouvi em busca de informações mais precisas para este artigo, sugere algumas formas de lidar com a culpa:

  1. Substitua-a pelo senso de responsabilidade.

A conotação negativa da palavra “culpa”, que lembra martírio, precisa ser substituída por outra, mais propositiva. “Sim, eu poderia ter feito diferente. Assumo a responsabilidade por isso e vou agir de outra forma com as informações que tenho hoje” deve ser o pensamento a nos guiar. Analise bem: você foi mesmo causador do evento que deu origem a seu sentimento de culpa? Será que não está tomando para si a responsabilidade por algo que era inevitável? Se você foi mesmo o grande responsável, aprenda com a experiência, e bola pra frente!

  1. Humanize-a.

A culpa integra nosso processo de construção como pessoas. Tudo bem senti-la, mas é essencial compreendê-la como um norte para agirmos diferente. Lembre-se: não somos máquinas, das quais se espera perfeição, mas seres humanos, falíveis por natureza.

  1. Trabalhe a autocompaixão, a capacidade de cuidar de si mesmo e de ser compreensivo com os próprios erros.

Nossas ações não nos definem, amigo leitor. Exercer a autocompaixão é essencial no controle do estresse, na melhora da autoestima e na gerência da culpa. Tenha mais carinho por si mesmo.

  1. Relembre quais eram suas intenções no momento da ação.

Se você agiu conforme o melhor entendimento que tinha na época, não há motivo para se culpar tanto. Talvez hoje não fizesse igual nem tomasse a mesma decisão, mas o contexto é outro. Ou você acha que não pode errar nunca? Só se vive no agora, e já conversamos sobre isso. Não teríamos a maturidade de hoje sem os tropeços de ontem, lembra?

  1. Implemente a técnica do “a partir de hoje”.

Anote ou registre mentalmente as lições do passado, zere o histórico e pense: “O que vou fazer diferente a partir de agora?” É preciso ser pragmático, transformando o sentimento de culpa em atitude para mudar o futuro.

  1. Use o arrependimento para perdoar.

O último estágio da culpa, o arrependimento, antecede o momento em que finalmente conseguimos perdoar a nós mesmos e ao próximo. Como sempre digo, o maior beneficiado em perdoar é você mesmo, não importa o que a outra pessoa fez! Seja sagaz e pratique o perdão.

“A verdade sai do erro, por isso nunca tive medo de errar, nem dele me arrependi seriamente”, disse, certa vez, o psiquiatra suíço C. G. Jung (1875-1961). Temos de ser mais benevolentes com nós mesmos ao falharmos. O erro é o caminho do acerto e deve ser visto como útil, construtivo.

A ideia, portanto, é, quando sofrermos algum desgosto ou perturbação, não perdermos tempo repassando os fatos na mente, sucessivas vezes, em busca de culpados. O melhor é analisar o que aconteceu, com o cuidado de separar agente e ato – que, afinal, não se confundem –, e extrair da experiência o máximo de lições possível. Estamos em contínua construção, e não é nada razoável se culpar por não ter agido de uma dada maneira no passado. Nunca é demais lembrar que a consciência que temos hoje é resultado dos erros e acertos de ontem.

Você pode ter falhado inúmeras vezes, muitas delas de forma bastante grave, mas você não é um erro. Nenhum de nós, aliás. Não cultive mais esse sentimento. Se ele surgir, dê passagem para que vá embora logo. Aprenda com sua própria história, perdoe-se e siga em frente. Não carregue mais peso do que consegue. Com a consciência de hoje, você pode escrever novos e melhores capítulos para o seu amanhã, não reescrever os de ontem.

Eu acredito nisso, e você?

“A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.” Sêneca

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Gabriel Granjeiro – Diretor-Presidente e Fundador do Gran Cursos Online. Vive e respira concursos há mais de 10 anos. Formado em Administração e Marketing pela New York University, Leonardo N. Stern School of Business. Fascinado pelo empreendedorismo e pelo ensino digital.

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Gabriel Granjeiro
Gabriel Granjeiro
Diretor-Presidente e Fundador do Gran Cursos Online
29 Comentários

29 Comentários

  1. Jefferson

    18/01/2021 18:06em18:06

    Que texto, muito útil!!!

  2. Célia

    18/01/2021 18:25em18:25

    Valeu, Gabriel!

  3. Maria de Fatima

    18/01/2021 19:25em19:25

    Gostei do texto Gabriel. Obrigada por compartilhar seus conhecimentos conosco, você ao meu ver é uma pessoa incrível e merecedor de tudo o que possui, que Deus te abençoe para que vc continue a ajudar as pessoas.

  4. Edilaine Bonato

    18/01/2021 20:55em20:55

    Maravilhoso esse artigo, Gabriel! Como todos os que você escreve. E, ousadamente, faço uma complementação final com a frase de Martinho Lutero, a qual tem tudo a ver com o tema de sua obra de hoje: “Não podemos impedir que os pássaros voem sobre as nossas cabeças, mas podemos impedir que eles façam ninhos sobre elas. Assim também não podemos nos livrar de sermos tentados, mas podemos lutar para não cairmos em tentações.” (Martinho Lutero)

  5. Isabela Dos Santos Ferreira

    18/01/2021 21:00em21:00

    Texto ótimo,Gabriel!Mas pior q se culpar é conviver com quem faz questão de te lembrar de pequenos erros do passado e te massacrar por isso. Coisas de 15, 20 anos atrás. Isso te faz se sentir incapaz, inútil, se desvalorizar.Graças a Deus existe terapia e autoconhecimento pra nos livrar desses pesos desnecessários trazidos pela culpa.

  6. VITORIA

    18/01/2021 22:28em22:28

    Texto muito útil e necessário no meu atual momento.
    Me culpo/arrependo de coisas simples e constamente.
    Lembrar que não sou aquele erro é fundamental.
    E sim, posso construir em cima dos erros.
    Obrigada!

  7. Fenelon Neto

    18/01/2021 22:40em22:40

    Parabéns pelo texto Gabriel, é sempre importante absorver essa ideia e nos perdoarmos. Pra mim essa mensagem veio em um excelente momento, reta final de estudos e a cabeça cheia de coisas, preocupações e a tão falada culpa, principalmente em razão de um ano muito difícil como 2020 e em particular pra mim com acontecimentos pessoais que me atingiram fortemente, além da pandemia. Hoje me sinto muito pressionado a passar no tão sonhado concurso e o sentimento de culpa por ter tomado decisões erradas vinha me dominando e atrapalhando os estudos. Daqui pra frente me esforçarei mais em focar no que realmente importa e gastar minha energia com bons pensamentos, com os estudos e com o presente, aprender a deixar o que passou no passado. Muito grato pela mensagem, ela definitivamente trouxe uma paz e sei que ajudará muitos estudantes a colocar a cabeça no lugar nesse árduo período de preparação. Um forte abraço!

  8. Mariana Marques

    18/01/2021 23:36em23:36

    Foi o texto que eu estava precisando ler hoje! Obrigada

  9. Sabrina

    19/01/2021 00:08em00:08

    Foi muito útil. Muito obrigada Gabriel!

  10. Sabrina Vresinski

    19/01/2021 01:09em01:09

    Precisava ler isso! Ótimo artigo! Parabéns!

  11. Luana Caroliny de Araújo Silva

    19/01/2021 01:35em01:35

    Que texto maravilhoso, me emocionei!!

  12. IRIS L S PANTOJA

    19/01/2021 07:02em07:02

    Muito útil! Obrigada!

  13. Anderson Messias dos Santos

    19/01/2021 08:05em08:05

    Excelente texto … nos últimos dias fora justamente um misto de culpa e ansiedade que me consumiram. Com 38 anos não tenho ensino superior, porém, só posso mudar como bem diz daqui para frente, hoje (na verdade em julho 2020) tomei a decisão estou cursando Gestão Financeira, acrescido do estudo para concursos, é um período de abrir mão de coisas em função da minha escolha! Adquiri o assinatura ilimitada, e com a minha dedicação o céu é o limite! Obrigado por compartilhar! Forte abraço e sucesso a todos!

  14. Julio

    19/01/2021 08:18em08:18

    Muito importante o texto. Só adicionaria que em tantos outros casos de “culpa”, será preciso estar atento a outros fatores para obter uma ressignificação funcional ao indivíduo. Processo facilitado pela ajuda de um profissional da área.

  15. Fernanda

    19/01/2021 08:33em08:33

    A culpa é um fantasma que de vez em quando aparece para me assombrar. Eu não consigo substituí-la, mas busco que ela fique só alguns instantes e aí busco seguir com os meus objetivos atuais. Ela perturba um pouco, mas há outros sentimentos que me impulsionam, embora ela sempre volte. Esse fantasma serve para que eu me mantenha alerta para não repetir os mesmos erros como bem explica o texto.

  16. Ednelma

    19/01/2021 08:57em08:57

    Esse texto foi pra mim. Gratidão demais
    Nunca mais vou ficar com esse sentimento de culpa
    Deus abençoe a vc que escreveu esse texto grata mesmo

  17. Diego da Silva

    19/01/2021 08:58em08:58

    Obrigado, meu amigo! Obrigado por mais esse texto.

  18. Marcio Gauthier

    19/01/2021 11:12em11:12

    Texto de grande valia, obrigado.

  19. Nilene

    19/01/2021 14:08em14:08

    Nossa esse texto me fez refletir bastante daqui em diante sem culpas ….e seguindo com foco nos objetivos….

  20. Carla Souza Oliveira

    19/01/2021 15:25em15:25

    Ótimo texto!

  21. Machado

    20/01/2021 21:21em21:21

    UM excelente texto, pois foi contado nele a minha história a qual vivi boa parte da minha vida, mas pela graça e misericórdia de Deus fui liberto.

  22. Natasha Silva

    21/01/2021 09:25em09:25

    Ótimo texto vai me ajudar muitíssimo a lidar com esse sentimento.

  23. Rosinayra da silva Teixeira

    25/01/2021 22:37em22:37

    Esses sentimentos de culpa se faz presente em todos os momentos de minha vida. É um dos desafios a enfrentar para seguir em frente em busca de meus objetivos.

  24. Augusto de Paula Lemes

    26/01/2021 11:00em11:00

    Ótimo texto, excelente iniciativa da plataforma!

  25. Gustavo Menezes

    27/01/2021 10:49em10:49

    Hoje é meu aniversário e esse texto foi um presente pra mim. Me senti culpado por coisas que não tinha como evitar por muitos anos. Sei que existe várias etapas, mas começar a trabalhar a aceitação vai me deixar com mais possibilidade de encara o futuro.

  26. Flávia

    01/02/2021 15:30em15:30

    Gabriel, saiba que esse texto me trouxe uma reflexão que faz 2 anos que procuro, com diversos psicólogos. Uma luz acendeu pra mim com essa perspectiva que você mostrou. Muito obrigada por trazer essa rede de apoio no seu site. Você muda vidas com as suas palavras! Que você e sua vida sejam perenemente abençoados! Fica com Deus!

  27. Flávia

    01/02/2021 15:32em15:32

    Gabriel, saiba que esse texto me trouxe uma reflexão que faz 2 anos que procuro, com diversos psicólogos. Uma luz acendeu pra mim com essa perspectiva que você mostrou. Muito obrigada por trazer essa rede de apoio no seu site. Você muda vidas com as suas palavras! Que você e sua vida sejam perenemente abençoados!

  28. ÉRICA FERNANDA PACHECO DE MELO

    18/02/2021 17:43em17:43

    Culpa é um ciclo. Gostei da ideia de substituí-la por autorresposabilização, em vez de autossabotagem. Obrigada.

  29. Naigara

    28/02/2021 14:02em14:02

    “Nossas ações não nos definem, amigo leitor. ” se não as ações, o que nos define?

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